
O diário de Sala é um projeto, mas bem que eu gostaria de chamá-lo de utopia porque ele nasceu num momento de limbo em que eu não sabia para onde eu queria ir e nem de que se tratava do nascimento de um sonho…
Eu só sabia que tinha uma intensa necessidade de realizar uma autorreflexão sobre tudo que eu já tinha vivido, especialmente como educadora. Foram experiências muito intensas, algumas delas eu tinha até dificuldade de colocar em palavras, acho que por isso mesmo era mais um exercício terapêutico do que artístico ou pedagógico.
No início eu não tinha a intenção de publicar nada, mas eu acabei tomando gosto pela coisa e as palavras começaram a transbordar tanto que eu comecei a ler uma coisinha aqui num sarau, uma outra ali numa reunião de professores, perturbei a vida dos meus amigos e amigas… E esses momentos se tornaram profundas reflexões: quando eu lia, as pessoas que ouviam acabavam por me contar também as suas próprias vivências e nós conversávamos sobre quais histórias nossas histórias contavam.
Confesso que eu fiquei encantada com essas trocas, mas também com uma pulga atrás da orelha: por que esses momentos aconteciam? É que eu acho que esse tipo de diálogo tem uma relação com o que eu acredito que deva ser a educação. Você não acha que, no fundo, se trata disso também: uma profunda troca de experiências e reflexões entre pessoas?
Eu disse para você que esse projeto nasceu em um momento de limbo, e esse tipo de momento é muito comum entre educadores e educadoras. É que nos últimos anos, a situação da educação no Brasil tem se tornado cada vez mais violenta e os professores e professoras têm ficado à mercê. As políticas públicas, com alguma razão, têm se voltado para a recuperação das aprendizagens, especialmente depois do fechamento das escolas na pandemia, mas pouco se tem falado sobre o sofrimento das crianças e jovens e sobre o grande trauma que vivemos coletivamente. Além disso, mais recentemente, temos visto que as escolas têm sido vítimas de ataques de grupos de extrema direita que usam até adolescentes como algozes de seus sinistros objetivos. Diante desse quadro, o que podem a arte e a educação, exercícios de reflexão, quando a urgência da vida nos impele à ação?
Até hoje não sei responder muito bem – e esse texto já está ficando muito longo! Te peço mais um pouquinho de paciência que já estou terminando… Enfim, não sei responder, mas esses momentos de troca, e alguns autores com os quais eu venha conversando ao longo da minha trajetória, me deram algumas pistas.
Eu acho que essa é a grande vocação das palavras, especialmente se elas forem poéticas: a parte “vivida” ganha uma forma possível de (re)existir, justamente porque tem uma parte “inventada”, isto é, porque a vida vira linguagem. A experiência – que muitas vezes pode ser dolorosa, vivida na dureza da realidade – vira palavra, e pode voltar à vida ao provocar o outro a partilhar também suas experiências, reelaborando-as, o que o torna mais capaz de transformar essa dureza. Mas que palavra é essa? Vou pedir licença para dar uma volta a mais, vem comigo?
Um dos autores com quem eu converso é o Walter Benjamin. Ele diz que a narração é a forma básica de transmissão da experiência nas sociedades pré-industriais. Esta transmissibilidade não é uma tarefa simplesmente “bancária”, na qual alguém que sabe deposita em alguém que não sabe um conhecimento. Pelo contrário, tem a ver com o compartilhamento de uma temporalidade comum a diferentes gerações e com a existência (e exigência!) de uma palavra compartilhada. Neste sentido, o ouvinte tem necessariamente um papel ativo na experiência narrativa, o que dá a ela uma orientação prática, isto é, “útil”, pois tem em si um ensinamento, uma sugestão prática, uma norma de vida, enfim um “conselho”.
Mas quais são essas palavras compartilhadas? Chamei outro autor para conversar: o Paulo Freire, ele escreveu que dizer “a palavra” deve ser considerado direito de todas e todos. Mas não se trata de qualquer palavra, o direito é à palavra verdadeira.
A palavra verdadeira está em nosso corpo e se constrói a partir de duas instâncias: a ação e a reflexão, que estão juntas de maneira tão radical, tão profunda, que não há palavra verdadeira que não seja práxis e, enquanto práxis, ela só faz sentido se for constituída no âmbito de um diálogo, pois ninguém pode dizer essa palavra sozinha/o. A práxis é, então, uma mistura entre teoria e prática, ou melhor, é “palavração”, conforme o próprio Paulo Freire.
Dessa forma, as palavras verdadeiras e, portanto, compartilhadas, retomam para nós o sentido de comunidade e são, por isso, um importante trunfo contra a violência simbólica e até mesmo concreta a que estamos sujeitos.
Eu dei toda essa volta para dizer para vocês que o projeto diário de Sala é, então, uma busca pelas palavras verdadeiras e compartilhadas realizada de diferentes maneiras, mas que só se completam com o outro, com os sentidos dado pelo outro. Um projeto que partindo da busca pela palavra verdadeira se estica até o outro para transformá-la em palavra compartilhada, para que possamos nos lembrar do que pode a arte e a educação contra as violências e dores do mundo. Estimulando a fazer reflexões e autorreflexões sobre nossa própria história. Quais são suas histórias? Quais são as nossas histórias? E qual história elas contam?
