Outro amigo-irmão que me faz reiterar essa certeza é o Iarlei Rangel, convidado dessa roda. Nós dois também bolamos planos de salvar o mundo e aprontamos muita coisa boa por causa disso!

E outra coisa que une nós três, além de nossa conspiração de transformação, é o teatro, a educação e as infâncias, que desenbocam nas ideias de Educação Integral e Cidades Educadoras. É sobre isso que conversamos no vídeo. E, agora, convido você a entrar nessa conversa! Seja bem-vinda ou bem-vindo!

OBSERVAÇÃO: Esse texto é uma adaptação da resenha escrita como parte das exigências para a conclusão do 1º semestre do Curso Livre de Formação em Psicanálise da Sociedade Paulista de Psicanálise. Foi escrito a partir da leitura da troca de correspondência entre Sigmund Freud e Albert Einstein em 1932, estimulada pela recém criada Liga das Nações e seu Instituto Internacional de Cooperação Intelectual, cujo objetivo era fomentar a colaboração entre intelectuais de diferentes culturas e nacionalidades, para a manutenção da paz, através de várias ações como a publicação dessas cartas (VENTURA e SEITENFUS, 2005). Desde 1922 Einstein participava dos trabalhos intelectuais da Liga das Nações e, frente ao iminente fracasso da instituição, propôs a Freud a reflexão sobre os impulsos individuais que levam à guerra, perguntando também sobre os impulsos dos que têm o poder de decidir sobre os destinos das nações. Assim, ele pergunta a Freud se “(…) existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?” (EINSTEIN, 2005, p.21), complementando no final: há alguma forma de tornar os seres humanos imunes às “(…) psicoses do ódio e da destrutividade (…)?” (Idem, 2005, p.25). Ambas cartas são de domínio público e podem ser encontradas na internet (ver Referências Bibliográficas).

São Paulo, 8 de novembro de 2022

Caros professores Albert Einstein e Sigmund Freud,

Peço licença para participar da conversa dos senhores. Sei que é um pedido um tanto estranho, principalmente porque os senhores estão mortos. Resolvi escrever mesmo assim, pois as teorizações que fizeram a respeito da guerra, me levaram a aprimorar o meu próprio pensamento, que coloquei em diálogo com outros intelectuais também. É um assunto que me angustia, incomoda, indigna, profundamente. 

Agora, cá entre nós, não é uma coisa maravilhosa eu poder usar palavras para escrever uma carta sobre um assunto que me desespera para pessoas que já morreram? Isso me assombra também, mas de um jeito bom.

Refletir sobre a morte, penso eu, não é possível sem refletir de algum modo sobre o tempo. O Caetano Veloso, um cantor aqui do Brasil (aliás, sou brasileira!) escreveu uma canção sobre isso, falando de uma forma que eu não poderia dizer melhor, a canção se chama Oração ao Tempo (1979), e tem uma parte que é assim: 

Vocês podem ouvir a canção clicando aqui também e ouvir enquanto leem, se tiverem internet aí onde estão:

Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso (…)/ De modo que o meu espírito ganhe um brilho definido/ Tempo tempo tempo tempo, e eu espalhe benefícios…/(…) E quando eu tiver saído para fora do teu círculo,/ Tempo tempo tempo tempo, não serei nem terás sido… /(…) Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos,/Tempo tempo tempo tempo, num outro nível de vínculo… (VELOSO, 1979)

Acredito também no que Caetano diz: ser possível entrar em um outro vínculo com o tempo, mesmo depois de ter saído do seu ciclo. E possivelmente as cartas, como a arte, a educação e outras coisas tantas, também sejam uma forma de criar esse vínculo. Eu amo escrever cartas! Mesmo elas tendo se tornado anacrônicas. Na verdade, é bem por isso que sempre que eu tenho a mais remota chance, escrevo uma carta. Eu sempre fui meio desobediente.

Além do mais, acho que há uma coisa muito interessante nas cartas. Elas dão uma embolada na noção do tempo como cronologia, se é que é possível pensar no tempo de outra forma. Mas vejam bem (ainda que eu não saiba se os senhores mantiveram os olhos intactos): medido no tempo do relógio o “agora” em que escrevo é um, mas o “agora” em que alguém lê é outro. Ainda assim, há uma partilha de “agoras”. Que reviravolta interessante! Penso, por isso, que as cartas podem ser um jeitinho faceiro que a humanidade inventou de enganar a morte. Então também gosto de escrever cartas por isso.

Eu li outro dia o texto de um filósofo da educação contemporâneo, chamado Jorge Larrosa, em que ele escreveu sobre cartas. O texto chama Carta aos leitores que vão nascer (S/D), aliás, esse título foi inspirado numa carta de Bertolt Brecht e, como talvez os senhores tenham notado, de certa forma inspirou o meu título. O Larrosa diz que nas cartas, nos livros, nas conversas dos velhos e em outros dispositivos, se fundem e confundem os tempos: “neles também se sai do tempo ou se entra em outro tempo; neles também algo passa, ou se envia, através do tempo.” (LARROSA, s/d, p. 1). Então pensei que seria possível eu, que algum dia vou morrer, escrever para os senhores, que já estão mortos.

O Larrosa também escreve que o tempo só existe em um espaço – o que talvez torne possível eu escrever para os senhores sem ter um endereço certeiro. Essa duração do espaço, diz o Larrosa, não pode ser pensada sem que se pense também na finitude humana, por isso há algo mais nessa duração, além da morte: o nascimento, quer dizer, pensar na finitude humana faz pensar nos finais, mas também nos começos. Parafraseando o Larrosa: as cartas estão cheias de um passado mortal e ao mesmo tempo abertas a um porvir que tem a forma do nascimento (LARROSA, S/D, p. 2).

Fiz essa pausa para que os senhores possam dar uma respirada, beber uma água, ir ao banheiro (os senhores sentem necessidades fisiológicas aí?)… E também porque quero mudar de assunto, pelo menos aparentemente. Sabem, eu sou educadora. E isso é algo muito importante na minha própria constituição, as reflexões que faço em razão desse ofício também se juntaram às reflexões sobre a morte e o nascimento. Vou tentar me explicar melhor já, já. Mas antes preciso falar de outra coisa, que acabou de acontecer aqui no meu tempo que, talvez, os senhores não saibam (não sei se conseguem ver o que acontece aqui na Terra).

Foi uma coisa inacreditável e assustadora: em 2020 tudo virou de cabeça para baixo. Não que as coisas estivessem muito bem antes disso, mas é que nesse ano um vírus chamado Corona colocou o mundo inteiro em estado de pandemia. E para nos protegermos tivemos que ficar em casa por quase dois anos, pelo menos as pessoas que puderam, né? A vida estava (está!) urgente! E muitas pessoas não puderam se proteger porque tiveram de sair de casa, mesmo em meio ao perigo da doença, para ter o que comer. É que as desigualdades sociais, que já eram gritantes, se aprofundaram. 

Além disso, a volta de uma política autoritária no Brasil, e em alguns outros lugares do mundo, encontrou ainda mais espaço. Dizendo melhor, essa é uma política fascista, penso que essa palavra dá aos senhores uma ideia melhor das consequências disso para a vida das pessoas, pois já viveram algo parecido.

E nesses dois anos quem pôde ficar em casa olhou pela janela e o que encontrou foi desespero: negros e negras sendo sufocados até a morte, pulando da janela para fugir de senzalas contemporâneas, às vezes porque era a única forma de escapar, às vezes por negligência; florestas e animais queimando vivos; crianças sendo tiradas de suas mães por causa da intolerância religiosa; índices de feminicídio e outras violências contra mulheres e crianças aumentando; direitos conquistados pelas/os trabalhadoras/es sendo tratados como privilégios; empresas estatais vendidas a preço de banana; presidentes ameaçando cotidianamente o estado democrático de direito; pessoas voltando a passar fome; conhecimentos científicos negligenciados…

Até que finalmente vieram as vacinas, permitindo que aos poucos saíssemos de casa, mas ainda assim o desalento continuou: corrupção na compra de vacinas – aquelas capazes de salvar a maioria das vidas de quase 700 mil pessoas. Isso mesmo que os senhores leram: 700 MIL VIDAS encerradas só aqui no Brasil, por um governo negacionista e corrupto. Não há brasileiro hoje que não conheça alguém que morreu de Covid. Todos nós, crianças, jovens, adultos e velhos tivemos contato com a morte. E o que pode uma educadora diante desse quadro?

Tivemos, como sempre, que trocar o pneu do carro enquanto ele estava andando, ou melhor, enquanto ele estava no meio do olho do furacão! E eu me perguntava: o que pode a educação, basicamente um exercício de reflexão, quando nossa vontade de vida e a urgência do cotidiano nos impele à ação?

Minhas palavras silenciaram. E com isso também a minha ação. Pela primeira vez me peguei sem saber o que dizer aos estudantes, diante de tanta morte nada fazia sentido. A minha sensação era de que eu não tinha nada a ensinar.

Respirei e voltei a estudar, que para mim é uma forma de conversar, como estou fazendo com os senhores. Venho descobrindo que a teoria também pode ser cura e, nesse sentido, começo a recuperar a voz das minhas palavras. Mas essa “teoria que cura” só se realiza de fato dentro de uma ética, não é natural, ela nos faz humanos e nos lembra constantemente da humanidade dos outros.

Por conta desse momento de respiro e estudo, essa carta não tem só a minha voz, tem a voz de muitos outros e outras que vieram antes de mim. E essas outras vozes vêm me ajudando a me traduzir. O Larrosa é uma delas. Ele escreveu a carta de que falei ali em cima bem antes da pandemia, no entanto ele disse algo sobre a escrita em tempos de crise que eu quero mostrar ao senhores, pois penso que diz sobre o que estamos vivendo neste tempo pós-pandemia:

Eu te direi, em primeiro lugar, que esta carta que hoje e aqui te escrevo está sendo escrita em um tempo de crise, de incerteza, de transição (…) no qual, diferentemente de outros tempos, é muito difícil nos orientarmos: como se tivéssemos perdido o sentido do tempo. (…) Eu te direi, então, que o tempo humano, meu tempo, o tempo no qual te escrevo esta carta, está dividido entre o não mais e o ainda não, (…)  no qual tudo o que tem sentido se desvanece perante nossos olhos, e no qual o que nasce, o que se anuncia, o que vem não compreendemos.” (LARROSA, s/d, p. 7)

É possível que estas minhas palavras em silêncio tenham a ver com isso, sabe? Algo que está morrendo perante meus olhos, ao mesmo tempo em que o que nasce é incompreensível. Para o bem e para o mal.

Outra pausa. A propósito dessa “briga” entre o que morre e o que nasce (não sei se “briga” é a palavra mais adequada, mas é a que eu tenho no momento), quero fazer breves considerações sobre educação. Algumas das coisas que eu vou dizer para os senhores são coisas que eu aprendi bem antes de ficar com as palavras em silêncio, e elas foram suficientes durante um bom tempo. Mas talvez não sejam mais e isso de alguma forma seja uma morte, não sei bem do quê. Vou dar umas voltas aqui pra ver se eu consigo alguma coisa…

Acho curiosa a etimologia das palavras “pedagogia” e “pedagogo”, elas vêm do grego antigo e significam respectivamente: o ato de conduzir e o escravo que conduzia as crianças ao seu local de estudo. Penso que ainda hoje seja possível dizer, metaforicamente, que a pedagogia é um ato de condução das crianças liderados por um pedagogo ou pedagoga. Mas, diante de tanto estupefamento (nem sei se essa palavra existe), para onde devo conduzir as crianças?

Disse antes para os senhores que essa carta está sendo escrita também a partir de outras vozes, uma delas é a de Walter Benjamin, talvez os senhores tenham até o conhecido, ele morreu em 1940 tentando fugir dos nazistas (era judeu), não se sabe exatamente o que ocorreu, mas parece que ele se suicidou na eminência de ser capturado.

O Benjamin tem um pequeno artigo chamado Pedagogia Comunista (2002) no qual ele afirma que a pedagogia do início do século XX, que ele chama de burguesa, gira em torno de dois pólos: o da psicologia, isto é, da investigação acerca do funcionamento da mente humana e da sua predisposição natural a aprender. E o pólo da ética, que configura a meta mesma da educação, ou seja, a formação do homem ou mulher ideais. Ele escreve: “A pedagogia oficial é o processo de adaptação mútua entre esses dois momentos – a predisposição natural e o ideal quimérico (…)” (BENJAMIN, 2002, p. 121).

Esse ideal quimérico, no entanto, não é neutro, uma vez que se dirige à formação de um tipo determinado de sujeito, ainda que apenas ideal. Isso significa dizer que a pedagogia tem um projeto, uma intenção, ligados a um determinado contexto histórico, que por sua vez é permeado por concepções políticas, morais e éticas acerca do que é ser humano, ainda que nem sempre essas concepções estejam explícitas nos projetos educacionais.

Tomemos o exemplo da Paideia de Platão. Para o filósofo, a Paideia é a formação ideal, justa, e que por sua vez serve à construção de uma cidade também justa, na qual há o estabelecimento de uma ordem comum e racional.

Fui ler outra filósofa contemporânea minha, a Marilena Chauí, para entender melhor isso e ela explica o seguinte: durante o período socrático na Grécia Antiga se desenvolveram as cidades e surgiu a figura do Cidadão. Por isso, uma profunda mudança é operada na educação grega, o ideal passa a ser a formação dessa figura cidadã, cuja maior virtude cívica é a “areté”, ou “a coragem de dizer a verdade”, baseada na crença da clareza da razão. Seria tarefa dos mais “bem dotados” de razão governarem a cidade e a Paideia é a formação para esse bom governo. 

O famoso mito da caverna de Platão oferece uma metáfora dos princípios que devem reger esse governo, isto é, os futuros governantes devem elevar-se através da razão (livrando-se das sombras da caverna), contemplar o Bem e a Verdade (a luz) e voltar às sombras. A essência ética das leis e do governo, explica Chauí, deve ser a de garantir a felicidade de toda a cidade.

Poderíamos concluir, então, usando como base a definição de Benjamin (apesar dele estar se referindo a outra pedagogia) que a Paideia tem aqueles dois aspectos que se juntam. A racionalidade dos governantes leva à realização da felicidade de toda a cidade, essa racionalidade tem como base a “coragem de dizer a verdade”, esta última, por sua vez, se baseia no ensino dos procedimentos que garantam que ela seja encontrada, através da filosofia que é a capacidade do pensamento de traçar seus próprios caminhos, meios, critérios etc. Ou seja, a filosofia é a pedagogia para a verdade – que é a finalidade ética dos governantes.

Eu acho bonita essa coisa da Paideia, mas ela não resolveu meu problema, porque muitas coisas aconteceram de Platão até aqui. Uma delas veio das ideias do senhor, Prof. Einstein, que revirou as concepções de tempo e espaço na física. Outra veio das formulações do senhor, Prof. Freud, que descobriu o inconsciente. Dois grandes exemplos de pauladas que a arrogância humana levou bem no meio da cabeça. A existência do inconsciente nos fez pôr em xeque inclusive a ideia de razão e poderíamos dizer, talvez um tanto apressadamente, que põe em xeque a própria ideia de verdade.

Continuando nessa toada, tanto em sua carta, Prof. Einstein, quanto na sua, Prof. Freud, os senhores dizem coisas ligadas à questão da educação, pelo menos indiretamente. O Prof. Freud, por exemplo, ao se referir à Liga das Nações, fala, no fundo, dessas formas de colocar em prática um projeto – um ideal de cidade feliz, ou de felicidade – que deve servir para todos. Isto me faz pensar que há algo de pedagógico na política. E que há algo de inconsciente também. O Prof. Freud diz

[A LIGA DAS NAÇÕES] É a tentativa de conquistar, mediante a invocação de certas atitudes ideais, a autoridade – isto é, a influência coercitiva – que ordinariamente se baseia na nossa na posse da força. Vimos que duas coisas mantêm uma comunidade: a coação da violência e as ligações afetivas – identificações é o termo técnico – entre os seus membros. Se falta um desses fatores, possivelmente o outro pode manter de pé a comunidade. Naturalmente, aquelas ideias têm significado apenas se dão expressão a importantes coisas em comum entre os membros. Pergunta-se, então, que força elas podem ter. (…) E não existe, em nosso tempo, uma ideia a que possamos atribuir uma autoridade unificadora desse tipo. É evidente que os ideais nacionais que hoje vigoram entre os povos têm efeito contrário. (…) Assim, parece mesmo que a tentativa de substituir o poder real pelo poder das ideias ainda se acha condenado ao fracasso. É um erro de cálculo não considerar que originalmente o direito era força bruta e que ainda hoje não pode prescindir do amparo da força. (FREUD, 2010, p. 243. Grifo Nosso)

Senhores, preciso contar que estou só há alguns meses estudando psicanálise, isso significa que há muitas perguntas que eu tenho que talvez já tenham sido respondidas (pelo menos é a minha aposta) e também que há muitas perguntas que eu nem consigo formular ainda, por falta de conhecimento… Fiz essa pequena ressalva, pois quero tentar compartilhar algumas dessas perguntas com os senhores.

Os trechos que grifei da citação acima se relacionam mais ou menos com uma parte dessas questões, cujo tema é “autoridade”. Exercer autoridade parece ser uma tarefa fundamental, mais do que isso, imperativa, para o exercício da função de educador. Pelo menos é como chega a mim uma certa exigência social que às vezes é explícita, às vezes não. Quando eu digo em conversas informais que eu sou educadora, por exemplo, é muito comum eu ouvir coisas como “ah! Coitada de você! Os alunos hoje em dia são terríveis, né? No meu tempo a gente respeitava os professores!” e outras coisas do tipo.

Eu me lembro de algumas vezes em que senti exercer o papel de autoridade na sala de aula, aliás, nem sempre isso coincidiu com me sentir “respeitada”, mas deixa isso pra lá… O que importa agora é que ainda hoje não sei muito bem o que fez eu me tornar autoridade e, o que me assombra mais, não sei quais as consequências que esse exercício teve na formação dos meus alunos, quer dizer, não sei o que os meus alunos aprenderam com isso.

Vejam senhores a confusão: sendo educadora (ou “pedagoga”) devo conduzir a predisposição natural de meus alunos a aprender para a formação de uma pessoa a partir de um ideal, ético. Para exercer essa condução eu devo ser uma autoridade, isto é, por meio de uma “influência coercitiva” fazê-los aceitar essa condução. Mas há uma outra coisa: de certa forma, a sala de aula não deixa de ser uma pequena comunidade, formada tanto por essa influência coercitiva, quanto pelas identificações entre seus membros. Segundo o que eu pude compreender do que o Prof. Freud escreveu em sua carta há, na formação da civilização, uma espécie de transformação da força bruta da autoridade em direção ao direito e que, pelo menos idealmente, seria coercitivo por si só, mas com a condição de que essa ideia dê “expressão a importantes coisas em comum” entre os membros da comunidade. E eu pergunto: Qual o papel da educação frente a isso?

