Reginaldo no Seminário Heliópolis, Bairro Educador. Acervo UNAS.

Reginaldo José Gonçalves, 43 anos, é morador de Heliópolis, membro da diretoria ampliada da UNAS e uma das maiores lideranças entre as juventudes no bairro. Em 2019, me concedeu uma entrevista para um trabalho de especialização que eu estava fazendo sobre os(as) jovens da comunidade.

Interessava-me na época entender melhor o papel que as juventudes têm no processo de transformação social. Nesse sentido, ficava, fico ainda, bastante intrigada com os diálogos possíveis entre as diferentes gerações. Meus primeiros trabalhos como educadora começaram quando eu ainda era jovem e durante todo esse período da minha vida, contando com a adolescência, tive os maiores embates e os maiores apoios dos adultos que me rodeavam. E esses embates e apoios, muitas vezes até se confundindo entre si, formaram a pessoa que sou hoje. Por isso, agora que já sou adulta, me pergunto qual o meu papel como educadora, frente às diferentes gerações que passam e passarão por mim.

O relato de Reginaldo que mistura sua história de vida com contundentes análises sobre as juventudes, nos ajuda a pensar sobre essa e outras questões, pois ele começou na militância ainda jovem e sua história perpassa várias gerações de Heliópolis: as que vieram antes dele e as que vieram depois.

Conversamos durante mais de uma hora e apresento aqui para vocês os principais trechos dessa conversa, para mim foi uma honra e um prazer. Aprendi muito! Espero que vocês gostem também.

EMEF PRES. CAMPOS SALLES

Eu nasci no São João Clímaco, que fica ao lado de Heliópolis, vim morar no bairro quando tinha 5 anos, porque na época o aluguel lá era muito caro, então minha tia conseguiu uma doação de terreno pela igreja e chamou os meus pais.

Primeiro eu comecei a estudar em uma escola estadual e depois fui para a EMEF Pres. Campos Salles, que hoje tem um projeto pedagógico transformador, estudei lá antes do Braz Rodrigues Nogueira vir ser diretor. Na época, era considerada uma das piores escolas da região, ninguém queria ter o filho estudando lá, mas era mais próxima da comunidade e meus pais trabalhavam, então era mais fácil para eles porque a gente se virava para ir.

Acho que eu estava no último ano quando o Braz chegou. Então eu peguei essa transição. A mudança do que era a Campos Salles naquela época e do que é agora, não só da qualidade da educação, mas dessa parceria entre escola e comunidade foi muito interessante, porque uma escola que era vista como um espaço negativo, ninguém queria ter um filho lá, se transformou numa escola que todo mundo quer participar, se tornou uma escola referência até para outras comunidades. A escola conseguiu aumentar o índice da qualidade do ensino, criou uma metodologia de trabalho totalmente diferenciada, que a gente acredita hoje: do jovem como protagonista, do aluno ser a referência, que um ensina para o outro, educação em círculo, uma coisa totalmente diferente da minha época.

Na minha época, a gente vinha para a escola porque era obrigado, porque os pais mandavam, e eu vejo nessa nova geração, com essas novas metodologias educacionais e tudo o mais, novas estratégias, aulas de robótica, informática, eles gostam de estar aqui nesse espaço, faz total diferença. Na minha escola não tinha isso, era uma coisa muito quadrada, a professora na lousa passando a informação e você ali quietinho não podia nem falar nada, nem dialogar…Trabalhar com música, impossível!

A UNAS

Eu me tornei um militante mesmo, quando entrei para uma associação de moradores local a UNAS (União de Núcleos e Associações de Moradores de Heliópolis e região) através da Rádio Comunitária, mas não foi um processo simples.

Eu era DJ, tocava, tinha uma equipe de som, chamada Equipe de Rotação 2000, que era eu, um dos primeiros DJs de Heliópolis que era o DJ Sapão e o DJ Gozima. E a gente tocava, na época tinha muita festa junina, quermesse, festa das escolas e tudo o mais, e a gente era chamado para tocar nesses eventos. E tinha a rádio Comunitária Heliópolis, que a gente acompanhava desde a época em que ela era apenas uma rádio Corneta. Era uma corneta mesmo que ficava no Copa Rio, que era um campo de futebol aqui dentro de Heliópolis, que a gente frequentava muito e escutava a rádio.

