Educação em tempos de pandemia

Caro(a) leitor(a),

Escrevo esse texto em agosto de 2020. Neste momento estamos mergulhados em uma crise sanitária, econômica, ética, ambiental e política que parece não ter fim. Nosso padrão de normalidade, relacionado com sentimentos de segurança e sobrevivência, foi profundamente abalado. Além de enfrentarmos uma pandemia sem precedentes para a nossa geração, temos assistido sem muita resistência ao aprofundamento de um projeto de poder baseado na negação da ciência e na propagação de falsas notícias. Estamos também imersos num cenário de polarização política, o que agrava a crise e impede uma reflexão sincera sobre proposições que nos tirem desse caos.

Diante desse quadro nada confortável, pergunto a vocês: o que é possível aprender e ensinar?

Está claro que os impactos da pandemia já nos trouxeram mudanças significativas e que precisamos trabalhar a partir da urgência que se impõe, encarando as nossas incertezas e enfrentando radicalmente as desigualdades que já existiam e que agora se agravam.

Por um lado, parece haver uma aceleração da História e a percepção de que mudanças que já estavam em curso se materializam em pouco tempo, assim como acontece em períodos de guerras e revoluções. Quando as escolas foram fechadas aqui no Brasil, no mês de março, ainda não sabíamos o quanto esse distanciamento iria durar, e desde então fomos descobrindo que estamos muito sós e despreparados para lidar com formas alternativas de realizar a educação.

As inúmeras dificuldades que se apresentam a nós, nesse tempo de distanciamento social, deixaram ainda mais claro que para grande parte das instituições escolares o modelo de escola vigente é aquela ainda do século XIX, em que o professor exerce o papel de transmissor de conteúdos, isolado em seu campo disciplinar, e o aluno tem pouco ou nenhum protagonismo no processo de ensino e aprendizagem. Agora estamos sendo obrigados a olhar para essa realidade e podemos aproveitá-la para realizar mudanças que já deveriam ter acontecido.

O primeiro passo talvez seja compreender que a educação é um processo cultural complexo pelo qual podemos nos formar para manter ou modificar as coisas que acontecem no mundo. Essa decisão define o nosso grau de felicidade ou infelicidade, e isso pode parecer óbvio, mas não é. Muitas vezes nos perdemos em reflexões que não consideram o nosso bem estar, e uma das coisas que essa pandemia tem nos revelado é que somos seres sociais, que precisamos do convívio e das relações interpessoais para aprendermos a viver melhor. 

Estamos sacudidos, não paramos de trabalhar, as escolas estão fechadas para os estudantes, mas as aulas seguem. Fazem sentido? O que importa aprender agora? O que temos a ensinar? Aquele currículo que vivíamos antes da pandemia dialoga com essa nova realidade? Ele dialogava com a realidade antes?  Imagino que essas questões estejam ecoando como nunca em seus corações, diante da angústia de vermos as nossas velhas práticas docentes impossibilitadas pelo distanciamento social tão necessário neste momento.

É possível então desejar e começar a construir um futuro alternativo?

Essa necessidade de mudança pode ser algo profundamente traumático e assustador, porque a ideia de mudança traz a possibilidade de que não seremos incluídos. Mas a educação é esse processo de entender a si e ao mundo, para uma adaptação ou transformação, a depender das circunstâncias.

Num futuro alternativo, será fundamental pensar a integralidade das pessoas, em seus aspectos mentais e físicos. A escola precisa cumprir o seu programa curricular, contextualizando e articulando o conteúdo com a realidade que se impõe. A nossa preocupação deve continuar sendo com o desenvolvimento das competências socioemocionais dos nossos estudantes, e com sua formação cidadã. Mas precisaremos ser de fato mediadores entre o mundo e os estudantes, e isso implica em nos aprofundarmos nas questões urgentes do nosso tempo. Precisaremos discutir a vida nas cidades e nossos hábitos de consumo, o mundo do trabalho, a relação entre as questões ambientais e as pandemias, o racismo estrutural, a desigualdade entre os gêneros, o papel do Estado, as diversas formas de violência, entre outras questões. Precisaremos também encontrar meios de nos incluirmos nessa nova cultura tecnológica que se desenvolve.

A atual pandemia tem um ciclo previsível no tempo, mas ela certamente nos deixará consequências devastadoras. Ela escancarou problemas muito sérios, para os quais não existe uma vacina. E eis então o nosso real papel histórico: educar para uma nova consciência planetária, a partir de uma nova ética de responsabilidade para com o futuro. Algo que só poderemos viver se tivermos esperança e diálogo. Por isso escrevi esse texto. E outros virão. 

Até breve! 

Marília De Santis

Publicado por diário de Sala

Um espaço para compartilharmos as dores e as delícias de ser educador/a

6 comentários em “Educação em tempos de pandemia

  1. Muito atual sua reflexão, Marília! Grandiosa também! Você já tem experiência numa Escola libertadora, inclusiva, comunitária e democrática. Nem todos nós temos essa vivência. Sei que foram anos pra chegar onde a Comunidade de Heliópolis chegou. Sei que paradigmas foram quebrados, que princípios de aprendizagem foram experimentados e que não foram somente paredes e muros dos prédios que foram derrubados. E que foram as pessoas, cada um e todos em colaboração, que construíram essas mudanças e transformações. Penso que para aprender precisamos sentir a necessidade ou ter interesse individual genuíno para tornar-se coletivo. “Construir um futuro alternativo” para mim, só será possível se dermos às crianças e jovens a oportunidade de construí-lo pois serão eles que viverão o futuro junto conosco ou não. E esse será o papel fundamental dos educadores em casa, na escola e na comunidade: apoiar as crianças e jovens no que se refere à autonomia responsável, no respeito às singularidades, na confiança às pessoas e às informações, nas práticas democráticas e na autoestima, na convivência social amorosa, na atuação sustentável junto à organicidade da Natureza da qual fazemos parte. O que você pensa sobre isso?

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    1. Querida!!!! Sempre bom dialogar com você! Eu penso que a aprendizagem somente é movida por desejo. De ser mais, de saber mais… então colo contigo quando vc fala desse interesse individual genuíno que desemboca lá no coletivo, quando há uma mediação que tenha essa intencionalidade. Penso também que isso se dá no tempo presente, pra cada um de nós, ainda que o processo seja contínuo e ascendente. Então que nada nos pare! Obrigada por compartilhar a sua reflexão! Beijo

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  2. Toda tempestade passa, eu seu que essa ja está passando e sim é tempo de refletir e analisar se está educação, que estávamos alienados estava correta se está e a hora certa de fazer novos projetos novas alternativas, para que nos possamos ter uma educação de qualidade e igualdade social para todos conforme determina a cartilha do eca.

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  3. Ei vcs?!A verdadeira Educação do Futuro chegou.Na marra!Puxada pela pandemia.Tudo o que foi feito em termos de inovação parece ter mais ou menos 500 anos.Eu te invejo jovem professor!

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