O Prof. Freud também diz, se referindo ao seu próprio tempo, que não existe uma ideia a que se possa atribuir uma autoridade unificadora. Penso que possivelmente no meu tempo também não. Além disso, o prof. Freud defende que é um erro de cálculo não considerar que todos esses ideais de ser humano que ligam uma comunidade, têm como origem a força bruta e que não podemos prescindir dela. E eu pergunto: será que hoje também não podemos prescindir da coerção da força bruta?

E mais outras perguntas me vêm à cabeça: nas vezes em que fui autoridade na sala de aula, o fiz porque usava a força bruta? Isso forma o aluno para a obediência? E qual o impacto que isso pode ter no mundo? Eu quero que meus alunos me obedeçam? Se deixem ser conduzidos? Haverá um tempo em que o direito poderá prescindir do uso da força? E a principal: como posso saber se esse direito ideal seria mesmo o melhor?

Agora quem precisou de uma pausa fui eu, minha cabeça ficou até tonta de pensar e eu nem sei se consegui me fazer ser entendida ou mesmo entender algo que eu escrevi. Mas continuemos…

Até aqui falei um tanto sobre as cartas, o tempo, a educação, ideais, política, sobre autoridade. E disse também que isso tem alguma relação com a morte que, por sua vez, não pode ser pensada sem a sua relação com o nascimento. Quero agora contar algumas partes da minha história e, para tanto, vou chamar mais algumas vozes para nossa conversa, numa tentativa de explicar como tudo isso foi se ligando na minha cabeça.

Os senhores devem ter se dado conta que até agora, apesar de falar sobre mim, ainda não me apresentei propriamente. Eu nasci muitos anos depois dos senhores terem morrido (nem meus pais eram nascidos quando os senhores morreram) e no Brasil, apesar de meus avós serem europeus como os senhores. E há uma ligação entre nós, além da intelectual, nós três somos judeus. Creio eu que somos bem pouco religiosos, então isso não teria maior importância, mas tem algo que é necessário falar sobre isso, a propósito da guerra.

Meu nome é Laila e a minha mãe escolheu esse nome a pedido do pai dela, meu avô, porque esse era o nome de sua irmã mais velha. Eu nunca conheci essa outra Laila, porque ela morreu junto com quase toda a família do meu avô na Europa nazista, e assim eu carrego essa marca comigo desde que cheguei ao mundo –  uma marca amorosa, mas triste. Os senhores sabem o que foi o nazismo, mas mesmo assim vou explicar um tantinho, usando as minhas palavras meio mudas, para que fique mais evidente o ponto em que quero chegar e também porque eu não vivi isso, como os senhores, apesar de carregar essa marca em meu nome. 

O nazismo é uma ideologia com origem na Alemanha do início do século XX, que impôs à sociedade da época um projeto de morte baseado em um modelo único e absoluto de humanidade, a raça ariana. E a partir desse modelo, o nazismo instalava políticas de estado com base no ódio contra qualquer pessoa que não se encaixasse nele. Quer dizer, quem não era visto como ariano, a única raça considerada “pura”, deveria ser eliminado da face da terra. Uma boa parte desses “impuros” eram os judeus, como os da minha família, outra eram as/os comunistas (aliás, também havia comunistas na metade da família que vem do meu pai, mas essa é outra história…). Também eram considerados “impuros” negros, ciganos, pessoas com deficiência, dentre outros. Enfim, fato é que esta grande e perigosa bobagem chamada nazismo foi o que assassinou minha tia-avó Laila e por causa disso esse também é o meu nome. Meu avô e um de seus irmãos foram os únicos que escaparam, por muito pouco, e se o nazismo não tivesse sido derrotado, possivelmente eu não estaria aqui escrevendo esse monte de linhas.

E como eu sou brasileira, preciso ressaltar que o nazismo não inventou nada novo, não. A discriminação contra os judeus na Europa nazista da década de 1930/1940, tem muitas semelhanças com o racismo contra os negros no mundo inteiro, que começou muito antes do nazismo e persiste ainda hoje de forma intensa, com consequências mais violentas, se é que isso é possível. Acontece que, ao longo dos anos, mesmo com a recente volta do fascismo, o nazismo ganhou visibilidade e certo status de algo que não se pode tolerar, provavelmente porque se tratou de uma violência contra brancos europeus. O mesmo não aconteceu com o racismo, apesar das lutas e denúncias que a população negra vem fazendo há tempos. O que evidencia o privilégio que meu lugar de fala tem.

Ainda assim, falar novamente sobre a barbárie do nazismo, talvez possa ajudar em algo na luta contra a barbárie do racismo, já que ambos são ideologias que constroem a imagem do outro, da diferença, como “monstro”. Eu penso que eles têm algumas semelhanças importantes, uma delas é a sua relação com o capitalismo. Vou voltar ao meu lugar de fala, então, mas peço que os senhores não se esqueçam de que o racismo existe e é uma das mais intensas barbáries atuais.

O nazismo é a forma radical do capitalismo, no campo das ideologias. Pois é o capitalismo que nos enfia na cabeça a noção de que qualquer objeto, relação, ideia e até mesmo certos grupos de pessoas podem virar uma coisa (como os negros que foram escravizados), ou melhor, podem virar uma mercadoria, que sirva à obtenção de lucro, que é a única coisa que importa nesse sistema de produção.

Desculpem-me o meu tom meio informal e um tanto panfletário, mas é que eu tinha uma imagem da barbárie como algo sujo, sanguinolento, selvagem, tipo um homem das cavernas sem tomar banho há dias, devorando um pedaço de carne crua. Uma coisa assim… Primitiva (e isto é também uma leve provocação ao senhor, Prof. Freud).

Mas pensando sobre isso, de que o capitalismo transforma tudo em mercadoria, entendi que essa imagem é falsa. A barbárie nossa de todos os dias tem uma cara bem diferente. Ela é, digamos assim, limpinha, cheirosinha. Ela é planejada, organizada a partir de uma lógica capaz de nos convencer de que é isso aí o que tem para o jantar, de que não temos saída. A grande questão é que essa lógica veste uma roupa toda bonita, uma embalagem bacanuda, como se fosse um chocolate gostoso, mas produzido com trabalho (negro) infantil análogo à escravidão. 

Quando dissecamos essa lógica é que a gente entende que bárbaro mesmo é o capitalismo. E essa barbárie tem uma racionalidade própria que quase convence, mas ainda bem que ela não convenceu a todos. Um desses, que vou chamar à nossa conversa, é o Theodor Adorno, um pensador alemão que conseguiu escapar do nazismo e que com certeza leu muitos de seus textos, Prof. Freud. Foi ele quem formulou essas ideias que estou apresentando a vocês. 

O Adorno escreveu um texto cuja primeira frase é a seguinte: “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação.” (ADORNO, 1995, p. 119). Já li muitas vezes esse texto, chamado Educação após Auschwitz (1995), mas me lembro como se fosse hoje da sensação que tive ao ler essa frase pela primeira vez, quando ainda estava na faculdade, estudando para ser educadora. Eu senti como se fosse um chamado dirigido a mim, quase pessoal.

Quero falar mais sobre esse texto, mas antes só umas palavrinhas sobre Auschwitz. Era um “campo de concentração” para o qual eram mandados aqueles que eram considerados impuros, Auschwitz não era o único desses lugares, havia muitos outros espalhados pela Europa nazista. Mas Auschwitz tem uma simbologia importante, pois foi o lugar designado para testar o que os nazistas chamaram de “solução final” – um planejamento eficiente para matar o maior número possível de “impuros”, de forma mais “limpa”, no menor tempo e com menor custo. O verbete da Wikipedia sobre a solução final diz assim sobre esse planejamento:

(…) os primeiros métodos usados para liquidar os judeus tinham diversos e sérios defeitos. (…) embora aumentassem a mortalidade, eram extremamente lentos. As execuções a tiro exigiam muitos recursos, munições e transporte. (…) [COMANDANTES NAZISTAS] queixaram-se da “pressão psicológica” sofrida pelos seus homens ao terem de matar mulheres e crianças. (…) Himmler [LÍDER NAZISTA RESPONSÁVEL POR COLOCAR EM PRÁTICA A SOLUÇÃO FINAL] começou a procurar melhores, mais rápidos e “limpos” métodos de liquidar os judeus e opositores. (…) Foram feitas experiências executando doentes mentais por meio de explosivos, o que deixava pedaços de corpos espalhados por toda a parte. (…) Auschwitz (…) fez uma primeira experiência com seiscentos prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, executando-os por meio de Zyklon-B, um pesticida. Este método foi o seguido nos campos de extermínio (…).

Em Auschwitz também havia trabalho forçado de homens e mulheres que eram considerados úteis para tanto. E só para os senhores terem uma ideia da crueldade do nazismo, na entrada daquele campo de extermínio lê-se a seguinte frase: “o trabalho liberta”. Estão vendo os senhores como a barbárie é limpinha?

Quis fazer esse destaque e falar sobre a minha história porque, além da importante simbologia de Auschwitz, existe uma possibilidade, sem confirmação, de que a minha tia-avó Laila tenha morrido lá.

Tinha dito antes aos senhores que talvez haja algo de pedagógico e de inconsciente na política, e o Adorno vai falar sobre isso no texto que mencionei acima. O pensador alemão afirma, depois de ter lido o senhor, Prof. Freud:

(…) um dos mais perspicazes [ACHADOS DE FREUD] parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. (…) Se a barbárie encontra-se no próprio princípio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador. (…) A reflexão a respeito de como evitar a repetição de Auschwitz é obscurecida pelo fato de precisarmos nos conscientizar desse elemento desesperador, se não quisermos cair presas da retórica idealista. (ADORNO, 1995, p. 120. Grifo Nosso).

Creio que uma parte desse elemento de desespero vem da possibilidade, muitíssimo real, que existe em cada um de nós de produzir a barbárie. Quais as saídas então?

O Adorno passou um bom tempo estudando como Auschwitz pôde ter acontecido, mais ou menos como os senhores se perguntaram em suas cartas, depois da I Guerra Mundial. Uma das conclusões do teórico alemão foi, justamente, que o nazismo nasce dentro da racionalidade capitalista. No fim das contas, o problema que a “solução final” solucionou foi uma questão de eficiência, houve reuniões inclusive para pensar sobre isso, será que ninguém se deu conta, e se enojou, de que o objetivo da solução final era matar?

Refletindo sobre os componentes subjetivos que produzem a barbárie, Adorno vai se referir às características psicológicas das pessoas capazes de praticar genocídio. Ele diz que essas pessoas têm uma consciência coisificada, produzida por um mundo que Adorno chama de administrado, um mundo que criou mecanismos para tornar eficazes inclusive os destinos das pulsões. Apoiado no Prof. Freud, Adorno relaciona as características desse mundo administrado à forma como a sociedade capitalista faz uma pressão civilizatória quase insuportável, de maneira densamente controlada.

(…) a pressão civilizatória observada por ele [FREUD] multiplicou-se em uma escala insuportável. Por essa via, as tendências à explosão a que ele atentara atingiram uma violência que ele dificilmente poderia imaginar (…) É possível falar da claustrofobia das pessoas num mundo administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede densamente interconectada. Quanto mais densa a rede, mais se procura escapar, ao mesmo tempo em que precisamente sua densidade impede a saída. (…) Isto aumenta a raiva contra a civilização. Esta torna-se alvo de uma rebelião violenta e irracional. (ADORNO,1995, p. 122). 

Essa pressão do geral dominante sobre tudo o que é particular, diz Adorno, destroça qualquer coisa que de fato seja singular, junto com sua capacidade de resistir a essa violência destroçante, transformando sujeitos em massa. Junto com sua própria identidade, seu próprio eu, as pessoas perdem outras qualidades que as fazem capazes de se contrapor ao que, em qualquer tempo, é barbárie.

Adorno afirma que as consciências coisificadas têm então duas tendências: se identificam cegamente com um coletivo amorfo e são talhadas para manipular massas. Ele diz: “Pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si próprios em algo como um material, dissolvendo-se como seres autodeterminados. Isto combina com a disposição de tratar outros como sendo uma massa amorfa.” (ADORNO, 1995, p. 129).

E essa consciência também vai se coisificando conforme vai tentando se tornar eficiente, Adorno traz exemplos:

O caráter manipulador – e qualquer um pode acompanhar isto a partir das fontes disponíveis acerca desses líderes nazistas – se distingue pela fúria organizativa, pela incapacidade total de levar a cabo experiências humanas diretas, por um certo tipo de ausência de emoções, por um realismo exagerado. A qualquer custo ele procura realizar uma pretensa, embora delirante, realpolitik. Nem por um segundo sequer ele imagina o mundo diferente do que ele é, possesso pela vontade de doing things, de fazer coisas, indiferente ao conteúdo de tais ações. Ele faz do ser atuante, da atividade, da chamada efficiency enquanto tal, um culto cujo eco ressoa na propaganda do homem ativo. (ADORNO, 1995, p. 129. Grifo Nosso).

E um dos pontos nevrálgicos que Adorno aponta é justamente a relação que essa consciência coisificada tem com a autoridade, ele diz:

O que a psicologia denomina como superego, a consciência moral, é substituída no contexto dos compromissos por autoridades exteriores, sem compromisso, intercambiáveis (…) Porém justamente a disponibilidade em ficar do lado do poder, tomando exteriormente como norma curvar-se ao que é mais forte, constitui aquela índole dos algozes que nunca mais deve ressurgir. (ADORNO, 1995, p. 125).

Outra incapacidade da consciência coisificada é a de identificação, de certo modo essa ordem social que Adorno chama de mundo administrado, então, vai produzindo e reproduzindo frieza e indiferença.

E talvez a principal característica é a impossibilidade de viver experiências o que significa – isso sou euzinha que estou falando, tá? – que essas consciências são incapazes de aprender, porque incapazes de abrir-se ao porvir, pelo contrário ela se defende de “(…) qualquer vir-a-ser, frente a qualquer apreensão do próprio condicionamento, impondo como sendo absoluto o que existe de um determinado modo.” (ADORNO, 1995, p. 132) E assim, no fundo, elas também revelam traços de incomunicabilidade, de um esvaziamento da linguagem. No fim das contas, diz Adorno, essas pessoas “(…) que executam as tarefas agem em contradição com os próprios interesses imediatos, são assassinas de si mesmas na medida em que assassinam os outros.” (ADORNO, 1995, p. 138).

Fiz essa outra pausa para pensar a partir da psicanálise, criada pelo senhor, Prof.Freud na seguinte pergunta: como uma pessoa se torna quem ela é? Primeiro, precisamos dizer que para a psicanálise o inconsciente tem um papel preponderante em tudo que os seres humanos são e fazem. O inconsciente é como se fosse um lugar e é muito poderoso porque ele povoa toda nossa mente sem que a gente nem mesmo perceba. Nós nascemos com ele e seus conteúdos emergem sempre meio disfarçados.

Além do conceito de inconsciente, o Prof. Freud introduziu posteriormente outro que o complementa. Trata-se do Id, uma palavra em alemão, cuja tradução mais exata para o português seria “Isso”. Assim que nasce, o bebe começa a formar seu aparelho mental e, poderíamos dizer que, desse ponto de vista, ele começa como sendo um Id ou um “Isso”. Ao longo do seu processo de maturação, o bebê – depois criança, depois adulto – desenvolve o Ego e o Superego. Pelo menos em termos teóricos, o desenvolvimento de uma pessoa é, então, o caminho que ela percorre para se transformar de um “isso” em um “eu”.

Nesse caminho de “isso” a “eu”, estamos de início completamente dependentes de outra pessoa que cuida de nós, com seu aparelho mental já formado, para podermos sobreviver e dar segmento ao nosso caminho rumo à formação do nosso próprio aparelho. Esse caminho, poderíamos dizer talvez, que tem como um de seus rumos a conquista de alguma autonomia, embora essa dependência inicial fique como marca em nós para sempre.

Mas há algo mais sobre o caminho, ele só acontece porque o aparelho psíquico está em conflito constante, sempre entre dois pólos contrários, que buscam equilibrar-se incessantemente. E é esse processo conflituoso que vai impulsionando o aparelho psíquico a se desenvolver. 

No Id moram os instintos e as pulsões que, por sua vez, geram excitações a que qualquer organismo vivo está submetido. Elas vêm de fora e também de dentro. Essas excitações internas nós chamamos pulsão. Elas geram uma espécie de força que exige que o aparelho psíquico realize um trabalho, rumo à descarga dessa excitação, buscando um destino para a pulsão na consciência, ligando-a a uma representação, um objeto. Os destinos das pulsões são arbitrários e contingentes, variando conforme a própria história do indivíduo.

Eu fui consultar um vocabulário de psicanálise para entender melhor esses conceitos e encontrei um escrito por Laplanche e Pontalis. Esses estudiosos explicam que ao longo de sua obra, Prof. Freud, o senhor foi formulando os conceitos de pulsão, que vem sempre de forma dualística, até reuní-los em dois tipos: pulsão de vida e de morte.

As pulsões de vida se relacionam ao amor, ao eros, às identificações, nesse sentido elas têm um papel de formar reuniões, digamos assim. “As segundas [PULSÕES DE VIDA] tendem, não apenas a conservar as unidades vitais existentes, como a constituir, a partir destas, unidades englobantes.” (LAPLANCHE/ PONTALIS, 1988, p. 537). As pulsões de vida procuram não só provocar, como manter a unidade e existência do organismo individual.

As pulsões de morte, por outro lado, são uma espécie de recondução do organismo para um estado anorgânico, inicialmente se voltam para o interior, de forma autodestrutiva e num segundo momento podem manifestar-se sob a forma de agressividade. Nesse sentido, elas têm uma força regressiva, uma espécie de volta a um estado original, o senhor define as pulsões de morte da seguinte maneira em sua carta, Prof. Freud:

(…) esse instinto age no interior de cada ser vivo e se empenha em levá-lo à desintegração, em fazer a vida retroceder ao estado de matéria inanimada. Ele merece, com toda a seriedade, o nome de instinto de destruição, enquanto os instintos eróticos representam os esforços de vida. O instinto de morte se torna instinto de destruição ao ser dirigido, com a ajuda de órgãos especiais, para fora, para os objetos. O ser vivo que conserva sua própria vida ao destruir vida alheia. Mas uma parte do instinto de morte permanece ativa dentro do ser vivo, e nós procuramos derivar toda uma série de fenômenos normais e patológicos dessa internalização do instinto de destruição. Cometemos até a heresia de explicar a gênese de nossa consciência moral mediante esse voltar-se para dentro da agressividade. (FREUD, 2010, p. 245/246. Grifo Nosso.)