Em 1997 a rádio passou a ser escutada no dial e a gente viu uma oportunidade para poder divulgar mais o nosso trabalho. Aí a gente começou a acompanhar a rádio, e conseguiu um horário na programação para fazer nosso programa, que na época chamava “Black Mania”.

E foi assim que conheci um pouco do trabalho da UNAS, eu entrei para divulgar nosso trabalho, a gente pensou que a rádio podia ser uma oportunidade para gente pegar mais festas, mais eventos na comunidade.

Mas então, quando a gente estava com a programação bombando, a Gerohhanah Barbosa, uma mulher trans liderança comunitária de Heliópolis que era a coordenadora da rádio na época, chamou a gente para uma reunião e falou que queria rever nossa programação, a gente achava que ela ia aumentar nosso tempo! Mas ela disse: “esquece seu trabalho de DJ porque agora você é um comunicador social, você está a serviço da comunidade”.

Na hora a gente não entendeu muito, mas depois eu fui perceber o que ela tinha falado, porque as pessoas começaram a parar a gente na rua pra falar sobre muitas coisas, desde criança desaparecida, documento, cachorro, papagaio, até os problemas da comunidade mesmo, esgoto a céu aberto, de cobrar a subprefeitura para resolver esses problemas e a gente viu que realmente era uma responsabilidade enorme, e que a gente estava tendo uma possibilidade de estar à frente da rádio e servir à comunidade.

A rádio não tinha nem telefone para você ter uma ideia, as pessoas iam lá, pediam para tocar música e falavam: “daqui 5/10 minutos você toca, moço” para dar tempo de chegar em casa e escutar a gente falando dela, para você ver como a rádio era o “bum” do momento naquela época.

E eu comecei a me envolver nas formações que a UNAS estava desenvolvendo naquela época para as lideranças. E eu, como representante das juventudes, fiz alguns trabalhos voluntários, até aparecer a oportunidade de fazer uma oficina de DJ, no começo eu achei que não ia ser capaz, porque tocar é uma coisa e ensinar é outra. E a gente começou a trabalhar no projeto chamado “Se Liga Galera” um projeto que tinha oficina de DJ, teatro, aula de cidadania…

Eu dava aula lá toda semana e fui percebendo a importância desses projetos, dessas atividades e tudo que a UNAS representava para a comunidade. Era uma oportunidade de ter realmente um espaço que promovesse não só a formação, mas um espaço de escuta da juventude, um espaço onde a juventude tivesse a fala. Então isso era fundamental, coisa que na minha época não tinha, mas a gente pôde oferecer isso para esses jovens que estavam participando dos projetos.

Nós cavamos isso meio que na raça. A UNAS sempre deu essas oportunidades para os jovens, é importante falar isso. Mas esse trabalho que a gente desenvolveu, a gente conseguiu abrir muitas portas para os jovens. Depois do “Se Liga Galera” eu lembro que tinha 4 ou 5 projetos que o jovem podia escolher, nenhum desses projetos tinha bolsa ou algum tipo de gratificação por participar e eram todos lotados, porque não tinham outras oportunidades.

AS MUDANÇAS

Teve a geração da Antônia Cleide Alves, que hoje é presidenta da UNAS, mas que entrou na luta com 15 ou 16 anos. Teve a minha que foi intermediária, e a atual.

Eu lembro bem que a maioria dos meus amigos de escola ou foram presos ou foram mortos. Não tinham essas oportunidades. O que a gente tinha era a rua. Não tinha projeto social, atividades culturais. A maneira que a gente achava para se divertir era a rua, e na rua você está exposto a tudo que tem de negativo, por isso que muitos desses meus amigos acabaram trilhando outros caminhos, perdendo ou prejudicando a vida, por não ter oportunidades. Aí minha geração começou a perceber a importância de lutar e se juntou com os mais antigos para poder criar essas oportunidades, criar alternativas.

Então, eu comecei a perceber que foi diminuindo o índice de violência, de jovens envolvidos com a criminalidade, e aumentando as oportunidades. A minha geração acompanhou esse processo de mudança e acabou colaborando também com esse processo de lutar para que tivesse mais oportunidades para a juventude daquela época.

A diferença é que a geração anterior começou a lutar, e a gente foi junto com eles. A gente não tinha uma voz ativa, a gente ia pelo que eles falavam que era interessante para comunidade, a gente não tinha a experiência de lutar, por ser jovem e não ter vivido ainda o processo de trabalhar a autonomia, a responsabilidade, o indivíduo como cidadão. Não aprendemos na escola, e nem na rua, e a gente não teve as oportunidades que existem hoje para ter mais conhecimento sobre os direitos e deveres do cidadão, por exemplo.

