A escola na luta pela democracia

– ou Manifesto Antissectário para acalmar corações

A escola pública é um microcosmo da sociedade: nela convivem pessoas com histórias de vida e formações acadêmicas e politicas distintas. Por esse motivo não existem escolas iguais – porque são feitas por seres humanos únicos e em constante processo de transformação. 

A escola é também – ou deveria ser – um lugar de formação integral dos sujeitos no exercício de sua cidadania. E isso é algo que não pode se dar fora da democracia. Quero dizer que não basta anunciarmos em nossos discursos e documentos pedagógicos que a escola deve ser um espaço democrático…  aliás, nunca ouvi ninguém defender que a escola seja um espaço de autoritarismo e que os estudantes não devam ser protagonistas do processo educacional. Mas o desafio de construirmos uma escola verdadeiramente democrática segue a todo vapor. Então precisamos encontrar meios de efetivar essa concepção.

É importante  lembrarmos que essa ideia de escola pública, entendida como direito fundamental de cada cidadão brasileiro, é uma conquista social que remonta aos anos 30 do século passado – me refiro aqui ao legado de Anísio Teixeira e seus conterrâneos representantes do Movimento da Escola Nova – e que ao longo da nossa história encontrou maior ou menor condição de se realizar. Quase sempre menor condição. Mas pensemos nos avanços: a Constituição de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Plano Nacional de Educação, o FUNDEB… legislações que  reforçam a concepção de gestão democrática, de autonomia escolar e de protagonismo dos estudantes, porque concebidas em momentos em que a soberania popular vencia a disputa com frentes conservadoras e autoritárias. Então, se olharmos em perspectiva, veremos que a luta pela construção de um projeto de país que tem a educação como eixo condutor de seu progresso nunca deixou de existir. E veremos também que ela floresceu mais em momentos em que a nossa democracia também florescia.  

Entendermos essa dinâmica nos ajuda a pensarmos nesse nosso momento, em que há um profundo mal estar instalado em todos os setores da sociedade brasileira, e em especial nas nossas escolas. O que esse mal estar revela é a fragilidade da nossa democracia.

Em tempos de polarização política isso fica evidente. Imagino que mais pessoas comunguem comigo desse sentimento de perplexidade diante da impossibilidade de diálogo entre divergentes. Há quem nomeie esse processo de neofascismo. Pode ser que seja. Mas fico aqui com a nomenclatura perplexidade, simplesmente porque há uma profunda incoerência em não vermos nas escolas a construção de um debate profundo sobre o nosso país. Não seria a escola o melhor lugar para fazê-lo?

Entretanto, no lugar do debate vemos rupturas onde antes parecia haver entendimento. Nos últimos anos as divergências transformaram parentes, amigos de infância  e colegas de trabalho em inimigos. Onde esquecemos a tolerância? Ela existiu no passado ou apenas enterramos nossos fantasmas para não termos de lidar com eles? Quem nunca ouviu na escola que política, religião e futebol não se discute? Por que crescemos ouvindo isso? Parece que “o país do futuro” formado por “um povo cordial” não existe mais… temos entendido que na verdade nunca existiu. O que faremos?

O fato é que em algum lugar desse caminho deixamos de acreditar que podemos aprender com aquele que é diferente de nós. Precisamos conversar sobre a imperiosa necessidade de revertermos essa condição.

É preciso olharmos o copo meio cheio, meio vazio. Podemos procurar pontos de convergência nessa busca por uma integralidade, que nos aproxime de um ambiente em que seja possível a experiência democrática? Se entendermos que a escola é a instituição pública de maior capilaridade no nosso país e o lugar onde a maior parte da população nos confia o que tem de mais precioso – a formação de seus filhos – ampliamos a compreensão sobre a nossa responsabilidade enquanto servidores públicos. Isso nos aproxima. Mas não basta. Precisamos ainda entender que nosso maior ponto de convergência é o fato de sermos todos aprendizes dessa nossa condição de servidores públicos a serviço da democracia.

Na escola podem e devem conviver socialistas e liberais, religiosos e ateus. E esse convívio se dará com respeito na medida em que qualificarmos os espaços de formação política de todos e de cada um. Se a escola for um lugar de análise da realidade e da construção de argumentos e pesquisas, ela será também um território de expressão e, quiçá, de proposição de outras realidades. Divergências sobre como chegar lá são parte do processo. Devem ser encaradas como oportunidades de ampliarmos nossa capacidade de escuta e tolerância. De sermos mais.

E já que “freireei” acima, termino com um trechinho de uma entrevista que o mestre deu para o colega Gadotti em 1993, quando ainda vivia entre nós:

“Eu tenho a necessidade de compreender um diferente de mim, se eu quiser crescer. (…) No fundo, a minha briga não é contra os outros, é contra mim mesmo, no sentido de não me permitir cair na sectarização. E a sectarização é a negação do outro, é a negação do contrário, é a negação do diferente, é a negação do mundo, é a negação da vida. Quer dizer, ninguém pode continuar vivo se sectariza. Veja como o stalinismo era a antivida, como o nazismo é antivida. E a democracia só se autentica quando é vida.”

Marília De Santis

Publicado por diário de Sala

Um espaço para compartilharmos as dores e as delícias de ser educador/a

3 comentários em “A escola na luta pela democracia

  1. Ótimo texto! As reflexões aqui presentes têm se mostrado ainda mais necessárias para lidar com as condições impostas pelo momento histórico de trevas que vivemos!

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  2. Não é possível conversar com o fascista. Não é possível se fazer ouvir por alguém que não quer ouvir. O diálogo não é possível com quem apenas repete jargões sem reflexão, sem percepção de todo, sem solidariedade e sem tolerância. Enfim, me desculpem, estou “desfreirizada” hoje, com a Amazônia e o Pantanal em chamas…

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