Há algo de fundamental em qualquer pulsão: o retorno a um estado anterior, na pulsão de morte esta tendência é eminentemente exprimida. Na pulsão de vida, esta tendência é definida por um movimento inverso. Resumindo… o princípio da Pulsão de Vida seria o de ligação, isto é, instituir unidades cada vez maiores e, portanto, conservar. O alvo da pulsão de morte, pelo contrário, é o de dissolver, de destruir por assim dizer. E essas pulsões vivem “brigando” de diferentes formas dentro do nosso aparelho psíquico, se ligando de diversas maneiras a objetos e representações em sua superfície. Por isso que uma pessoa se torna quem ela é, na medida em que vai se fazendo, um “eu” é também a história de criação desse “eu” e, não importa quantas semelhanças tenham, essa história é sempre singular.

Depois desse pequeno descanso, quero tentar falar mais alguma coisa sobre as formas de evitar a repetição de Auschwitz a que Adorno se refere, ele diz: “A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.” (ADORNO, 1995 p. 121), pois o processo de “desbarbarização” do mundo pressupõe, dentre muitas outras coisas, uma opção pela não participação e, nesse sentido, para a autodeterminação. E eu acrescento: trata-se de formar uma consciência forte o suficiente para desobedecer. “(…) O único poder efetivo contra o princípio de Auschwitz seria a autonomia, para usar a expressão kantiana: o poder para a reflexão, a autodeterminação, a não-participação.” (ADORNO, 1995, p. 125).

E como formar para a autodeterminação? Vou tentar me debruçar sobre o conceito de experiência, já que a consciência coisificada é incapaz de vivê-la. Mas antes quero contar uma outra coisa aos senhores, como educadora já trabalhei com todas as idades, mas tenho uma predileção especial pelos adolescentes e jovens. Há um tempinho fiz um trabalho acadêmico cujo tema era justamente esse pessoal. 

Achei que tinha escolhido esse tema simplesmente porque gostava dos adolescentes, mas me enganei redondamente. A verdade verdadeira, descobri ao longo do trabalho, era que eu escolhi esse tema porque eu mesma, talvez tardiamente, estava me conscientizando que não era mais jovem, no sentido etário e também simbólico da coisa.

Uns anos antes de fazer esse trabalho eu fui diagnosticada com uma depressão profunda (eu avisei que essa carta tinha um tom terapêutico, né?). Foi um tempo meio sombrio da minha vida, mas estou me tratando e hoje estou bem melhor. Nesse meu tratamento, descobri que essa depressão tem uma origem, um lugar em mim: aquele medo gigantesco da morte que já falei aos senhores. Tanto das mortes concretas, quanto das simbólicas.

Então comecei refletindo sobre educação e juventudes e fui parar no tema morte. E o tema morte me levou a pensar sobre o nascimento. Tudo isso junto me levou também a pensar no tempo, nos começos e nos finais, e como a educação tem tudo a ver com isso. E foi justamente nessas andanças que eu encontrei aquela carta do Larrosa sobre a qual já falamos. 

Eu cometi a loucura de compartilhar essas teorias todas com os jovens com quem trabalhava, achando que eles não iam entender nada, porque era muito “difícil”. Mas também me enganei redondamente! A finalização do projeto foi em forma de cartas que os jovens escreveram. Nossa, e saíram coisas muito lindas! Claro que eles entenderam! Olha a beleza que um dos meninos escreveu:

São Paulo, 25 de novembro de 2019

Caro Leitor,

Penso que a palavra é vento que sopra sem direção, mas que mesmo soprando sem norte é forte o suficiente para fazer corações rasgarem.

Sinto que nessa vida muitas palavras me fizeram chegar até aqui e muitas outras vão me fazer zarpar pra algum lugar. Se eu pudesse escolher onde chegar com elas, me imaginaria no lugar mais difícil onde uma palavra pode chegar, um lugar onde o vibrar gera som e esse som move a vida, no coração de alguém, queria que pelo menos algumas de minhas palavras pudessem fazer morada, pois acho que não há honraria maior do que fazer parte da literatura da vida de alguém e assim por meio das palavras tornar-me eterno e ajudar os outros a seguir no mar da vida.

Abraços, “De um pensamento” (João Victor da Cruz de Paula Pinto, 19 anos)

Não é uma maravilha?! Eu compartilhei com os senhores essa carta, escrita pelo João, em primeiro lugar porque morro de orgulho dele. Mas principalmente por causa do que ele diz sobre as palavras. Lendo a carta do João, fiquei pensando que talvez não sejam as cartas que enganem a morte, talvez sejam as palavras. Larrosa, sobre isso, nos oferece o seguinte pensamento:

E sei algo mais: que, para ti, vires ao mundo e vires ao tempo é inseparável de vires à linguagem. Sei que tu – como eu, como nós, porque talvez isto seja a única coisa que pode criar entre tu e eu algo assim como um nós – és também um animal de palavras, um vivente cuja vida é, entre outras coisas, uma torpe e às vezes desesperada e às vezes impossível busca de sentido. (LARROSA, p. 8)

A propósito disso, Larrosa conta uma história escrita por um filósofo chamado José Luis Pardo. Ele contou que durante a II Guerra Mundial saíram da Holanda ocupada pelos nazistas 93 trens, cada um deles com mil deportados, que tinham como destino Auschwitz. Esses três demoravam quatro dias nesse caminho de ida, e mais quatro dias para retornar, com o objetivo de apanhar mais pessoas. Depois de algumas viagens, um holandês se deu conta de que eram sempre os mesmos trens que faziam esses transportes. Por causa dessa descoberta, as pessoas que eram deportadas passaram a deixar mensagens nos trens vazios, para os que viriam nas próximas viagens. José Luis Pardo diz, então, que essas mensagens se assemelham a obras de arte e completa:

(…) fizeram a viagem primeiro e deixaram essas inscrições para que aqueles que os sucedessem pudessem viver algo que, de outro modo, resultaria insuportável (…): ensinaram-lhes que sua dor, sua falta de refúgio, não era a primeira, que não era original, mas uma repetição, que já outros homens a haviam sofrido e que agora eles, os novos viajantes, podiam ver-se nessas notas como em um espelho no qual conseguiriam sentir sua própria dor que, então, se converteria em uma dor comum, partilhada. Isso – as notas dos trens com destino a Auschwitz, as obras de arte – não livra ninguém de sua dor (…), simplesmente permite vivê-la, permite tomar coragem, seguir respirando apesar da desolação, da morte, da mesquinharia e da estupidez e em meio a elas. Pode ser que essas notas pareçam pouca coisa, quase nada. Mas são literalmente vitais para nós que estamos nesse trem ou sabemos que algum dia teremos de fazer essa viagem. (PARDO, apud, LARROSA, s/d, p. 8/9)

Sabem professores, isso até é uma certa vaidade minha, mas às vezes eu penso que o meu nome, Laila, no sentido metafórico é uma dessas mensagens deixadas nos trens que levavam para Auschwitz, por conta de toda a marca que ele carrega. Aliás, sobre os nomes Larrosa escreve assim em sua carta:

Este curioso dispositivo a que chamamos carta habitualmente leva também uma assinatura, a assinatura de quem a escreve e a envia. Teria então que me apresentar, e te dizer quem sou, e escrever meu nome… Mas neste caso meu nome não importa. O que importa, sobretudo, é em nome de que, ou de quem, te escrevo. E a única coisa que te posso dizer é que te escrevo porque eu quero te contar que, neste tempo outro, neste mundo outro e nesta língua desconhecida para os que como tu vão nascer, haverá, talvez, coisas como garrafas lançadas ao mar ou notas escritas nos cantos escondidos dos vagões. (LARROSA, 1995, p. 9)

É por isso que as palavras estão sempre a caminho, se dirigem a algo, mas ao que? A um lugar aberto, a invocar, a ocupar, a uma realidade que está por vir, ou como diria o João: “um lugar onde o vibrar gera som e esse som move a vida”.

Professores, me desculpem, me perdi aqui, tinha dito aos senhores que ia falar sobre a experiência e acabei falando sobre palavras. É que, para mim, elas não podem ser pensadas em separado. Vou me explicar.

O mesmo Jorge Larrosa, em outro texto chamado Notas sobre a experiência e o saber de experiência (2002), explica que as palavras são as for­mas através das quais damos sentido ao que nos passa. Para o autor, a experiência é aquele acontecimento que nos tomba e nos tira do lugar em que estávamos antes de vivê-la. Assim, a experiência é a única capaz de nos colocar em situação de verdadeira aprendizagem, de formação e transformação.

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca.(…) E o que gostaria de dizer sobre o saber de experiência é que é necessário separá-lo de saber coisas, tal como se sabe quando se tem informação sobre as coisas, quando se está informado.(LARROSA: 21/22, 2002).

Há uma simbiose entre a experiência e a forma de comunicá-la, a sua narração, há uma relação dialética entre elas, na qual uma alimenta a outra, ou seja, a experiência produz o discurso, mas o discurso também produz a experiência. Quando, então, narramos a experiência, transfor­mando-a em linguagem, é que damos condições para a ação, isto é, para retornarmos à experiência através dessa narração que é também uma interpretação, um recorte.

O mesmo Walter Benjamin que já mencionei antes, também discute esse conceito. Para Benjamin, a experiência tem relação com a narração na medida em que esta é uma das formas através das quais a humanidade escreve sua história. Para esse autor, a literatura e a história enraízam-se nas atividades de lembrar e esquecer. Isto é, o que produz essas narrativas é uma dialética entre o esquecimento e a memória, que, sem o esquecimento, seria infinita. Con­tamos o que lembramos e nunca lembramos de tudo.

Aliás, o próprio movimento da linguagem é esta dialéti­ca entre lembrar e esquecer, que impõe certa atividade de seleção, uma vez que as coisas só estão presentes na narração não enquanto tais, mas em sua ausência, que só podem ser tornadas de novo presença enquanto pala­vra. A linguagem se refere ao que não está lá e, por isso, possui uma liberdade lúdica, provocada por essa ausên­cia de um referente único e totalizante. 

Nesse sentido, para Benjamin, a história, enquanto narração, é lugar conjunto da significação e da morte, uma vez que o sentido não nasce da presença do objeto, mas sim de sua “ausência dita”, provocando uma união quase que indiscernível entre os escombros do passado e os novos edifícios.

Para Walter Benjamin, a narração é a forma básica de transmissão da experiên­cia nas sociedades pré-industriais. Esta transmissibili­dade não é uma tarefa simplesmente “bancária”, pelo contrário, tem a ver com o compartilhamento de uma temporalidade comum a diferentes gerações e com a existência (e exigência) de uma palavra compartilhada, que implica uma formação válida para todos que co­mungam de uma mesma coletividade. Neste sentido, o ouvinte tem necessariamente um papel ativo na expe­riência narrativa, o que dá a ela uma orientação prática, isto é, “útil”, pois tem em si um ensinamento moral, uma sugestão prática, uma norma de vida, enfim um “conselho”.

(…) de qualquer maneira o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas se ‘dar conselhos’ parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis (…) Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada (BENJAMIN, 1994, p. 200).

Benjamin discute, assim como o Adorno, a impossi­bilidade da narração tradicional e o empobrecimento da experiência na sociedade capitalista industrial, o que promoveu uma transformação profunda nas percepções individual e coletiva. Na modernidade, a narração per­deu a sua orientação prática e isso nos torna inca­pazes de dar e receber conselhos. Além disso, na era da informação as palavras parecem estar coladas àquilo que elas significam, os fatos já chegam acompanhados de sua explicação e, por isso, destituídas de inacaba­mento, da sua possibilidade lúdica de reinvenção.

Larrosa também discorre sobre os impeditivos do mun­do moderno para se viver uma experiência: a sociedade da informação, a sociedade da opinião e o tempo regido pela incessante (e falsa) busca pela novi­dade. Tudo isso, de certa forma, também contribui para a incomunicabilidade da experiência na modernidade, uma vez que inutiliza a distância criativa entre a pala­vra e a coisa, deixando pouco espaço para atividade de interpretação e recriação.

A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que ca­racteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara. (LARROSA, 2002, p. 21/22)

Uma das causas da pobreza da ex­periência e da impossibilidade de dar e receber con­selhos na contemporaneidade poderia ter uma relação com a forma através da qual nos relacionamos com a morte, nos afastando de seu ritual, pois para Benjamin, é da possibilidade da morte que deriva a sabedoria da palavra do narrador

Ora, é no momento da morte que o saber e a sabedoria do ho­mem e sobretudo sua existência vivida – e é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela primeira vez uma forma transmissível. Assim como no interior do agonizante desfilam inúmeras imagens – visões de si mesmo, nas quais ele se havia encontrado sem se dar conta disso -, assim o inesquecível aflora de repente em seus gestos e olhares, conferindo a tudo o que lhe diz respeito aquela autoridade que mesmo um pobre-diabo pos­sui ao morrer, para os vivos ao seu redor. Na origem da narrativa está essa autoridade. (BENJAMIN, 1994, p. 207/208)

Para Benjamin, a cadeia que funda a tradição, e que transmite os acontecimentos de geração para geração, é fundada pela reminiscência. E este movimento de lem­brar e esquecer que a memória faz, permite que as nar­rativas criadas por ela se apropriem do curso das coisas por um lado, e a resignação, por outro, do fato de que essas coisas, através do poder da morte, desaparecerão. Assim “(…) é a imagem de uma experiência coletiva, para a qual mesmo o mais profundo choque da experiência individual, a morte, não re­presenta nem um escândalo, nem um impedimento.” (BENJAMIN, 1994, p. 215).

Esta liberdade de pensamento que temos, também nos ajuda a ver na experiência concreta, nos acontecimentos diários, como as nossas concepções gerais se manifestam. Ou seja, o pensamento nos faz discernir o singular que emerge de cada experiência humana.

E, no encontro com o diferente, é que vamos construindo sentidos comuns. A reflexão crítica tem o potencial de trazer à tona os assuntos de interesse geral, levando em consideração a pluralidade dos pontos de vista, mas construindo consensos, acordos, combinados em torno das formas de conviver, de estar juntos, das regras e leis que podem também ir se modificando, conforme as experiências concretas.

Arendt vai dizer, de forma parecida a de Adorno, que os regimes políticos totalitários eliminam a singularidade da experiência, operando através da obediência a leis extremamente rigorosas e indiferentes a essas singularidades. O totalitarismo rompe, de forma planejada, com os combinados que reúnem as pessoas em uma comunidade. O que acaba por romper também com a possibilidade de mudança desses combinados a partir do diálogo e do que aprendemos com a experiência cotidiana concreta. Os combinados nos regimes totalitários são as leis que impõem a todas as ações humanas um ajuste a um modelo único, tornando-se, assim, a única forma possível de explicação da realidade e eliminando – literalmente – qualquer diferença ou discordância. Esse conjunto de explicações que no totalitarismo ganha força de lei, promete ao mesmo tempo explicar o passado, conhecer o presente e prever com absoluta segurança o futuro.

Para Hannah Arendt, apesar disso, há uma saída que nos salva, que nem mesmo os governos mais autoritários podem destruir: o fato de que todos os dias nascem seres humanos e que, portanto, tudo sempre pode começar de novo. Todo nascimento é também a possibilidade de um novo começo para o mundo, pois é um mistério, é o imprevisível. Para Hannah Arendt a liberdade é essa capacidade interior que todas as pessoas têm e que equivale à capacidade de começar, porque o futuro está em aberto e tudo pode mudar.

A propósito disso, Hannah Arendt, em A Crise na Educação (2004), defende que a educação existe como uma resposta ao fato de que constantemente nascem seres humanos no mundo. Isto é, ela propõe pensar a educação “(…) no sentido da reflexão sobre o papel que a educação desempenha em todas as civilizações, ou seja, da obrigação que a existência de crianças coloca a todas as sociedades humanas.” (ARENDT, 2004, p. 38). Nesse sentido, os mais velhos assumem a responsabilidade tanto com esses que acabaram de nascer quanto com o próprio mundo, ela continua:

No entanto, face aos jovens, os educadores fazem sempre figura de representantes de um mundo do qual, embora não tenha sido construído por eles, devem assumir a responsabilidade, mesmo quando secreta ou abertamente, o desejam diferente do que é. (ARENDT, 2004, p. 40)

Os adultos têm, então, uma responsabilidade pela continuidade do mundo. Esta responsabilidade sobre o curso das coisas, ainda segundo Arendt, é que funda a autoridade do educador. E esta autoridade, apesar de representar uma desigualdade na relação, pois implica certa superioridade do adulto em relação à criança ou ao jovem, e que existe porque o adulto é mais velho, só não é autoritária porque tem, obviamente, uma temporalidade, uma finitude. Isto é, em algum momento o jovem se tornará adulto e a desigualdade da relação terminará. Para Arendt, a educação deve introduzir a criança e o jovem como algo novo em um mundo velho e

Para preservar o mundo contra a mortalidade dos seus criadores e habitantes, é necessário constantemente restabelecê-lo de novo. O problema é saber como educar de forma que essa recolocação continue a ser possível, ainda que de forma absoluta, nunca possa ser assegurada. A nossa esperança reside sempre na novidade que cada nova geração traz consigo. Mas, precisamente porque só nisso podemos basear nossa esperança, destruímos tudo se tentarmos controlar o novo que nós, os velhos, pretendemos decidir como deverá ser. (ARENDT, 2004, p. 42).

Quais são as saídas então? A própria educação, segundo Arendt

A educação é assim o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína que seria inevitável sem a renovação, sem a chegada dos novos e dos jovens. (ARENDT, 2004,p. 44)

Talvez os senhores até saibam disso, mas eu me chamo Laila porque há um costume entre os judeus de dar um nome de alguém da família que já morreu a uma criança que está nascendo, pois acredita-se que assim a alma daquela que morreu renasce no bebê que chegou. Acho que esse costume tem alguma relação com essas ideias da Hannah Arendt, pois o nascimento, que é um começo absoluto, pode ser também a possibilidade de superar a morte, um fim absoluto. E, assim, a outra Laila – assassinada pela política nazista – pôde renascer de alguma forma em mim, essa Laila que vos fala, que está aqui e agora, que vem tentando aprender formas de superar a barbárie e transmitir o que aprendeu a outros. Como escreveu Arendt: “Cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós.” (ARENDT, 2000).

Senhores, essa carta ficou muito maior do que eu poderia sonhar… Mas prometo que já estou finalizando, quero só falar mais algumas coisinhas.

Nesse período pós-pandemia que estou vivendo, uma das coisas que têm sido muito faladas a respeito da educação é que é preciso fazer uma “recuperação das aprendizagens” das crianças e jovens, pois eles perderam muitos conteúdos por conta das escolas terem sido fechadas na pandemia. E, por causa disso, considerando todo o terror que vivemos e que ainda estamos vivendo, lembrei de um trechinho do texto do Adorno em que ele diz: “Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita.” (ADORNO, 1995, p. 119). E frente a essa última tarefa estamos falhando miseravelmente, as escolas estão repletas de crianças e adolescentes que estão sofrendo – ainda que às vezes eles demonstrem seu sofrimento através da agressividade.

E o que pode a educação quando o cotidiano nos impele à inação? Paulo Freire, um grande educador brasileiro que hoje é rechaçado por aqueles que defendem políticas totalitárias, falava que dizer “a palavra” deve ser considerado direito de todas e todos. Mas não se trata de qualquer palavra, o direito é à palavra verdadeira, mas não totalitária.