Tem uma questão que eu acho que mudou muito: tanto a geração anterior à minha quanto a minha tínhamos muito receio de falar que era morador de Heliópolis. Primeiro porque sofria preconceito, os outros achavam que a gente era bandido, marginal, e quando estava procurando emprego não conseguia vaga. Tinha qualificação profissional, tinha experiência, as vezes mais que o cara que estava concorrendo com você, mas se falasse que morava em Heliópolis não conseguia a vaga.

Ao longo desse processo de transformação e criação de oportunidades isso foi se modificando. A geração atual fala que mora em Heliópolis com orgulho, inclusive as pessoas até respeitam, acham legal, querem conhecer. Por mais que a mídia faça uma divulgação negativa, as pessoas conseguiram perceber que em Heliópolis tem alguma coisa diferenciada, essa organização, a articulação da população da comunidade trouxe benefícios, criou referências. Isso de você pertencer a um território, respeitar, ter orgulho, também era uma forma de agir que mudou das gerações anteriores para essa. Ninguém mais tem medo de falar que mora em Heliópolis. Nisso a gente conseguiu avançar muito.

Outra questão que eu vejo é a da violência. A geração anterior à minha e a minha sofreu muito com a violência, e ao longo dos anos com esses projetos a gente foi diminuindo esse índice. Outra coisa que contribuiu para a diminuição da violência em Heliópolis foi a parceria entre a UNAS e a Campos Salles que começou com a chegada do Braz, e deu vários frutos inclusive a criação de uma Caminhada pela Paz pelas ruas e vielas da comunidade. Que, aliás, começou justamente porque uma jovem, a Leonarda, foi morta em frente à escola.

Então esse processo educativo de organização da comunidade foi mudando essa questão da violência, uma coisa que na minha época enquanto jovem era natural: falar que tinha chacina aqui em Heliópolis, que teve morte, tiroteio, a geração de agora não tem, se falar que morreu alguém aqui, todo mundo fica assustado, porque não é mais uma coisa natural. Essa naturalização da violência por muitos anos esteve presente em Heliópolis e hoje não tem mais.

E tem mais uma outra questão que mudou. Uma vez o João Miranda, uma das maiores lideranças comunitárias de Heliópolis,  falou uma coisa que até hoje me marcou, que a gente fala da questão da educação e cultura, mas ele falou que a geração dele não estava preocupada com educação e cultura, estava preocupada em colocar um prato de comida para os filhos terem o que comer, e depois que os filhos tivessem alimentados que iam se preocupar com outras questões. Para a geração dele a preocupação era comida e moradia. Para minha geração já tinha moradia e um arroz com ovo para comer, aí foi atrás de cultura, de educação, de outras coisas. E essa nova geração já tem tudo isso. Mas temos que ter muito cuidado, porque podemos ainda perder esses direitos conquistados.

HIP HOP

A música, a cultura, a arte, sempre fizeram parte das gerações e teve papel fundamental. Mas para mim o Hip Hop muitas vezes cumpriu um papel que a escola não conseguiu cumprir. Por exemplo, tinha uma música do SLJ que era um grupo de Rap da década de 1990, começo dos anos 2000 que era assim “na escola a professora não ensinava nem o que era genocídio” e eu pensei, caramba, eu não aprendi o que era genocídio na escola, e eu fui pesquisar e fui ver, que palavra forte! E a importância da gente saber o que é o genocídio que hoje a gente vive, o genocídio da juventude negra e periférica, e a gente não percebia aquilo acontecendo debaixo das nossas barbas, e através da música começamos a nos orientar.

Então o Rap em si, o hip hop, teve um papel fundamental para minha geração, porque era através da música que a gente conseguia denunciar o que estava acontecendo aqui na comunidade, através da música que a gente tinha uma voz da periferia. A gente falou muito de espaços de escuta, de dar voz para a juventude, e o rap proporcionava isso, a gente poder falar o que estava acontecendo com a gente do jeito que a gente pensava.