Trata-se de uma palavra que está em nosso corpo e se constrói a partir de duas instâncias: a ação e a reflexão, que estão juntas de maneira tão radical, tão profunda que não há palavra verdadeira que não seja práxis e, enquanto práxis, ela só faz sentido se for constituída no âmbito de uma educação dialógica, pois ninguém pode dizer essa palavra sozinha/o.

Práxis pode ser entendida como a relação indissociável que se estabelece entre um modo de ver a vida e a consequente ação que deve vir dessa compreensão. Para Paulo Freire, não há prática que não esteja subsidiada por alguma teoria, por alguma visão de mundo. No entanto, para uma ação ser transformadora da realidade, o ser humano que age precisa ter consciência do que faz.

A práxis é, então, uma mistura entre teoria e prática ou, para ser mais freireana, é “palavração”. O modo como damos nomes às coisas, usando palavras, é nossa compreensão. E esse processo de dar nome deve exigir de nós a transformação dessas coisas quando elas são injustas e, por isso, nos impele à ação, à prática, o que muda as formas como vemos essas coisas que nós nomeamos, e assim o processo volta ao começo.

E foi pensando nisso que eu percebi que há uma relação cíclica entre a história, as práticas e os sonhos e isso resulta em ação ética, que no fundo é o remédio contra a barbárie. A palavra verdadeira nasce da experiência e volta a ela, nos fortalecendo para enfrentar de modo cada vez mais consciente os desafios cotidianos, dessa forma todo dia se aprende um pouco mais sobre essa palavra, num processo de atualização cotidiana feito por cada sujeito que compõe esse “nós”, estreitando ainda mais os laços que nos tornam uma comunidade.

Por isso, entendo que essa palavra verdadeira só o é de fato se tem um componente ético, isto é, se trata de uma escolha político pedagógica que deve servir para que a gente possa decidir melhor o que fazer nos nossos desafios cotidianos. Elas são o começo, mas também o meio e o fim.

São as concepções que nos dão critério para avaliar se as nossas ações estão contribuindo com a construção do mundo que queremos. Mas elas nascem antes mesmo de a gente dar nome, quer dizer, fazem parte da experiência, estão na nossa memória, na nossa história, na nossa pele. Ao mesmo tempo, elas devem ser vividas no presente, nas relações de agora que nos fazem ser uma comunidade e, também, guiam os nossos passos futuros, são a nossa utopia, o nosso sonho.

As palavras verdadeiras são o nosso direito reivindicado e conquistado de transformar o mundo, pronunciando-o, são o nosso direito conquistado e reivindicado de existir enquanto sujeitos que, ao entender a relação entre o silêncio que nos é imposto e o sistema de exploração, tomam para si o compromisso de entrar na história, transformá-la e por ela sermos transformadas/os.

Tudo isso eu escrevi para ver se conseguia dar mais sentido ainda ao que o senhor escreveu como solução para a guerra, Prof. Freud. O senhor não propõe eliminar a agressividade que faz parte de nossa constituição, mas sim um certo desvio recorrendo às nossas próprias pulsões e seus destinos, o senhor afirma: “Se a disposição para a guerra é uma decorrência do instinto de destruição, então será natural recorrer, contra ela, ao antagonista desse instinto, a Eros. Tudo que produz laços emocionais entre as pessoas tem efeito contrário à guerra.” (FREUD, 2010, p. 247).

Senhores professores, quero então terminar com palavras que não são minhas, na esperança de formar um “nós” qualquer. Na realidade, me dirigi aos senhores mas sei que os senhores não vão ler minhas palavras, já que estão mortos. Por que escrevi então? Deixo o Larrosa responder por mim, já que minhas palavras ainda estão meio mudas: 

Eu te escrevo, então, a partir da dupla responsabilidade que cabe aos leitores que dão a ler. Essa responsabilidade tem a ver, em primeiro lugar, com o que recebi, com o que vem antes de mim, com o que me precede, com o que fui capaz de acolher… e tem a ver também, em segundo lugar, com o que te dou, com o que te destino, com o que dirijo a ti, leitor por vir, que estás para além de mim. E cada uma dessas responsabilidades contém um paradoxo interno. Como leitor, minha maneira de receber, ou de responder, ao que me vem não pode ser outra que não um escolher, um preferir, um sacrificar, um excluir, um reinterpretar, um criticar, um deslocar, um decidir, um mal-interpretar, inclusive. Para ser fiel ao que recebi, para mantê-lo com vida, tive que lhe ser infiel. Ou seja, tive que ler. Nesse sentido, não será a leitura, ao mesmo tempo, fidelidade e infidelidade? Além disso, minha maneira de dar, ou de enviar, o presente não pode ser outra que não a de um deixar viver, a de um desprender-me dele para que tu, leitor desconhecido, o mantenhas com vida, o acolhas, te encarregues dele, mas sendo-lhe também infiel, da tua maneira, quer dizer, para que tu o leias. (LARROSA, 1995, p. 11)

Até logo,

Laila

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_____________. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Trad. João Wanderley Geraldi. Revista da Universidade Estadual de Campinas – Departamento de Lingüística. Jan/Fev/Mar/Abr 2002 Nº 19. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf&lang=pt, consultado em 08/11/2022.

VELOSO, Caetano. Oração ao Tempo. Rio de Janeiro: Philips/PolyGram: 1979. Álbum (3 min.)

VENTURA, Deyse. Um diálogo entre Einstein e Freud: por que a guerra?. Santa Maria: FADISMA, 2005. Disponível em: https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/05620.pdf, consultado em 17/01/2023

Sites

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Wikipedia. A Solução Final. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Solu%C3%A7%C3%A3o_final 

São Paulo, abril de 2020. 

Caro Leitor ou Cara Leitora, 

Lá em meados de 2016, recebi um convite de um grupo de teatro que admiro muito. Trata-se do Grupo Esparrama, que na época era formado por cinco pessoas: o Iarlei Rangel, o Kléber Brianez, a Lígia Campos, a Luciana Gandelini e o Rani Guerra. O Esparrama tem como base de sua pesquisa teatral a linguagem do palhaço que, dentre outras coisas, é uma arte que se fundamenta no improviso e na escuta atenta do outro.

Alguns dos ensaios do primeiro espetáculo do Esparrama, o “2por4”, aconteceram na sala do apartamento de dois dos integrantes do grupo. Esse apartamento fica a cerca de 5 metros do Elevado João Goulart, também conhecido na cidade de São Paulo como Minhocão, e tem uma janela enorme.

O Minhocão é uma construção que passa por cima das avenidas Amaral Gurgel e São João, importantes vias do centro de São Paulo e, desde a época de sua implementação na gestão de Paulo Maluf nos anos 1970, é alvo de diversas controvérsias e questionamentos por parte dos moradores do município, especialmente aqueles que têm seu domicílio nos arredores do elevado. Por causa do barulho, à noite, no sábado à tarde e aos domingos o Minhocão fica aberto para as pessoas, que o utilizam para passear, praticar esportes, brincar, ficar “de boas”, enfim…

Mas voltando ao Esparrama… Durante vários ensaios no apartamento, os palhaços chamavam a atenção de quem passava pelo Minhocão, que paravam suas atividades para assistir ao que estava sendo feito. Os palhaços, motivados, interagiam com esses novos espectadores, o que fez o grupo refletir sobre os limites entre os espaços públicos e privados em uma cidade como São Paulo: as janelas do apartamento em questão permitem que se veja o que está do lado de fora, mas também expõem o de dentro para quem está de fora.

Desse “acaso” nasceu a Trilogia da Janela que é composta por três espetáculos realizados na janela desse apartamento. A primeira peça, chamada Esparrama pela Janela, é composta por várias gags que buscam discutir a relação entre o mundo público e o privado. O segundo espetáculo, Minhoca na Cabeça, conta a história de uma menina que muda para São Paulo de uma cidade do interior e, ao chegar na grande metrópole, se depara com seus medos: as minhocas que estavam em sua cabeça. No final desse espetáculo, a Menina finalmente vai à cidade e, transformando o Minhocão em um grande navio, grita: “Navegar!”. Este é também o mote para a realização da terceira peça da série que estreou em 2017. 

O convite de que falei alguns parágrafos acima foi para participar de uma parte do processo de concepção desse terceiro espetáculo. Com verba do Programa de Fomento ao Teatro da Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo, o projeto Navegar foi divido em três expedições. Eu participei da primeira delas, que aconteceu entre janeiro e julho de 2017.

A primeira expedição tinha o objetivo de estabelecer um processo de escuta do imaginário de três grupos de crianças sobre a cidade, através de oficinas. Esses grupos eram: CCA Mina (que fica nas proximidades do CEU Heliópolis Prof.ª Arlete Persoli); EMEI Gabriel Prestes e de um grupo de teatro de pré-adolescentes moradores da ocupação do prédio do antigo hotel Lorde Palace que fica no centro de São Paulo, chamado Dá trabalho, mas é bom, dirigidos pela arte-educadora Hevelin Gonçalves.

O meu papel nesse processo era apoiar e subsidiar o Esparrama para realizar essas escutas, através de estudos teóricos e do acompanhamento das oficinas. Por tudo isso, a minha sensação inicial, enquanto eu preparava os encontros com o grupo, era de que eu realmente ia partir para uma aventura e que, para tal, precisava arrumar uma bagagem com muito carinho, dada a importância da viagem.

Inicialmente, considerei importante realizar um mergulho nas minhas próprias questões de interesse e outras experiências profissionais e pensar de que forma essas questões se encontravam com o universo do Esparrama, de modo que eu pudesse, posteriormente, pedir que cada integrante do grupo o fizesse também. A ideia era achar sinceros pontos em comum.

Disposta a realizar inovações também nesse processo de preparação para as oficinas, me propus, a partir de sugestão do Iarlei Rangel, a experimentar uma abordagem que pudesse ser redimensionada para as experiências com as crianças e, mais do que isso, fosse coerente com as concepções que elegemos como nossos fundamentos.

Assim, era crucial que todo o processo se mantivesse sempre aberto para quaisquer outras propostas, intervenções, referências etc., não só as que eu trazia. Quer dizer, a ideia era que a partir de uma bagagem individual, construíssemos uma bagagem coletiva para navegar ao encontro das crianças, e em cada lugar pelo qual passássemos enriquecermos ainda mais as nossas malas, ao mesmo tempo em que deixaríamos algo para as crianças. 

Para começar a nossa preparação para a aventura, antes mesmo do primeiro dia de encontro, enviei uma carta (pelo correio mesmo) para cada integrante do grupo. A proposta era, de uma forma inusitada, me apresentar e dizer a cada um as expectativas que eu tinha sobre eles.  

Rá! Taí o principal motivo pelo qual eu também introduzi esse texto com uma carta. O texto que segue a essa carta, leitor ou leitora, é um reflexo desse processo que vivi com o Esparrama e também uma tentativa de sistematizar os aprendizados que tive ao longo da Primeira Expedição do projeto Navegar.

Logo no início do processo de trabalho, elegemos uma referência importante para a nossa travessia: o poeta Manoel de Barros, mais especificamente o poema que reproduzo abaixo:

Carrego meus primórdios num andor.

Minha voz tem um vício de fontes.

Eu queria avançar para o começo.

Chegar ao criançamento das palavras.

Lá onde elas ainda urinam na perna.

Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.

Quando a criança garatuja o verbo para falar o que não tem.

Pegar no estame do som.

Ser a voz de um lagarto escurecido.

Abrir um descortínio para o arcano.

Com Manoel de Barros, inventamos uma missão secreta: criançar as palavras e, então, o mundo inteiro. Também formulamos perguntas: quem é o outro da infância? Que parte da cidade é um convite para ser criança? É possível sonhar com o que ainda não foi sonhado? Como propor e ao mesmo tempo se entregar a uma experiência de “criançamento”? Quais muros encontraremos em nós e nas crianças? Todos devem ser desmoronados? “Mais do que uma metodologia nós estávamos construindo um caminho de encontro com as infâncias”, conforme elaboração do próprio grupo.

E, assim, de mala feita, estávamos prontos para “Navegar!”. Nem sempre acertamos, até porque tudo isso que estávamos criando era muito diferente do que normalmente estávamos acostumados a fazer: isso é teatro? É aula? É oficina? Ou é pesquisa?

Talvez, a maior questão em relação aos “resultados” desse processo de investigação da primeira expedição seja mais do que indagar sobre o que as crianças nos disseram especificamente e daí extrair algum conteúdo sobre seu imaginário em relação à cidade; é possível que seja fundamental refletir sobre como foi para nós olhar e viver a cidade a partir das infâncias, tentar traduzir em palavras as experiências que tivemos para que de alguma forma possamos contribuir com o sonho que temos em comum, com tanta gente, de fazer deste um mundo mais justo e menos desigual, a partir da ótica das infâncias.

Esse texto se divide, então, em duas partes. Na primeira “Pequena Coleção de Palavras Grávidas” tento parir algumas palavras, que foram importantes para os estudos da primeira expedição, através do diálogo com alguns autores, textos, aulas etc. A ideia é contrapor algumas concepções que estão postas como naturais, historicizá-las portanto e, ao mesmo tempo, informar de que “lado que eu estou sambando” nessa história. Devo dizer que em tempos tão duros, refletir sobre esse assunto tão bem acompanhada foi para mim um alento, espero que seja para você também.

Na segunda parte, a partir das palavras paridas, tento “tecer” com elas algumas perguntas surgidas desta experiência com o Esparrama. De qualquer jeito, há um esforço de síntese aqui, que talvez possa ser útil a você. Para mim foi uma das maneiras de diminuir as distâncias entre o que falo e o que faço, de reavaliar minhas práticas, de pensar junto com pessoas incríveis. Um exercício de distanciamento também, de forma que eu possa voltar ao mundo revigorada. 

Por último (juro que é o ultimo parágrafo mesmo!) os meus agradecimentos ao Grupo Esparrama não caberiam aqui… Sei que seria impossível escrever qualquer uma dessas linhas sem a imensa generosidade, disponibilidade, amorosidade, ética e respeito com que cada um – Iarlei, Kléber, Lígia, Luciana e Rani  – tratou as crianças, a mim, os espaços pelos quais passamos, outros(as) educadores(as)… O encontro com cada um e cada uma de vocês renova minhas esperanças no mundo. Leitor ou leitora, por favor, conheça o trabalho do Esparrama, vale a pena!

E agora sim, vamos ao texto, boa leitura!

Um abraço, 

Laila. 

PALAVRAS GRÁVIDAS

Inspirados em Paulo Freire, que em vários de seus textos fala de “palavras grávidas de mundo”,  antes, durante e depois de nossa aventura, nós (eu, cada um dos integrantes do Esparrama e as crianças) colocamos em nossa mala algumas palavras: infâncias, cidade, espaço público, participação social, convivência, diálogo, cultura, educação e, finalmente, democracia e direitos sociais. Para nós, elas eram palavras grávidas que, conforme nossa própria definição “São palavras que estão em trânsito. Palavras prenhes de novidades radicais que podem nos ‘tombar’.” 

Em A importância do ato de ler (1989) Paulo Freire defende que o ato de ler não se esgota na decodificação pura da palavra ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo “(…) a leitura do mundo precede a leitura da palavra.” (FREIRE, 1989: 9). Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. O texto escrito recria, revive a experiência vivida. Mas, para além disso, continua Freire “(…) a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de “escrevê-lo” ou “reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente.” (FREIRE, 1989: 13).

Segundo Carlos Rodrigues Brandão (1985), algo como a “essência” do “método” de Paulo Freire seja considerar o educando e sua experiência cultural como propulsores do ato educativo que se torna, assim, um diálogo

A educação, que deve ser um ato coletivo, solidário — um ato de amor, dá pra pensar sem susto —, não pode ser imposta. Porque educar é uma tarefa de trocas entre pessoas e, se não pode ser nunca feita por um sujeito isolado (até a autoeducação é um diálogo à distância), não pode ser também o resultado do despejo de quem supõe que possuí todo o saber, sobre aquele que, do outro lado, foi obrigado a pensar que não possui nenhum. “Não há educadores puros”, pensou Paulo Freire. “Nem educandos.” De um lado e do outro do trabalho em que se ensina-e-aprende, há sempre educadores-educandos e educandos-educadores. De lado a lado se ensina. De lado a lado se aprende. (BRANDÃO, 1985: 9).

Brandão, ao se referir à metodologia dos Círculos de Cultura para a alfabetização de adultos, explica que há um momento essencial para o levantamento das formas através das quais os educandos significam o mundo

Assim, nas primeiras experiências, depois de a comunidade aceitar envolver-se com o trabalho de alfabetização, a tarefa que inicia a troca-que-ensina é uma pequena pesquisa. É um trabalho coletivo, co-participado, de construção do conhecimento da realidade local: o lugar imediato onde as pessoas vivem e irão ser alfabetizadas. Esta primeira etapa pedagógica de construção do método foi chamada por Paulo Freire de vários nomes semelhantes: “levantamento do universo vocabular” (em Educação como Prática da Liberdade), “descoberta do universo vocabular” (em Conscientização), “pesquisa do universo vocabular” (em Conscientização e Alfabetização), “investigação do universo temático” (em Pedagogia do Oprimido). De livro para livro algumas palavras mudaram, mas sempre permaneceu viva a mesma ideia: a ideia de que há um universo de fala da cultura da gente do lugar, que deve ser: investigado, pesquisado, levantado, descoberto. (…) O que se “descobre” com o levantamento não são homens-objeto, nem é uma “realidade neutra”. São os pensamentos-linguagens das pessoas. São falas que, a seu modo, desvelam o mundo e contêm, para a pesquisa, os temas geradores falados através das palavras geradoras. (BRANDÃO, 1985: 13/14).

Nesse sentido, Paulo Freire nos presenteou com uma bela imagem, ao se referir a esse processo inicial dos Círculos de Cultura e é partir dela que eu construo esse texto

(…) a pesquisa do que chamava universo vocabular nos dava assim as palavras do Povo, grávidas de mundo. Elas nos vinham através da leitura do mundo que os grupos populares faziam. Depois, voltavam a eles, inseridas no que chamava e chamo de codificações, que são representações da realidade.” (FREIRE, 1989: 13. Grifo Nosso.)

PEQUENA COLEÇÃO DE PALAVRAS GRÁVIDAS

Teoria e Prática

Para Paulo Freire teoria e prática, no campo da educação, são conceitos dialéticos e indissociáveis uma vez que

(…) toda prática educativa envolve uma postura teórica por parte do educador. Essa postura, em si mesma, implica – às vezes mais, às vezes menos explicitamente – uma concepção dos seres humanos e do mundo. (Freire, 2015: 67).

Em um sentido mais amplo toda ação humana é constituída no mundo e em direção a ele, isto é, tem finalidades que transformam os contextos a partir de premissas mais ou menos conscientes, daí o valor intrinsecamente político das práticas educativas

O analista crítico descobrirá nos métodos e nos textos usados pelos educadores opções valorativas que revelam uma filosofia do ser humano, bem ou mal esboçada, coerente ou incoerente, assim como uma opção política, explícita ou disfarçada. (…) sempre a partir de uma certa situação histórica a que ‘chegam’, independentemente de sua consciência.” (FREIRE, 2015: 68/111).

Cultura

Há, no entanto, diferentes maneiras de “pronunciar o mundo”, assim como diferentes formas vivê-lo e transformá-lo. Esse processo de produção de significados é denominado como “cultura”. Marilena Chauí no texto “Cultura e Democracia” explica que a partir da segunda metade do século XX

A cultura passa a ser compreendida como o campo no qual os sujeitos humanos elaboram símbolos e signos, instituem as práticas e os valores, definem para si próprios o possível e o impossível, o sentido da linha do tempo (passado, presente e futuro), as diferenças no interior do espaço (o sentido do próximo e do distante, do grande e do pequeno, do visível e do invisível), os valores como o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, o justo e o injusto, instauram a ideia de lei e, portanto, do permitido e do proibido, determinam o sentido da vida e da morte e das relações entre o sagrado e o profano. (CHAUI, 2008. Pp. 57)

Ensinar-aprender

Para Paulo Freire ensinar e aprender são atividades indissociáveis. Os homens e mulheres estão inseridos em um constante processo de formação que atravessa todas as suas práticas sociais.

Nesse sentido, aprender e ensinar, já que um implica o outro, sem que jamais um prescinda do outro, vieram, na história, tornando-se conotações ontológicas. (…) Em outras palavras e reiteradamente, não é possível ser gente sem desta ou daquela forma, se achar entranhado numa certa prática educativa. E entranhado não em termos provisórios, mas em termos de vida inteira. (FREIRE, 2015: 24/26).

Pedagogia

A origem etimológica das palavras “pedagogia” e “pedagogo” situam-se no antigo grego e designam, respectivamente, o ato de conduzir e o escravo que conduzia as crianças ao seu local de estudo. Na sociedade moderna, a pedagogia ganhou status de disciplina científica, mas, de certa maneira, se configura como um processo de “condução” das crianças liderados por um pedagogo – agora não mais um escravo, mas sim um profissional liberal.

Para Walter Benjamin no texto Pedagogia Comunista (2002) a pedagogia burguesa (do início do século XX) gira em torno de dois polos: o da psicologia, isto é, da investigação acerca da natureza do educando e das formas através das quais ele aprende; e o da ética, que configura a meta mesma da educação, ou seja, a formação do homem integral ideal, do cidadão. “A pedagogia oficial é o processo de adaptação mútua entre esses dois momentos – a predisposição natural e o ideal quimérico (…)” (BENJAMIN, 2002: 121).

Nesse sentido, a pedagogia uma vez que pensa a formação de um determinado sujeito, em um determinado contexto histórico, é sempre permeada por concepções políticas, morais e éticas acerca do que é ser humano, ainda que nem sempre elas estejam explícitas nos projetos educacionais.

Infâncias 1

Em Infância e Pensamento (1997) Jeanne Marie Gagnebin discorre sobre a correlação entre diferentes concepções de infância e de formação ao longo da história da filosofia.

Para a autora, apesar da noção de infância – isto é, de que existe uma idade profundamente diferente em relação às outras – e da noção de pedagogia serem históricas e relativamente novas (geralmente localizadas no início do século XVIII) há uma relação estreita e mais antiga entre o pensamento filosófico e a infância, porque a reflexão filosófica e a reflexão pedagógica (ou o problema da formação) nascem juntas. Tomando como base a análise do pensamento de filósofos como Platão, Santo Agostinho, Descartes, Rousseau, Walter Benjamin e considerando as ideias deles sobre razão, linguagem e formação, Gagnebin entende que a relação do pensamento filosófico com a infância “(…) se constitui através de uma mediação conceitual cujos principais momentos são uma certa concepção de natureza e uma certa concepção de razão.(GAGNEBIN, 1997: 176. Grifo Nosso).

No sentido etimológico, escreve Gagnebin, a ideia de infância não reflete a princípio uma certa idade e sim

(…) aquilo que caracteriza o início da vida humana: a incapacidade, mais, a ausência da fala (…) A criança, o in-fans – é primeiro aquele que não fala (…) [QUE NÃO TEM] o meio de expressão da sua própria espécie: a linguagem articulada.” (GAGNEBIN, 1997: 172).

De certa maneira, a problemática central da Paidéia em Platão é a formação ideal, justa, para a construção de uma Cidade Justa, na qual há o estabelecimento de uma ordem comum e racional. Segundo Marilena Chauí, durante o período socrático na Grécia Antiga, mais precisamente em Atenas, se desenvolveram as cidades e surgiu a figura do Cidadão. Sendo assim, uma profunda mudança vai operar na educação grega, na qual o ideal passa a ser a formação do cidadão, cuja maior virtude cívica é a “areté”, “a coragem de dizer a verdade”, baseada na crença da clareza da razão

É tarefa dos mais bem dotados governarem a cidade, isto é, elevaram-se através da razão, contemplar o Bem e voltar às sombras (…) a lei não se ocupa de garantir uma felicidade excepcional a uma classe de cidadãos, mas esforça-se por realizar a felicidade de toda a cidade. (PLATÃO, 1997).

A preocupação essencial, então, se volta para o estabelecimento de procedimentos que garantam que a verdade seja encontrada, através da reflexão e da capacidade do pensamento de traçar seus próprios caminhos, critérios e meios, resguardando os ideais que constituem o verdadeiro e sábio cidadão. A filosofia se torna assim a pedagogia para a verdade.

Assim, a paidéia, alegoricamente descrita no mito [DA CAVERNA], é “uma conversão no olhar”, isto é, a mudança na direção de nosso pensamento, que, deixando de olhar as sombras (pensar sobre as coisas sensíveis), passa a olhar as coisas verdadeiras (pensar nas ideias). E, observa Heidegger, não foi por acaso que Platão escolheu a palavra eîdos para designar as ideias ou formas inteligíveis, pois eîdos significa: figura e forma visíveis. O eîdos é o que o olho do espírito, educado, torna-se capaz de ver. (CHAUI. S/D) 

Educação Integral

No Brasil, ao longo do século XX e a partir da contribuição de diversos autores, vêm se consolidando o conceito de “Educação Integral”. Essa teoria se constitui, talvez principalmente, a partir de uma crítica ao modelo tradicional de escola, considerada ultrapassada e excludente, especialmente no que se refere às necessidades, demandas, saberes e culturas das classes populares. A educação, enquanto prática humana, se dá em diversos espaços (e não só na escola) e ao longo da vida, em qualquer idade, isto é, em todos os tempos.

Tendo como a priori essas ideias (de que a educação se dá em todo espaço e tempo) a Educação Integral reivindica uma transformação radical no papel da escola, já que ela não é mais concebida como a única “morada” do conhecimento e, portanto, de sua transmissão e produção. Para a Educação Integral, a escola deve ser um dos polos articuladores de diferentes saberes e culturas e, principalmente, deve ser capaz de contribuir, através dessa articulação, para o desenvolvimento do território onde está inserida.

Segundo Helena Singer (2017), estas ideias são, ao mesmo tempo, uma teoria: uma visão de educação como meio para o desenvolvimento integral dos indivíduos; um movimento social: que visa a articulação de diversos agentes para a plena realização de propostas de Educação Integral; uma política pública: um conjunto de programas, projetos, diretrizes e marcos legais que buscam possibilitar a Educação Integral como política de estado ou de governo.

Um dos autores ligados a essa teoria é Anísio Teixeira, suas contribuições no campo da educação são imensas, tanto do ponto de vista teórico, quanto da construção de experiências de escolas e políticas de educação inovadoras. Influenciado fortemente por John Dewey, Anísio Teixeira construiu suas concepções e práticas a partir da defesa de dois pilares fundamentais: a construção de uma sociedade democrática e um ideal de educação pública universal, gratuita, laica e de qualidade social.

Educação Identificada com a pedagogia de DEWEY, com o pragmatismo norte-americano, voltado para o desenvolvimento do indivíduo, a democratização, a liberdade de pensamento e a necessidade de experimentação, com a ciência, com a arte e a cultura popular. (CHAGAS, et.al, 2012: 73)

No mesmo tom que alguns intelectuais, artistas e educadores de sua época que fundaram o Modernismo e o Movimento Escola Nova, Anísio Teixeira buscava uma modernização do Brasil e entendia que a educação tinha papel fundamental nesse processo. Além disso, a ideia de modernidade, para o educador, estava centrada na construção da democracia. Defendia, por isso, o reconhecimento do papel central do estudante e de suas culturas nas atividades educativas e a descentralização da administração pública e a autonomia das instituições (especialmente da escola) como fatores determinantes para a liberdade de ação, a integridade e a identidade de um projeto de nação. (CHAGAS, et.al, 2012). Assim, para Anísio Teixeira, em um contexto democrático, a educação é um direito.

Cidades Educadoras

Segundo Natacha Costa no artigo Educação, Cidade e Democracia: a agenda do bairro-escola (2015)

A essas experiências somou-se, no Brasil, um conceito extremamente contemporâneo de educação que encontrou eco, sem dúvida, nas propostas de Anísio [Teixeira] e Darcy [Ribeiro]; a ideia da cidade como território educativo (…) um grupo de cidades pactuou um conjunto de princípios centrados no desenvolvimento de seus habitantes, que orientariam suas respectivas administrações públicas a partir daquele momento. Essas premissas foram organizadas na Carta das Cidades Educadoras, cuja versão final foi elaborada e aprovada durante o III Congresso Internacional, em Bolonha, no ano de 1994. (…) O Movimento aborda a educação como um elemento norteador das políticas da cidade e entende o processo educativo como perene, que deve ser garantido a todos em condições de igualdade (…). (COSTA, 2015).

O movimento das cidades educadoras é mais do que um projeto de planejamento urbano, trata-se de uma proposta que busca ressignificar as dimensões de construção das políticas públicas, tomando como centro dessa construção as pessoas.

O Movimento das Cidades Educadoras, reivindica seu papel fundamental na construção da sociedade tendo como centro de suas práticas a manutenção das relações democráticas, em cada aspecto de seu cotidiano. Em resumo, pressupõe um arranjo local que mobiliza e articula diversos atores, saberes, culturas, instituições etc. em torno da garantia de direitos, e toma como central o direito à educação, entendido aqui como um processo mais amplo do que aquele que acontece na escola.

Democracia

Marilena Chauí (2008), entende que a democracia, para além das ideias liberais e neoliberais que a concebem como um regime político, é, em si mesma, uma forma de organização social cujo fundamento é o trabalho coletivo sobre os conflitos, aqui considerados como necessários para movimentar a sociedade. Assim, para Chauí, a democracia é uma

– Forma sócio-política que busca enfrentar as dificuldades acima apontadas conciliando o princípio da igualdade e da liberdade e a existência real das desigualdades, bem como o princípio da legitimidade do conflito e a existência de contradições materiais introduzindo, para isso, a ideia dos direitos (econômicos, sociais, políticos, culturais). Graças aos direitos, os desiguais conquistam a igualdade, entrando no espaço público para reivindicar a participação nos direitos existentes e sobretudo para criar novos direitos. (…) fazem surgir, como cidadãos, novos sujeitos políticos que os afirmaram e os fizeram ser reconhecidos por toda a sociedade. (CHAUI, 2008. Pp. 68).

Além do fundamental papel na construção de direitos que, reivindicados por um grupo tornam-se universais ou, pelo menos, reconhecidos por todos, uma sociedade democrática, pelo menos idealmente, assinala que o poder é um espaço vazio, ou seja, que quem o ocupa só o pode fazer porque esse lugar foi dado a ele, e de forma temporária

Eleger significa não só exercer o poder, mas manifestar a origem do poder, repondo o princípio afirmado pelos romanos quando inventaram a política: eleger é ‘dar a alguém aquilo que se possui, porque ninguém pode dar aquilo que não tem’, isto é, eleger é afirmar-se soberano para escolher ocupantes temporários do governo (….) de tal maneira que a atividade democrática social realiza-se como um contrapoder social que determina, dirige, controla e modifica a ação estatal e o poder dos governantes. (CHAUI, 2008: 69)

Assim, ainda segundo Chauí, a democracia é uma forma de vida coletiva que não cessa nunca de resolver o problema que cria para si própria: o da participação social. Isto significa entender que a democracia está fundada no poder popular e, por isso, suas leis devem ser elaboradas por aqueles que irão cumpri-las. Isto se dá não só na forma de representação político-partidária, mas também, e talvez até principalmente, através das ações de pressão e reivindicação dos movimentos sociais. Os espaços públicos têm, assim, papel fundamental na constituição de uma sociedade democrática, sendo lugar de convívio, debate, conflitos, produção de saberes, dentre outras coisas.

Nesse sentido, a democracia é a única forma social que permite o surgimento do novo, que é realmente aberta a mudanças, justamente através da legitimação do conflito que permite aos mais diversos atores sociais, especialmente à classe trabalhadora, sentir a exigência de reivindicar e lutar pelos seus direitos e mesmo de criar novos, isto é, a democracia

(…) faz surgir o novo como parte de sua existência e, consequentemente, a temporalidade como constitutiva de seu modo de ser. (…) Eis porque podemos afirmar que a democracia é a sociedade verdadeiramente histórica, isto é, aberta ao tempo, ao possível, às transformações e ao novo. (CHAUI, 2008: 67/69)

Como uma das conclusões de seu texto Marilena Chauí escreve

Podemos dizer que a democracia propicia, pelo modo mesmo do seu enraizamento, uma cultura de cidadania à medida que só é possível a sua realização através do cultivo dos cidadãos. (CHAUI, 2008: 75. Grifo Nosso).

Cidadãos e Cidadãs

Mas o que é o “cultivo de cidadãos”? Paulo Freire, ao indagar-se sobre os limites da alfabetização como prática capaz de formar o educando para a cidadania define

(…) cidadão significa indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado e que cidadania tem que ver com a condição de cidadão, quer dizer, com o uso dos direitos e o direito de ter deveres de cidadão. (FREIRE, 2015: 53. Grifo Nosso).

Em certo sentido, boa parte da educação idealizada e praticada por Freire tem que ver com a possibilidade de atuação sobre a realidade, tomando consciência dessa capacidade de atuação. Assim, para Freire, consciência e realidade possuem uma unidade dialética, o que permite aos seres humanos transformar o seu contexto a partir das relações e reflexões que estabelece com ele e sobre ele.

Para Paulo Freire, essa capacidade de atuação sobre o mundo define os seres humanos como humanos e é o que ele define como “trabalho”: as ações humanas que transformam o já existente em algo novo e, ao fazê-lo, os humanos também transformam a si mesmos.

Há uma outra distinção fundamental entre as relações dos seres humanos com o mundo e os contatos dos animais com ele: somente os seres humanos trabalham, em sentido rigoroso. (…) A ação é trabalho não por causa do maior ou menor esforço físico despendido nela pelo organismo que atua, mas por causa da consciência que o sujeito tem de seu próprio esforço, da possibilidade de programar a ação, de criar instrumentos com que melhor atue sobre o objeto, de ter finalidades, de antecipar resultados (…) Para os seres humanos, como seres da práxis, transformar o mundo, processo em que se transformam também, significa impregná-lo de sua presença criadora, deixando nele as marcas de seu trabalho.” (FREIRE, 2015: 112. Grifo Nosso).

Nesse sentido, o cidadão ou cidadã se define como tal no momento mesmo em que usufrui direitos ou permite que grupos aos quais ele não pertence o façam, validando-os. Mas o cidadão ou a cidadão também se definem na medida em que, ao participar da vida social, transformam a democracia contribuindo com o alargamento dos direitos constituídos. Isto é, o “cultivo do cidadão” só é possível pela prática mesma de construir direitos e usufruí-los.

Nascimento

Para Hannah Arendt, em A Crise na Educação (1957), a educação existe como uma resposta ao fato de que constantemente nascem seres humanos no mundo. Isto é, ela propõe pensar a educação 

no sentido da reflexão sobre o papel que a educação desempenha em todas as civilizações, ou seja, da obrigação que a existência de crianças coloca a todas as sociedades humanas. (ARENDT, 2004: 38) 

Nesse sentido, os mais velhos assumem a responsabilidade tanto com esses que acabaram de nascer quanto com o próprio mundo. 

No entanto, face aos jovens, os educadores fazem sempre figura de representantes de um mundo do qual, embora não tenha sido construído por eles, devem assumir a responsabilidade, mesmo quando secreta ou abertamente, o desejam diferente do que é. (ARENDT, 2004: 40)

Os adultos têm, então, uma responsabilidade pela continuidade do mundo. Esta responsabilidade sobre o curso das coisas, ainda segundo Arendt, é que funda a autoridade do educador.

Mas a criança é nova em relação a um mundo que já existia antes dela, que continuará depois de sua morte e no qual ela deve passar a sua vida (…) Pela educação, os pais assumem por isso uma dupla responsabilidade – pela vida e pelo desenvolvimento da criança, mas também pela continuidade do mundo. (ARENDT, 2004: 40)

Esta autoridade, apesar de representar uma desigualdade na relação, pois implica certa superioridade do adulto em relação à criança ou ao jovem, e que existe porque o adulto é mais velho, só não é autoritária porque tem, obviamente, uma temporalidade, uma finitude. Isto é, em algum momento o jovem se tornará adulto e a desigualdade da relação terminará. 

Jorge Larrosa, em O enigma da infância – ou o que vai do impossível ao verdadeiro (2004), escreve sobre as formas do totalitarismo nas sociedades contemporâneas, trazendo à tona a “novidade” capitalista como uma forma de administração e fabricação do futuro 

Nosso totalitarismo não é o da destruição física de toda novidade possível e nem tampouco é o de converter a novidade para a produção totalitária de um mundo ideal. Nosso totalitarismo consiste na captura pragmática da novidade, em sua administração e em sua venda no mercado do Futuro. A espera do inesperado, que treme em cada nascimento, converteu-se no nosso mundo, na fabricação e na administração da novidade. (LARROSA, 2004: 191/192) 

Para Arendt, a educação deve introduzir a criança e o jovem como algo novo em um mundo velho e

Para preservar o mundo contra a mortalidade dos seus criadores e habitantes, é necessário constantemente restabelecê-lo de novo. O problema é saber como educar de forma que essa recolocação continue a ser possível, ainda que de forma absoluta, nunca possa ser assegurada. A nossa esperança reside sempre na novidade que cada nova geração traz consigo. Mas, precisamente porque só nisso podemos basear nossa esperança, destruímos tudo se tentarmos controlar o novo que nós, os velhos, pretendemos decidir como deverá ser. (ARENDT, 2004: 42).