Então acho que nossa geração foi privilegiada nesse sentido, de ter uns caras que estavam na linha de frente, que sabiam o que a gente passava e conseguiam retratar isso facilmente na música, e a gente conseguia se identificar com essa música que é saída do gueto, da periferia, que foi perseguida, assim como o funk hoje é. Na nossa época foi o rap, lá atrás foi o samba. E a gente via a importância que tinha, os instrumentos que são criados na periferia para fazer a diferença.

Hoje a gente tem a literatura periférica, a literatura marginal, que tem uma força enorme, mas pergunta se alguém apoiou? Foi tudo feito de dentro para fora e de dentro para dentro. Ninguém chegou de fora e quis ajudar. Hoje a gente tem cada poeta. A gente tem uma editora, uma gráfica, aqui dentro de Heliópolis que lança tanto livro que eu nem imaginei que tinha tanto poeta aqui, você vê como as oportunidades são importantes? Uma editora aqui fez toda a diferença, fez aflorar os talentos aqui que estavam escondidos, que não tinham oportunidade para mostrar o seu trabalho, o seu talento. O dom da escrita, da palavra, da oratória, e tudo isso a gente consegue através de um projeto, de uma ação né?

Então a música, a cultura, o rap na minha geração foi muito importante, porque conseguiu não só mostrar a juventude que estava ali exposta à polícia, ao tráfico e à violência, mas uma juventude que tinha voz, que sabia o que queria.

E que incomodava o poder púbico né? A cultura está muito presente, até hoje, no dia a dia da juventude. Na minha época foi fundamental porque fez a gente perceber que a gente poderia ter voz e vez, porque também não é só fazer música por fazer, é fazer música com um sentido, com um propósito, com um objetivo, e isso aconteceu muito na minha geração.

ENGAJAMENTO

Uma vez eu falei que educação e cultura andam lado a lado, teve gente que falou que cada um é uma coisa, que educação tem uma importância e a cultura tem outra, mas eu não consigo desassociar. Para mim andam lado a lado. Se você tem educação, mas não tem a questão cultural da memória, da história de onde você veio, para onde você quer ir, da história do seu bairro, da riqueza cultural dos artistas, da culinária, tudo que é produzido culturalmente na sua região, a educação não vale de nada. Acho que você tem que juntar a educação e a cultura com a realidade que você está inserido, que você vive, e até do seu país.

O que eu vejo, falando de todas as gerações, o que engaja os jovens são atividades e ações que são do interesse deles, a linguagem por exemplo, a música é uma coisa que engaja, a cultura, uma pista de skate. Agora, o que a gente tem que entender da juventude é que são diversas juventudes. Juventude é uma coisa muito ampla. A diversidade e a riqueza da diversidade são muito legais. Hoje o jovem consegue se posicionar e colocar ali a sua maneira de ser, de agir e tudo o mais, e isso também traz problemas para eles. Tem essas duas questões.

Mas uma coisa que ao meu modo de ver foi se transformando ao longo dos anos: o jovem começou a perceber que ele poderia se expor como cidadão, colocar suas opiniões, se fazer ser respeitado e esse foi um processo de formação, de articulação, de mobilização.

Eu vi essa ação que teve nas escolas públicas, esses movimentos dos estudantes do ensino médio de defender sua educação, isso foi uma coisa muito bacana e aconteceu de maneira natural, não teve ninguém que falou que ia lá articular os jovens, foram eles mesmos. Então, a partir de uma demanda eles perceberam que era importante lutar pela qualidade do ensino e lutar para manter a escola deles, porque corria esse risco de umas escolas fecharem e eles começaram a se organizar e se mobilizar e nisso eu vi nascer várias lideranças juvenis.

Eu vi uma frase uma vez que eu achei muito interessante, eu acho que a gente não consegue preparar o mundo para o jovem, mas a gente consegue preparar o jovem para o mundo. Então eu acho que o papel do adulto é esse, é dar ferramentas, subsídios para o jovem se tornar um cidadão com clareza dos seus direitos e deveres. O primeiro passo é esse, o segundo passo é o jovem entender que se ele quer criar um mundo melhor ele tem que participar, não tem jeito, não dá para esperar o outro fazer para mim.

Laila Sala

Publicado por diário de Sala

Um espaço para compartilharmos as dores e as delícias de ser educador/a

7 comentários em “

  1. Trabalhei na Campos Sales e fico feliz em saber que transformações significativas vêm acontecendo há tempos… O importante nesse momento é não perder o que foi conquistado com muita luta.. E continuar a inspirar outras realidades..

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