Quais são as saídas então? A própria educação, segundo Arendt

A educação é assim o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína que seria inevitável sem a renovação, sem a chegada dos novos e dos jovens. (ARENDT, 2004: 44)

E, ainda que se tente fabricar o futuro reduzindo-o de mistério à dedução de uma premissa,

A liberdade, como capacidade interior do homem, equivale à capacidade de começar, do mesmo modo que a liberdade política equivale a um espaço que permita o movimento entre os homens. Contra o começo, nenhuma lógica, nenhuma dedução convincente pode ter qualquer poder porque o processo de dedução pressupõe o começo sob forma de premissa. (…) Cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós. (ARENDT, 2000)

Infâncias 2

Partindo da premissa de Hannah Arendt, de que “A educação tem a ver com o nascimento, com o fato de que constantemente nascem seres humanos no mundo” (LARROSA, 2004:186) o filósofo espanhol Jorge Larrosa discute a infância, no texto já citado acima.

Nesse sentido, destaca o perigo do que chama de “as faces de Herodes” – se referindo à história bíblica de Herodes que, em vista da profecia do nascimento de Jesus, isto é, de um nascimento que transformaria radicalmente o mundo, manda matar todos os recém nascidos. As “faces de Herodes” são, então, aquelas coisas que “matam” a novidade radical contida em todo nascimento.

 O filósofo entende que elas se apresentam quando nos relacionamos com a infância como possibilidade de criação de um mundo idealizado (Totalitário), ou a partir da intenção de captura pragmática da novidade (administração ou venda no Mercado do Futuro)

Por outro lado, Larrosa nos oferece uma concepção de infância: entendida como se o que nasce fosse a salvaguarda da renovação do mundo e da descontinuidade do tempo.

Pelo fato de que constantemente nascem seres humanos no mundo, o tempo está aberto a um novo começo: aberto à aparição de algo novo que o mundo deve ser capaz de receber, ainda que para recebê-lo tenha que ser capaz de renovar-se; aberto à vinda de algo novo ao qual o mundo deve ser capaz de responder, ainda que para responder ele deva ser capaz de colocar-se em questão. (LARROSA, 2003: 189)

Nesse sentido, teríamos de pensar as infâncias na medida em que elas sempre nos escapam, em que inquieta o que sabemos, que suspende o que podemos e que coloca em questão os lugares que construímos para ela.

Uma imagem do totalitarismo: o rosto daqueles que, quando olham para uma criança já sabem, de antemão, o que veem e o que têm de fazer com ela. A contra imagem poderia resultar da inversão da direção do olhar: o rosto daqueles que são capazes de sentir sobre si mesmos o olhar enigmático de uma criança, de perceber o que, nesse olhar, existe de inquietante para todas as suas certezas e seguranças e, apesar disso, são capazes de permanecer atentos a esse olhar e de se sentirem responsáveis diante de sua ordem: deves abrir, para mim, um espaço no mundo, de forma que eu posso encontrar um lugar e elevar a minha voz! (LARROSA, 2003: 192).

Infâncias 3

Para a antropologia das infâncias as crianças são atores sociais e, portanto, têm linguagem e cultura próprias. A imaginação, sua maneira de conceber o mundo por excelência, é o que dá forma à experiência vivida e é através das palavras que se faz uma tentativa de construir uma ponte entre os mundos vividos e concebidos (inventados). “O pesquisador que almeja saber sobre as crianças deve apreender delas como elas apreendem do mundo: pela experiência” (ROMEU, S/D).

Nesse sentido, pode-se considerar como matrizes universais da infância: brincar, fazer de conta e fazer de novo (repetir). Existe uma poética natural da infância que olha com “olhos de primeira vez”. E ver, como se sabe, tem um quê de inventar, como diria o poeta “O olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo” (Manoel de Barros). “As crianças poetizam o mundo e produzem narrativas, assim como também escrevem e contam suas vidas com seus corpos” (FRIEDMANN, S/D)

Experiência 1

Jorge Larrosa, no texto Notas sobre a experiência e o saber de experiência (2002), explica que as palavras são as for­mas através das quais damos sentido ao que nos passa. Para o autor, a experiência é aquele acontecimento que nos tomba e nos tira do lugar em que estávamos antes de vivê-la. Assim, a experiência é a única capaz de nos colocar em situação de verdadeira aprendizagem, de formação e transformação.

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca.(…) E o que gostaria de dizer sobre o saber de experiência é que é necessário separá-lo de saber coisas, tal como se sabe quando se tem informação sobre as coisas, quando se está informado.(LARROSA: 21/22, 2002).

Há uma simbiose entre a experiência e a forma de comunicá-la, a sua narração. Maria Isabel da Cunha, no artigo Conta-me agora! As narrativas como alternativas pedagógicas na pesquisa e no ensino (1997), escreve que há uma relação dialética entre experiência e narra­ção, na qual uma alimenta a outra.

É importante também entender a relação dialética que se es­tabelece entre narrativa e experiência. Foi preciso algum tem­po para construirmos a ideia de que assim como a experiência produz o discurso, este também produz a experiência. Há um processo dialético nesta relação que provoca mútuas influências (CUNHA, 1997).

Quando, então, narramos a experiência, transfor­mando-a em linguagem, é que damos condições para a ação, isto é, para retornarmos à experiência através dessa narração que é também uma interpretação, um “recorte”.

(…) tanto o relato da realidade produz a história como ele mes­mo produz a realidade. As pessoas vão contando suas experiên­cias, crenças, expectativas e, ao mesmo tempo, vão anunciando novas possibilidades, intenções e projetos. Experiência e narra­tiva se imbricam e se tornam parte da expressão de vida de um sujeito (…) a narração conduzirá ao desempenho de fatos vitais. Novamente recorrendo à Ferrer destacamos a sua afirmação de que ‘a vida se vive para poder contá-la (alguns povos a cantam) ao mesmo tempo que criamos nossos contos para dar sentido à vida’ (1995, p.188). (CUNHA, 1997).

Experiência 2 – Narrativa

Ao longo de sua obra, Walter Benjamin (1994), as­sim como Larrosa, discute o significado da experiência na contemporaneidade. Para Benjamin, a experiência tem relação com a narração na medida em que esta é uma das formas através das quais a humanidade escreve sua história. Para Benjamin, literatura e história enraízam-se nas atividades de lembrar e esquecer. Isto é, o que produz essas narrativas é uma dialética entre o esquecimento e a memória, que, sem o esquecimento, seria infinita. Con­tamos o que lembramos e nunca lembramos de tudo.

Se podemos assim ler as histórias que a humanidade conta a si mesma como fluxo constitutivo da memória e, portanto, de sua identidade, nem por isso o próprio movimento da narração dei­xa de ser atravessado, de maneira geralmente mais subterrânea, pelo refluxo do esquecimento; esquecimento que seria não só uma falha, um ‘branco’ de memória, mas também uma ativida­de que apaga, renuncia, recorta, opõe ao infinito da memória a finitude necessária da morte e a inscreve no âmago da narração (GAGNEBIN, 2009: 3)

O próprio movimento da linguagem é esta dialéti­ca entre lembrar e esquecer, que impõe certa atividade de seleção, uma vez que as coisas só estão presentes na narração não enquanto tais, mas em sua ausência, que só podem ser tornadas de novo presença enquanto pala­vra. A linguagem se refere ao que não está lá e, por isso, possui uma liberdade lúdica, provocada por essa ausên­cia de um referente único e totalizante. Nesse sentido, em Benjamin, a história, enquanto narração, é lugar conjunto da significação e da morte, uma vez que o sentido não nasce da presença do objeto, mas sim de sua “ausência dita”, provocando uma união quase que indiscernível entre os escombros do passado e os novos edifícios (GAGNEBIN, 2009).

Para Walter Benjamin, a narração é a forma básica de transmissão da experiên­cia nas sociedades pré-industriais. Esta transmissibili­dade não é uma tarefa simplesmente “bancária”[1], pelo contrário, tem a ver com o compartilhamento de uma temporalidade comum a diferentes gerações e com a existência (e exigência) de uma palavra compartilhada, que implica uma formação válida para todos que co­mungam de uma mesma coletividade. Neste sentido, o ouvinte tem necessariamente um papel ativo na expe­riência narrativa, o que dá a ela uma orientação prática, isto é, “útil”, pois tem em si um ensinamento moral, uma sugestão prática, uma norma de vida, enfim um “conselho”.

(…) de qualquer maneira o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas se ‘dar conselhos’ parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis (…) Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada (BENJAMIN: 200, 1994, grifo nosso).

Benjamin discute, ao longo de sua obra, a impossi­bilidade da narração tradicional e o empobrecimento da experiência na sociedade capitalista industrial, o que promoveu uma transformação profunda nas percepções individual e coletiva. Na modernidade, a narração per­de a sua orientação prática e, por isso, nos torna inca­pazes de dar e receber conselhos. Além disso, na era da informação as palavras parecem estar coladas àquilo que elas significam, os fatos já chegam acompanhados de sua explicação e, por isso, destituídas de “inacaba­mento”, da sua possibilidade lúdica de reinvenção.

Larrosa também discorre sobre os impeditivos do mun­do moderno para se viver uma “verdadeira” experiência: a sociedade da informação, a sociedade da opinião e o tempo regido pela incessante (e falsa) busca pela novi­dade. Tudo isso, de certa forma, também contribui para a incomunicabilidade da experiência na modernidade, uma vez que inutiliza a distância criativa entre a pala­vra e a coisa, deixando pouco espaço para atividade de interpretação e recriação.

A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que ca­racteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara. (LARROSA, 2002: 21/22)

Para Gagnebin, uma das “causas” da pobreza da ex­periência e da impossibilidade de dar e receber con­selhos na contemporaneidade tem relação com a nova forma que as sociedades burguesas estabeleceram com a morte, que as afastou de seu ri­tual, pois, para Benjamin, é da possibilidade da morte que deriva a sabedoria da palavra do narrador

Ora, é no momento da morte que o saber e a sabedoria do ho­mem e sobretudo sua existência vivida – e é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela primeira vez uma forma transmissível. Assim como no interior do agonizante desfilam inúmeras imagens – visões de si mesmo, nas quais ele se havia encontrado sem se dar conta disso -, assim o inesquecível aflora de repente em seus gestos e olhares, conferindo a tudo o que lhe diz respeito aquela autoridade que mesmo um pobre-diabo pos­sui ao morrer, para os vivos ao seu redor. Na origem da narrativa está essa autoridade. (BENJAMIN, 1994: 207/208)

Para Benjamin, a cadeia que funda a tradição, e que transmite os acontecimentos de geração para geração, é fundada pela reminiscência. E este movimento de lem­brar e esquecer que a memória faz, permite que as nar­rativas criadas por ela se apropriem do curso das coisas por um lado, e a resignação, por outro, do fato de que essas coisas, através do poder da morte, desaparecerão. Assim “(…) é a imagem de uma experiência coletiva, para a qual mesmo o mais profundo choque da experiência individual, a morte, não re­presenta nem um escândalo, nem um impedimento.” (BENJAMIN: 215, 1994)

Memória

Ecléa Bosi no livro Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos (1979) apresenta em seu trabalho uma concepção de memória como aquilo que possui um estofo social, apesar de relativa a um sujeito. Do ponto de vista do indivíduo, a memória permite a relação do corpo presente com o passado, que não é retomado de forma “pura” e sim como algo que interfere no processo atual de representações, quando a memória é chamada ao presente na forma de “lembrança”.

As lembranças, quando lembradas, o são por um indivíduo que agora já não é mais o mesmo. Por isso, ao lembrar, esse indivíduo reconstrói, refaz essa lembrança, atualiza-a. Nesse sentido, a memória é trabalho. “A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual.” (BOSI, 1979: 17).

A linguagem, por outro lado, é o instrumento socializador da memória, aproximando no mesmo espaço histórico e cultural as “imagens” que cria, suas representações, a lembrança enfim. “As convenções verbais produzidas em sociedade constituem o quadro ao mesmo tempo mais elementar e mais estável da memória coletiva.” (BOSI, 1979: 19). Bosi apresenta o conceito de “convencionalização” como sendo este instrumento que articula o processo cultural de um momento histórico com o trabalho da memória.

A ‘convencionalização é, a rigor, um trabalho de modelagem que a situação evocada sofre no contexto de ideias e valores que evocam. (…) O passado entra plasticamente no universo pessoal: (…) O passado é, portanto, trabalhado qualitativamente pelo sujeito.” (BOSI, 1979: 26/29).

Assim, continua Bosi, evocar é realizar um trabalho da inteligência, pois sem o trabalho da reflexão, a memória seria apenas uma imagem sem sentido. Se referindo à impossibilidade da narração na sociedade contemporânea discutida por Walter Benjamin, Bosi defende que junto com a morte da narrativa, morre também, a faculdade de escutar, pois entre ouvinte e narrador nasce uma relação comum, baseada principalmente em preservar aquilo que está sendo narrado.

A arte de narrar é uma relação alma, olho e mão: assim transforma o narrador a sua matéria, a vida humana. (…) Trabalhar a matéria da experiência: (…) O narrador é um mestre do ofício que conhece seu mister: ele tem o dom do conselho. A ele foi dado abranger uma vida inteira. (…) Uma atmosfera sagrada circunda o narrador.” (BOSI, 1979: 49).

Ao se referir aos velhos, cuja memória é objeto do livro a que nos referimos, Bosi reitera que nas sociedades industriais o trabalho, especialmente o do operário, é esvaziado de seu teor criativo, tornando-se uma mera produção, ou reprodução. Nesse sentido, a autora afirma “A degradação senil começa prematuramente com a degradação da pessoa que trabalha. (…) A noção que temos de velhice decorre mais da luta de classes que do conflito de gerações.” (BOSI, 1979: 38/39).

Nesse sentido, Bosi também realiza uma comparação entre os velhos e as crianças, pois apesar de serem duas gerações cujo papel social difere bastante, ambas estão fora daquele trabalho “esvaziado” da sociedade industrial. Realiza uma bela imagem, então, da relação entre os avós e seus netos e completa anunciando uma função social dos velhos: lembrar.

(…) unir o começo ao fim, de tranquilizar as águas revoltas do presente, alargando suas margens (…) A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda (…) Para quem sabe ouvi-la é desalienadora, pois contrasta a riqueza e a potencialidade do homem-criador de cultura com a mísera figura do consumidor atual. (BOSI, 1979: 40)

TECENDO PERGUNTAS – A TÍTULO DE (IN)CONCLUSÃO

Algumas das reflexões aqui explicitadas situam a educação, a princípio, como um conjunto de intervenções a serem realizadas para algo e em alguém, a saber: intervenções nas crianças, para a realização de projetos de sociedade (ou de cidade?). É aí que, para Paulo Freire, está o lugar eminentemente político da educação: como anúncio de um projeto de cidade, de sociedade, ou, pelo menos, de um ideal de convivência humana.

Assim, depois de parir essas palavras, poderíamos dar forma (talvez de um modo um pouco ansioso) a uma hipótese: concepções de infância anunciam projetos de cidade.

Com Freire aprendemos que todo projeto educativo envolve um projeto de sociedade que, por sua vez, envolve um projeto ideal de ser humano que vai construir essa sociedade. Ora, se a pedagogia implica um projeto de intervenção que tem como premissa “formar” esse ser humano ideal, como essas concepções se articulam para conceber um projeto de cidade? Talvez exista alguma ligação entre as formas como concebemos as infâncias e as formas como pensamos as cidades e essa ligação se dá através dos nossos projetos de educação.

Evidentemente, a educação tem uma dimensão prática fundamental, na qual essas concepções se misturam. Não se trata, no entanto, de encontrar essas concepções nas práticas educativas como um mero exercício intelectual, mas sim de trazer à tona um projeto de sociedade, com o intuito de torná-lo mais coletivo. Talvez, para tanto, seja necessário perguntar às nossas práticas: para quem e a que serve este projeto? Qual cidade queremos construir? Como pensamos as crianças nesse projeto? E de que forma isso nos leva a uma prática coerente com o projeto que defendemos?

O livro Educação e Política, de Paulo Freire, organizado por Ana Maria Araújo Freire, reúne uma coleção de textos escritos em 1992 para serem discutidos em reuniões realizadas no Brasil e fora dele. Um deles, cujo título é Educação permanente e as Cidades Educativas, fornece algumas pistas para refletirmos sobre as relações entre a educação e as cidades educadoras e, consequentemente, também nos ajuda a pensar a relação destas últimas com as infâncias.

Freire articula, neste texto, o conceito de cidades educadoras com a ideia de que a educação é uma atividade humana permanente.

Para o autor, a cidade não é só o contexto onde se dá a educação, ela é também um conjunto de “contextos” formados por práticas sociais. Assim, experienciar a cidade é também um processo educativo.

Para Paulo Freire a educação é permanente

(…) na razão, de um lado, da finitude do ser humano, de outro, da consciência que ele tem de sua finitude. Mais ainda, pelo fato de, ao longo da história ter incorporado à sua natureza não apenas saber que vivia mas saber que sabia e, assim, saber que podia saber mais. A educação e a formação permanente se fundam aí. (FREIRE, 1992: 23).

Nesse sentido, Freire defende que é condição propriamente humana estar envolvido em alguma prática educativa, ao longo de toda vida e em qualquer lugar.

Numa certa prática educativa não necessariamente a de escolarização, decerto bastante recente na história, como a entendemos. Daí que se possa observar facilmente quão violenta é a política de Cidade, como Estado, que interdita ou limita ou minimiza o direito das gentes, restringindo-lhes a cidadania ao negar educação para todos. (FREIRE, 1992: 26)

Freire destaca também a tarefa “pedagógica” do Estado, tarefa esta que deve constantemente ser lembrada pelos movimentos sociais aos que estão no poder. E esta “pedagogia” do Estado tem que ver com a democracia. Se ela é o regime político verdadeiramente aberto ao novo – porque não cessa nunca de criar novos direitos – poderíamos concluir que, assim como os seres humanos, a democracia é inacabada. Aliás, possivelmente é somente porque é um “objeto” em constante construção que pode ser chamada democracia.

É então trabalho do cidadão ou cidadã criar direitos. Assim, aprender a democracia só é possível através de uma práxis educativa também inacabada. Mas qual experiência de democracia a cidade oferece ou poderia oferecer?

Para Paulo Freire, a cidade se faz educativa, enquanto cultura e memória, de maneira quase espontânea

De qualquer forma, esse momento espontâneo é de grande riqueza, não importa que tenha suas negatividades também. No fundo, ele explicita formas de estar sendo de gerações anteriores, maneiras de valorar, de reagir, expressões discriminatórias disto ou daquilo, que não se acham apenas arquivadas na memória das Cidades. São manifestações vivas de sua cultura de nossa cultura. (…) No fundo, a tarefa educativa das Cidades se realiza também através do tratamento de sua memória e sua memória não apenas guarda, mas reproduz, estende, comunica-se às gerações que chegam. (FREIRE, 1992: 29).

E se a memória é trabalho da inteligência e por isso pode ser comunicada, voltamos às narrativas, à palavra e, finalmente, à experiência que se fundem na cidade.  Mas este movimento é dialético. Por isso, continua Paulo Freire,

Enquanto educadora, a Cidade é também educanda. (…) Muito de sua tarefa educativa implica a nossa posição política e, obviamente, a maneira como exerçamos o poder na Cidade e o sonho ou a utopia de que embebamos a política, a serviço de que e de quem a fazemos. (FREIRE, 1992: 29. Grifo Nosso).

Mas e as crianças, que têm a ver com tudo isso? Invertamos aquela hipótese – de que concepções de infância anunciam projetos de cidade: que concepção de infâncias anuncia uma cidade educadora e, portanto, educanda?

Como princípio, imaginemos uma cidade verdadeiramente democrática, isto é, realmente aberta ao novo e, por isso, inacabada, cujos cidadãos e cidadãs realizam constantemente o seu trabalho criador de fazer e refazer o mundo, narrando-o.

As infâncias se apresentariam para nós, conforme aprendemos com Jorge Larrosa e Hannah Arendt, como um enigma, uma pergunta, como aquele ou aquela que nasce e que, por isso, obriga a quem já está no mundo a elaborar uma resposta para esse acontecimento. Considerando que o nascimento tem em si, potencialmente, a capacidade de gerar novos começos, a infância é, então, uma novidade radical que deve nos tombar. Que projeto de cidade vem daí?

Na primeira expedição do projeto Navegar! do Grupo Esparrama, ao escutarmos as crianças de três diferentes grupos da cidade de São Paulo esperávamos encontrar a resposta a essa questão. Mas, entendemos, seria uma contradição dar uma resposta acabada, quando buscamos justamente o inacabamento, nossa maior marca de humanidade. Entendemos, então, que a pergunta é mais importante e as crianças se tornaram, para nós, um enigma.

Mas descobrimos alguma coisa: as crianças, talvez assim como os artistas, através das suas formas de ler o mundo nos ensinam a interromper o fluxo dos tempos e espaços consolidados, criam por assim dizer “buracos”, arestas, acontecimentos.

Por exemplo, no encerramento das escutas na EMEI Gabriel Prestes fomos com as crianças da escola à praça Roosevelt; para tanto tivemos que atravessar a Consolação, uma movimentada avenida da cidade de São Paulo, em pleno horário de rush. Era carro, moto e caminhão para todo o lado. As crianças eram pequenas e por isso andavam devagar. Consegue imaginar a apreensão de todos os adultos envolvidos na hora de atravessar essa avenida? Mas as crianças cantavam e os motoristas e pedestres que passavam olhavam os meninos e meninas atravessarem uma avenida enorme. Nenhuma buzina. Só sorrisos. Nenhum bufo de nervoso. Só olhares carinhosos. E a cidade parou por cinco minutos para ver as crianças passarem.

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Sites

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Quem está na escuta? Diálogos, Reflexóes e trocas de especialistas que dão vez e voz às crianças, disponível em:

http://primeirainfancia.org.br/wp-content/uploads/2016/11/T300000001836-0-Mapa_infancia-000.pdf, consultado em 23/04/2020.

Aula

SINGER, Helena. Fundamentos da Educação Integral “Educação Integral, histórico e pensadores”, FAPES, 2017.


[1] Paulo Freire, em diversos de seus textos, discorre sobre o conceito de educação bancária, na qual o educando é considerado como uma espécie de “tábula rasa” e, portanto, é alguém sem nenhuma experiência e saberes anteriores. Então, na educação bancária o processo de aprendizagem con­siste em transferir o saber do professor, que é detentor da verdade, para o aluno, que nada sabe.

Reginaldo no Seminário Heliópolis, Bairro Educador. Acervo UNAS.

Reginaldo José Gonçalves, 43 anos, é morador de Heliópolis, membro da diretoria ampliada da UNAS e uma das maiores lideranças entre as juventudes no bairro. Em 2019, me concedeu uma entrevista para um trabalho de especialização que eu estava fazendo sobre os(as) jovens da comunidade.

Interessava-me na época entender melhor o papel que as juventudes têm no processo de transformação social. Nesse sentido, ficava, fico ainda, bastante intrigada com os diálogos possíveis entre as diferentes gerações. Meus primeiros trabalhos como educadora começaram quando eu ainda era jovem e durante todo esse período da minha vida, contando com a adolescência, tive os maiores embates e os maiores apoios dos adultos que me rodeavam. E esses embates e apoios, muitas vezes até se confundindo entre si, formaram a pessoa que sou hoje. Por isso, agora que já sou adulta, me pergunto qual o meu papel como educadora, frente às diferentes gerações que passam e passarão por mim.

O relato de Reginaldo que mistura sua história de vida com contundentes análises sobre as juventudes, nos ajuda a pensar sobre essa e outras questões, pois ele começou na militância ainda jovem e sua história perpassa várias gerações de Heliópolis: as que vieram antes dele e as que vieram depois.

Conversamos durante mais de uma hora e apresento aqui para vocês os principais trechos dessa conversa, para mim foi uma honra e um prazer. Aprendi muito! Espero que vocês gostem também.

EMEF PRES. CAMPOS SALLES

Eu nasci no São João Clímaco, que fica ao lado de Heliópolis, vim morar no bairro quando tinha 5 anos, porque na época o aluguel lá era muito caro, então minha tia conseguiu uma doação de terreno pela igreja e chamou os meus pais.

Primeiro eu comecei a estudar em uma escola estadual e depois fui para a EMEF Pres. Campos Salles, que hoje tem um projeto pedagógico transformador, estudei lá antes do Braz Rodrigues Nogueira vir ser diretor. Na época, era considerada uma das piores escolas da região, ninguém queria ter o filho estudando lá, mas era mais próxima da comunidade e meus pais trabalhavam, então era mais fácil para eles porque a gente se virava para ir.

Acho que eu estava no último ano quando o Braz chegou. Então eu peguei essa transição. A mudança do que era a Campos Salles naquela época e do que é agora, não só da qualidade da educação, mas dessa parceria entre escola e comunidade foi muito interessante, porque uma escola que era vista como um espaço negativo, ninguém queria ter um filho lá, se transformou numa escola que todo mundo quer participar, se tornou uma escola referência até para outras comunidades. A escola conseguiu aumentar o índice da qualidade do ensino, criou uma metodologia de trabalho totalmente diferenciada, que a gente acredita hoje: do jovem como protagonista, do aluno ser a referência, que um ensina para o outro, educação em círculo, uma coisa totalmente diferente da minha época.

Na minha época, a gente vinha para a escola porque era obrigado, porque os pais mandavam, e eu vejo nessa nova geração, com essas novas metodologias educacionais e tudo o mais, novas estratégias, aulas de robótica, informática, eles gostam de estar aqui nesse espaço, faz total diferença. Na minha escola não tinha isso, era uma coisa muito quadrada, a professora na lousa passando a informação e você ali quietinho não podia nem falar nada, nem dialogar…Trabalhar com música, impossível!

A UNAS

Eu me tornei um militante mesmo, quando entrei para uma associação de moradores local a UNAS (União de Núcleos e Associações de Moradores de Heliópolis e região) através da Rádio Comunitária, mas não foi um processo simples.

Eu era DJ, tocava, tinha uma equipe de som, chamada Equipe de Rotação 2000, que era eu, um dos primeiros DJs de Heliópolis que era o DJ Sapão e o DJ Gozima. E a gente tocava, na época tinha muita festa junina, quermesse, festa das escolas e tudo o mais, e a gente era chamado para tocar nesses eventos. E tinha a rádio Comunitária Heliópolis, que a gente acompanhava desde a época em que ela era apenas uma rádio Corneta. Era uma corneta mesmo que ficava no Copa Rio, que era um campo de futebol aqui dentro de Heliópolis, que a gente frequentava muito e escutava a rádio.

Em 1997 a rádio passou a ser escutada no dial e a gente viu uma oportunidade para poder divulgar mais o nosso trabalho. Aí a gente começou a acompanhar a rádio, e conseguiu um horário na programação para fazer nosso programa, que na época chamava “Black Mania”.

E foi assim que conheci um pouco do trabalho da UNAS, eu entrei para divulgar nosso trabalho, a gente pensou que a rádio podia ser uma oportunidade para gente pegar mais festas, mais eventos na comunidade.

Mas então, quando a gente estava com a programação bombando, a Gerohhanah Barbosa, uma mulher trans liderança comunitária de Heliópolis que era a coordenadora da rádio na época, chamou a gente para uma reunião e falou que queria rever nossa programação, a gente achava que ela ia aumentar nosso tempo! Mas ela disse: “esquece seu trabalho de DJ porque agora você é um comunicador social, você está a serviço da comunidade”.

Na hora a gente não entendeu muito, mas depois eu fui perceber o que ela tinha falado, porque as pessoas começaram a parar a gente na rua pra falar sobre muitas coisas, desde criança desaparecida, documento, cachorro, papagaio, até os problemas da comunidade mesmo, esgoto a céu aberto, de cobrar a subprefeitura para resolver esses problemas e a gente viu que realmente era uma responsabilidade enorme, e que a gente estava tendo uma possibilidade de estar à frente da rádio e servir à comunidade.

A rádio não tinha nem telefone para você ter uma ideia, as pessoas iam lá, pediam para tocar música e falavam: “daqui 5/10 minutos você toca, moço” para dar tempo de chegar em casa e escutar a gente falando dela, para você ver como a rádio era o “bum” do momento naquela época.

E eu comecei a me envolver nas formações que a UNAS estava desenvolvendo naquela época para as lideranças. E eu, como representante das juventudes, fiz alguns trabalhos voluntários, até aparecer a oportunidade de fazer uma oficina de DJ, no começo eu achei que não ia ser capaz, porque tocar é uma coisa e ensinar é outra. E a gente começou a trabalhar no projeto chamado “Se Liga Galera” um projeto que tinha oficina de DJ, teatro, aula de cidadania…

Eu dava aula lá toda semana e fui percebendo a importância desses projetos, dessas atividades e tudo que a UNAS representava para a comunidade. Era uma oportunidade de ter realmente um espaço que promovesse não só a formação, mas um espaço de escuta da juventude, um espaço onde a juventude tivesse a fala. Então isso era fundamental, coisa que na minha época não tinha, mas a gente pôde oferecer isso para esses jovens que estavam participando dos projetos.

Nós cavamos isso meio que na raça. A UNAS sempre deu essas oportunidades para os jovens, é importante falar isso. Mas esse trabalho que a gente desenvolveu, a gente conseguiu abrir muitas portas para os jovens. Depois do “Se Liga Galera” eu lembro que tinha 4 ou 5 projetos que o jovem podia escolher, nenhum desses projetos tinha bolsa ou algum tipo de gratificação por participar e eram todos lotados, porque não tinham outras oportunidades.

AS MUDANÇAS

Teve a geração da Antônia Cleide Alves, que hoje é presidenta da UNAS, mas que entrou na luta com 15 ou 16 anos. Teve a minha que foi intermediária, e a atual.

Eu lembro bem que a maioria dos meus amigos de escola ou foram presos ou foram mortos. Não tinham essas oportunidades. O que a gente tinha era a rua. Não tinha projeto social, atividades culturais. A maneira que a gente achava para se divertir era a rua, e na rua você está exposto a tudo que tem de negativo, por isso que muitos desses meus amigos acabaram trilhando outros caminhos, perdendo ou prejudicando a vida, por não ter oportunidades. Aí minha geração começou a perceber a importância de lutar e se juntou com os mais antigos para poder criar essas oportunidades, criar alternativas.

Então, eu comecei a perceber que foi diminuindo o índice de violência, de jovens envolvidos com a criminalidade, e aumentando as oportunidades. A minha geração acompanhou esse processo de mudança e acabou colaborando também com esse processo de lutar para que tivesse mais oportunidades para a juventude daquela época.

A diferença é que a geração anterior começou a lutar, e a gente foi junto com eles. A gente não tinha uma voz ativa, a gente ia pelo que eles falavam que era interessante para comunidade, a gente não tinha a experiência de lutar, por ser jovem e não ter vivido ainda o processo de trabalhar a autonomia, a responsabilidade, o indivíduo como cidadão. Não aprendemos na escola, e nem na rua, e a gente não teve as oportunidades que existem hoje para ter mais conhecimento sobre os direitos e deveres do cidadão, por exemplo.

Tem uma questão que eu acho que mudou muito: tanto a geração anterior à minha quanto a minha tínhamos muito receio de falar que era morador de Heliópolis. Primeiro porque sofria preconceito, os outros achavam que a gente era bandido, marginal, e quando estava procurando emprego não conseguia vaga. Tinha qualificação profissional, tinha experiência, as vezes mais que o cara que estava concorrendo com você, mas se falasse que morava em Heliópolis não conseguia a vaga.

Ao longo desse processo de transformação e criação de oportunidades isso foi se modificando. A geração atual fala que mora em Heliópolis com orgulho, inclusive as pessoas até respeitam, acham legal, querem conhecer. Por mais que a mídia faça uma divulgação negativa, as pessoas conseguiram perceber que em Heliópolis tem alguma coisa diferenciada, essa organização, a articulação da população da comunidade trouxe benefícios, criou referências. Isso de você pertencer a um território, respeitar, ter orgulho, também era uma forma de agir que mudou das gerações anteriores para essa. Ninguém mais tem medo de falar que mora em Heliópolis. Nisso a gente conseguiu avançar muito.

Outra questão que eu vejo é a da violência. A geração anterior à minha e a minha sofreu muito com a violência, e ao longo dos anos com esses projetos a gente foi diminuindo esse índice. Outra coisa que contribuiu para a diminuição da violência em Heliópolis foi a parceria entre a UNAS e a Campos Salles que começou com a chegada do Braz, e deu vários frutos inclusive a criação de uma Caminhada pela Paz pelas ruas e vielas da comunidade. Que, aliás, começou justamente porque uma jovem, a Leonarda, foi morta em frente à escola.

Então esse processo educativo de organização da comunidade foi mudando essa questão da violência, uma coisa que na minha época enquanto jovem era natural: falar que tinha chacina aqui em Heliópolis, que teve morte, tiroteio, a geração de agora não tem, se falar que morreu alguém aqui, todo mundo fica assustado, porque não é mais uma coisa natural. Essa naturalização da violência por muitos anos esteve presente em Heliópolis e hoje não tem mais.

E tem mais uma outra questão que mudou. Uma vez o João Miranda, uma das maiores lideranças comunitárias de Heliópolis,  falou uma coisa que até hoje me marcou, que a gente fala da questão da educação e cultura, mas ele falou que a geração dele não estava preocupada com educação e cultura, estava preocupada em colocar um prato de comida para os filhos terem o que comer, e depois que os filhos tivessem alimentados que iam se preocupar com outras questões. Para a geração dele a preocupação era comida e moradia. Para minha geração já tinha moradia e um arroz com ovo para comer, aí foi atrás de cultura, de educação, de outras coisas. E essa nova geração já tem tudo isso. Mas temos que ter muito cuidado, porque podemos ainda perder esses direitos conquistados.

HIP HOP

A música, a cultura, a arte, sempre fizeram parte das gerações e teve papel fundamental. Mas para mim o Hip Hop muitas vezes cumpriu um papel que a escola não conseguiu cumprir. Por exemplo, tinha uma música do SLJ que era um grupo de Rap da década de 1990, começo dos anos 2000 que era assim “na escola a professora não ensinava nem o que era genocídio” e eu pensei, caramba, eu não aprendi o que era genocídio na escola, e eu fui pesquisar e fui ver, que palavra forte! E a importância da gente saber o que é o genocídio que hoje a gente vive, o genocídio da juventude negra e periférica, e a gente não percebia aquilo acontecendo debaixo das nossas barbas, e através da música começamos a nos orientar.

Então o Rap em si, o hip hop, teve um papel fundamental para minha geração, porque era através da música que a gente conseguia denunciar o que estava acontecendo aqui na comunidade, através da música que a gente tinha uma voz da periferia. A gente falou muito de espaços de escuta, de dar voz para a juventude, e o rap proporcionava isso, a gente poder falar o que estava acontecendo com a gente do jeito que a gente pensava.

Então acho que nossa geração foi privilegiada nesse sentido, de ter uns caras que estavam na linha de frente, que sabiam o que a gente passava e conseguiam retratar isso facilmente na música, e a gente conseguia se identificar com essa música que é saída do gueto, da periferia, que foi perseguida, assim como o funk hoje é. Na nossa época foi o rap, lá atrás foi o samba. E a gente via a importância que tinha, os instrumentos que são criados na periferia para fazer a diferença.

Hoje a gente tem a literatura periférica, a literatura marginal, que tem uma força enorme, mas pergunta se alguém apoiou? Foi tudo feito de dentro para fora e de dentro para dentro. Ninguém chegou de fora e quis ajudar. Hoje a gente tem cada poeta. A gente tem uma editora, uma gráfica, aqui dentro de Heliópolis que lança tanto livro que eu nem imaginei que tinha tanto poeta aqui, você vê como as oportunidades são importantes? Uma editora aqui fez toda a diferença, fez aflorar os talentos aqui que estavam escondidos, que não tinham oportunidade para mostrar o seu trabalho, o seu talento. O dom da escrita, da palavra, da oratória, e tudo isso a gente consegue através de um projeto, de uma ação né?

Então a música, a cultura, o rap na minha geração foi muito importante, porque conseguiu não só mostrar a juventude que estava ali exposta à polícia, ao tráfico e à violência, mas uma juventude que tinha voz, que sabia o que queria.

E que incomodava o poder púbico né? A cultura está muito presente, até hoje, no dia a dia da juventude. Na minha época foi fundamental porque fez a gente perceber que a gente poderia ter voz e vez, porque também não é só fazer música por fazer, é fazer música com um sentido, com um propósito, com um objetivo, e isso aconteceu muito na minha geração.

ENGAJAMENTO

Uma vez eu falei que educação e cultura andam lado a lado, teve gente que falou que cada um é uma coisa, que educação tem uma importância e a cultura tem outra, mas eu não consigo desassociar. Para mim andam lado a lado. Se você tem educação, mas não tem a questão cultural da memória, da história de onde você veio, para onde você quer ir, da história do seu bairro, da riqueza cultural dos artistas, da culinária, tudo que é produzido culturalmente na sua região, a educação não vale de nada. Acho que você tem que juntar a educação e a cultura com a realidade que você está inserido, que você vive, e até do seu país.

O que eu vejo, falando de todas as gerações, o que engaja os jovens são atividades e ações que são do interesse deles, a linguagem por exemplo, a música é uma coisa que engaja, a cultura, uma pista de skate. Agora, o que a gente tem que entender da juventude é que são diversas juventudes. Juventude é uma coisa muito ampla. A diversidade e a riqueza da diversidade são muito legais. Hoje o jovem consegue se posicionar e colocar ali a sua maneira de ser, de agir e tudo o mais, e isso também traz problemas para eles. Tem essas duas questões.

Mas uma coisa que ao meu modo de ver foi se transformando ao longo dos anos: o jovem começou a perceber que ele poderia se expor como cidadão, colocar suas opiniões, se fazer ser respeitado e esse foi um processo de formação, de articulação, de mobilização.

Eu vi essa ação que teve nas escolas públicas, esses movimentos dos estudantes do ensino médio de defender sua educação, isso foi uma coisa muito bacana e aconteceu de maneira natural, não teve ninguém que falou que ia lá articular os jovens, foram eles mesmos. Então, a partir de uma demanda eles perceberam que era importante lutar pela qualidade do ensino e lutar para manter a escola deles, porque corria esse risco de umas escolas fecharem e eles começaram a se organizar e se mobilizar e nisso eu vi nascer várias lideranças juvenis.

Eu vi uma frase uma vez que eu achei muito interessante, eu acho que a gente não consegue preparar o mundo para o jovem, mas a gente consegue preparar o jovem para o mundo. Então eu acho que o papel do adulto é esse, é dar ferramentas, subsídios para o jovem se tornar um cidadão com clareza dos seus direitos e deveres. O primeiro passo é esse, o segundo passo é o jovem entender que se ele quer criar um mundo melhor ele tem que participar, não tem jeito, não dá para esperar o outro fazer para mim.

Laila Sala

O papel da Educação Integral em tempos de crise

Global, a pandemia do Covid-19 tem imposto uma gama ampla de desafios para todos nós. São desafios de ordem econômica e social, mas também pessoal. Temos sido impelidos todos os dias a recriar praticamente tudo para sobrevivermos a um tempo em que os meios que conhecemos já não podem operar.

Em um país desigual como o Brasil, estes desafios ganham contornos dramáticos. Com 52,5 milhões de pessoas (um quarto de sua população) ainda vivendo com menos de R$ 420,00 per capita por mês[1], este período de isolamento social com a consequente suspensão da atividade econômica e fragilização da rede de proteção social produz efeitos gravíssimos para uma parcela significativa da população. E é nesse contexto que a educação pensada como direito deve atuar.

Fica evidente neste cenário que é urgente pensarmos a educação para além do processo de escolarização. Se, como nos ensinou John Dewey, “educação é processo, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, mas a própria vida”, torna-se fundamental reconhecer com clareza o contexto em que estamos trabalhando como educadores para ampliar o alcance que nossa intervenção pode alcançar de forma a minimizar os efeitos desta crise.

No entanto, como uma atividade essencialmente presencial, a educação se vê em um momento de muita pressão. Por toda a parte surgem soluções para o trabalho educacional remoto, mas a realidade é que gestores e professores ainda se vêm lidando com uma série de questionamentos, se vêm exigidos a reorganizar o calendário escolar diante de uma baixa previsibilidade em relação a duração e efeitos deste período.

Diante de muitas indefinições, algumas medidas vêm sendo tomadas no sentido de estabelecer alguns, ainda que insuficientes, parâmetros às redes e escolas neste período. Entre elas, a Medida Provisória 934 do Governo Federal, o posicionamento do CNE e as resoluções dos Conselhos Estaduais autorizam, a partir da brecha da situação de emergência prevista na LDB, que sejam estruturadas nos próximos meses atividades não presenciais, inclusive no Ensino Fundamental, para cumprimento da carga horária prevista.

Claro que a ideia de manter em alguma medida os estudantes engajados em atividades propostas pelas escolas é desejável e relevante. No entanto, é fundamental aprofundarmos coletivamente nossa reflexão a respeito dos objetivos que estas atividades não presenciais devem ter neste momento, considerando todos os aspectos que impactam as redes, escolas, profissionais da educação, famílias e estudantes.

Primeiro é importante entender que a indefinição completa em relação a evolução no tempo e alcance da epidemia gera incerteza e insegurança por parte de todos. A vida de gestores, professores, famílias e estudantes tem sido cotidianamente afetada de diferentes maneiras.

Além disso, segundo relatório do UNICEF, metade de nossas crianças e adolescentes (46 milhões) vivem sob múltiplas privações e, especialmente para eles, a escola é reconhecidamente fator de proteção. Nesse sentido, as condições de vida de milhões de estudantes oferecem inúmeras barreiras a implementação de propostas que dependam exclusivamente de suas famílias e espaços de moradia (educação domiciliar ou homeschooling).

Por fim, se compreendemos que a Constituição Federal prevê condições de igualdade no acesso a oferta educacional, é fundamental compreendermos as questões estruturais que afetam este direito. O guia Covid -19, Educação e Proteção de Crianças e adolescentes, da Campanha Nacional pelo Direito a Educação e da plataforma Cada Criança, aponta que no Brasil 58% dos domicílios não têm acesso a computador e 33% não dispõem de internet[2]. Além disso, relatos dão conta de que os profissionais da educação não se sentem preparados para propor atividades que prescindem da sua mediação e tampouco os pais e mães se sentem capazes para mediar processos de aprendizagem, mesmo nas camadas mais favorecidas economicamente.

Nesse contexto, o Centro de Referências em Educação Integral[3] vem fazendo uma reflexão sobre como é possível estruturar respostas a esta crise que observem os princípios da Educação Integral[4] na efetivação do direito à educação no Brasil durante e após este período. Estes princípios versam sobre 4 aspectos:

Equidade: reconhecimento do direito de todos e todas de aprender e acessar oportunidades educativas diversificadas, a partir da interação com múltiplas linguagens, recursos, espaços, saberes e agentes.

Inclusão: reconhecimento da singularidade e diversidade dos sujeitos, a partir da construção de projetos educativos pertinentes para todos e todas.

Sustentabilidade: compromisso com processos educativos contextualizados, sustentáveis no tempo e no espaço e que integram permanentemente o que se aprende e o que se pratica.

Contemporaneidade: compromisso com as demandas do século XXI, com foco na formação de sujeitos críticos, autônomos e responsáveis consigo mesmos e com o mundo.

É natural que se pense, em um primeiro momento, que se estes princípios são desafiadores em condições “normais” de temperatura e pressão, que dirá neste contexto. No entanto, se os entendemos como princípios há que sustentá-los quaisquer que sejam as condições. E a experiência tem mostrado que eles não apenas devem parametrizar nossa ação, mas iluminam caminhos que podem nos levar a transformações desejadas há bastante tempo.

Para nos debruçarmos sobre alguns dos caminhos que municípios brasileiros têm explorado, é importante termos clareza de que perguntas orientam nossa reflexão, já que as mesmas oferecem elementos fundamentais para o estabelecimento de objetivos coerentes com nossos princípios e adequados ao contexto que estamos vivendo.

A pergunta central que devemos nos fazer deve ser como garantir que as políticas definidas neste período tenham em perspectiva os direitos de todas as crianças, adolescentes, jovens e adultos. A partir dela, os demais aspectos devem ser explorados. São eles:

  1. Quais devem ser os objetivos educacionais para este período de isolamento social? Considerando que o direito a educação para a educação integral consiste no direito à aprendizagem e ao desenvolvimento integral, o que é possível garantir com qualidade neste período para todos e todas?
  2. Considerando que a qualidade, sustentabilidade e pertinência das propostas dependem do engajamento dos profissionais da educação e da contextualização das mesmas, como garantir a participação ativa dos gestores e professores na construção destas estratégias de forma a que sejam adequadas a cada realidade? Que tipo de apoio deve ser oferecido a estes profissionais?
  3. Considerando que a qualidade, sustentabilidade e pertinência das propostas dependem do engajamento dos estudantes e das famílias, como garantir a escuta e a participação dos mesmos na construção destas estratégias?
  4. Como apoiar as famílias e os próprios estudantes na mediação das atividades educacionais propostas?
  5. Que papel a tecnologia e os recursos digitais podem desempenhar tendo em vista o não agravamento das desigualdades? Que outros recursos podem e devem ser criados para garantir que todos os estudantes tenham as mesmas oportunidades?
  6. O que este período nos informa a respeito de nossos estudantes, de suas famílias e contextos e a respeito de nossas práticas como educadores? O que faz sentido manter o que os novos tempos exigem transformar?
  7. Que outras oportunidades surgem neste contexto para a garantia a uma formação integral para todos? É possível repensar o papel da escola e da sociedade na formação das novas gerações a partir desta crise?

Neste exato momento, milhares de gestores e professores estão debruçados sobre a questão do calendário escolar. Se perguntam sobretudo como manter o currículo previsto. Sobre quais parâmetros devem orientar a definição de hora aula, os instrumentos de acompanhamento de frequência e o processo avaliativo nesse período. Além disso, já se perguntam o que fazer na volta as aulas. Ideias como avaliações diagnósticas em larga escala e reforço escolar já começam a aparecer. No centro, como é comum, o conteúdo. Surgem também ideias de novos agrupamentos por proficiência. A ideia é correr atrás do prejuízo. No centro, claro, o conteúdo. Os estudantes, os professores, sua relação com o mundo e com o conhecimento tem pouca atenção. Deixamos assim em segundo plano a experiência vivida por professores e estudantes neste período, as formas de acolhimento que serão necessárias, o fortalecimento da escola como espaço coletivo, as condições ainda mais adversas a que estudantes, famílias e comunidades possivelmente estarão expostos, as estratégias de engajamento dos estudantes na vida escolar, o reencantamento com o futuro pós-pandemia. Tudo isso tem relação direta com a aprendizagem. Não se trata de outra coisa. Aprendizagem é ação que se dá na interação com o mundo, necessariamente mediada pelo outro, pela linguagem e pelo contexto social. Qualquer tentativa de isolar o processo de aprendizagem destes aspectos estará fadada ao fracasso. Assim, avaliações em larga escala, excessiva atenção aos conteúdos prescritos, procedimentos que buscam acelerar aprendizagens para responder a testes desconsiderando o contexto, não apenas são estratégias anacrônicas por não responderem as necessidades formativas do século XXI, como serão mais uma vez ineficazes na promoção da aprendizagem.

E é justamente por considerar essa multiplicidade de aspectos que a educação integral tem uma contribuição relevante neste momento. E alguns municípios têm, à luz de seus estudos e políticas orientados pela educação integral conseguido construir coletivamente boas estratégias para este momento. O mais relevante destas propostas é que não apenas elas buscam responder aos desafios atuais impostos pela pandemia, mas sobretudo buscar guardar coerência com o trabalho feito até aqui e lançar as bases do trabalho pós-crise.

O município de Tremembé (SP), por exemplo, decidiu que neste momento as famílias precisavam contar com as escolas presentes, as apoiando em diferentes aspectos da vida com seus filhos. E que era importante manter a conexão dos estudantes com o processo de aprendizagem. Para isso, a equipe técnica da secretaria entendeu que era necessário afirmar um novo paradigma: todo mundo ensina, todo mundo aprende e todo mundo é responsável. Para colocar esse lema em prática, foi construído de forma participativa com gestores, professores, em diálogo com as famílias e das prioridades estabelecidas, o programa “Ninguém em Casa sem Aprender, porque famílias e escolas estão juntas!”. Neste programa, 9 estratégias foram desenvolvidas: escuta das famílias, construção coletiva de atividades que possam ser desenvolvidas em casa, encontros semanais virtuais entre professores e familiares, desenvolvimento de plataforma moodle simples e acessível por celular para acesso às atividades e aos professores, criação de grupos de comunicação (WhatsApp) por turmas e ativação das páginas de Facebook das escolas, disponibilização de materiais impressos, mobilização dos saberes das famílias e comunidades, avaliação e acompanhamento via formulários online e cadastro das famílias no app do programa. Para colocar estas estratégias em ação foram criadas 5 frentes: Mobilização, Plano de Comunicação, Estudando em Casa, Troca de Saberes do Território e Famílias em Rede. Importante dizer que foi prioritário garantir que todos os estudantes estivessem contemplados no programa. Daí que todas as estratégias foram desenhadas garantindo a busca ativa das famílias, o engajamento delas, a criação de conexões entre as famílias para garantir que as informações possam circular e o acompanhamento permanente e personalizado por parte dos professores. 

Tarumã (SP), por sua vez, também se estruturou observando os princípios da Educação Integral. A primeira estratégia foi a busca ativa. Hoje Tarumã tem 100% dos pais e mães nos grupo de Whatsapp, são grupos por sala e todos os professores estão em contato com todos os pais. Os gestores e professores fazem um planejamento coletivo quinzenal por série e por área com foco em português e matemática e atividades voltadas para cultura, corpo, arte, etc… As atividades chegam via plataforma digital, mas também por Whatsapp e outras plataformas. São também impressas para todas as famílias que não têm acesso aos meios digitais. Além disso, eles têm procurado diversificar as linguagens para além dos textos: áudios, vídeos, jogos recreativos, fantoches, atendendo a preocupação de garantir minimamente um desenho universal para a aprendizagem.  A partir daí os professores fazem um acompanhamento personalizado com as famílias e estudantes.  As famílias são grandes aliadas, as atividades são planejadas a partir de recursos que existem nas casas, reconhecendo os saberes das comunidades e fortalecendo as relações comunitárias. Além disso, há uma perspectiva intersetorial. Por exemplo, os agentes de saúde têm ajudado que alguns materiais cheguem a famílias que vivem em lugares mais distantes ou inacessíveis aos professores. E este é apenas um exemplo.

Podemos dizer que estas propostas têm em comum o compromisso em construir estratégias contextualizadas que atendam a todos os estudantes. Sem exceção.

De forma resumida, podemos sistematizar os principais aspectos da seguinte forma:

  1. Objetivos: o foco agora não é transferir a escola para dentro de casa. É manter as crianças em algum contexto de aprendizagem e apoiar as famílias neste momento tão desafiador em vários aspectos, não apenas no trabalho escolar. Isso significa apoia-las a estruturar a rotina dos filhos, a lidar com as questões que surgem e também a colaborar com o processo de aprendizagem dos filhos; 
  2. Busca Ativa: implementação de estratégias colaborativas, encadeadas e em rede para chegar a 100% dos alunos;
  3. Escuta e estreitamento dos vínculos com as famílias: identificação das necessidades das famílias, compreensão profunda em relação as suas condições de vida, hábitos e conhecimentos, estabelecimento de contato permanente com elas; 
  4. Construção do trabalho colaborativo entre professores: longe de materiais prontos, foco na construção coletiva de atividades com base na escuta das famílias, na identificação do que consideram essencial no currículo, da adaptação destes conteúdos a propostas que as famílias possam mediar e/ou que as crianças possam dar conta autonomamente, 
  5. Exploração e uso de diferentes linguagens: vídeos, áudios, desenhos, cards e canais: WhatsApp, FB, Instagram, moodle no celular, materiais impressos, de forma a chegar de diferentes maneiras aos diferentes perfis de estudantes e famílias.
  6. Reconhecimento e articulação dos saberes dos territórios: identificação dos saberes das famílias, valorização dos conhecimentos das famílias e articulação das atividades com estes saberes para que façam sentido no contexto das casas; 
  7. Mobilização social: campanhas para engajamento de outros setores nos programas, envolvimento dos prefeitos e secretários nos canais de comunicação, criação de uma “agenda local” em torno das propostas. 
  8. Intersetorialidade: identificação de parceiros na saúde, na cultura, na assistência para apoio às famílias e estudantes. 

Podemos afirmar com tranquilidade que estas premissas e estratégias constituem os pilares da Educação Integral em qualquer contexto. Tem sido uma luta grande no Brasil afirmar a necessidade de ampliarmos a lente sobre o processo educacional garantindo qualidade pedagógica às políticas publicas. A equação currículo prescrito – avaliações externas – formação de professores – materiais didáticos padronizados não será capaz de garantir uma educação de qualidade para todos os brasileiros. É preciso apostar nos professores como profissionais, apostar na construção de currículos vivos que sejam produto de uma construção coletiva na rede, currículos orientadores do trabalho de todas as escolas, mas que sejam apropriados por cada uma a partir de sua realidade, dos desafios, potenciais e saberes das comunidades e de seus estudantes, em um processo de formação que olha para os estudantes como sujeitos multidimensionais, sociais, históricos e, sobretudo, competentes. Sujeitos capazes de produzir conhecimento a partir da mediação da escola na sua relação com o mundo.

Se Tremembé e Tarumã têm sido capazes de tão rapidamente propor políticas sistêmicas, pactuadas coletivamente e que cheguem a todos os estudantes, é porque vêm zelando, não é de hoje, por estes princípios nas suas políticas curriculares, de avaliação e monitoramento e de formação de professores.

Nos mais diferentes aspectos e campos, filósofos, economistas, ambientalistas, sanitaristas, cientistas e tantos outros profissionais vem afirmando que o coronavírus mudará nossas vidas de forma irremediável. De fato, os limites impostos por esta nova realidade têm nos apresentado possibilidades inegáveis de transformação. Que possamos diante disso escapar as armadilhas que nos levam a repetir fórmulas fracassadas, que despersonalizam os processos educativos, que massificam e padronizam uma atividade que depende inexoravelmente de vínculo e pertinência. Que possamos, no lugar disso, ressignificar o papel de nossas escolas colocando o processo educativo a serviço da vida. Isso sim garantirá o aprendizado de todos e todas. E nos levará a formação de pessoas capazes de nos conduzir a uma nova era, tão necessária não mais apenas à dignidade humana, mas à sua própria sobrevivência.

Natacha Costa

Abril.2020


[1] Dados da Síntese de Indicadores Sociais, IBGE, 2019

[2] Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2018, do Cetic Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação.

[3] https://educacaointegral.org.br/quem-somos/

[4] ANDRADE, Julia Pinheiro; COSTA, Natacha; WEFFORT, Helena Freire. Currículo e Educação Integral na Prática: uma referência para estados e municípios. Caderno 1 e 2. In: Plataforma-Metodologia de Currículo para a Educação Integral. São Paulo: Centro de Referências em Educação

[5]Integral/British Council, 2019. Disponível em: http://educacaointegral.org.br/curriculo-na-educacao-integral

A escola na luta pela democracia

– ou Manifesto Antissectário para acalmar corações

A escola pública é um microcosmo da sociedade: nela convivem pessoas com histórias de vida e formações acadêmicas e politicas distintas. Por esse motivo não existem escolas iguais – porque são feitas por seres humanos únicos e em constante processo de transformação. 

A escola é também – ou deveria ser – um lugar de formação integral dos sujeitos no exercício de sua cidadania. E isso é algo que não pode se dar fora da democracia. Quero dizer que não basta anunciarmos em nossos discursos e documentos pedagógicos que a escola deve ser um espaço democrático…  aliás, nunca ouvi ninguém defender que a escola seja um espaço de autoritarismo e que os estudantes não devam ser protagonistas do processo educacional. Mas o desafio de construirmos uma escola verdadeiramente democrática segue a todo vapor. Então precisamos encontrar meios de efetivar essa concepção.

É importante  lembrarmos que essa ideia de escola pública, entendida como direito fundamental de cada cidadão brasileiro, é uma conquista social que remonta aos anos 30 do século passado – me refiro aqui ao legado de Anísio Teixeira e seus conterrâneos representantes do Movimento da Escola Nova – e que ao longo da nossa história encontrou maior ou menor condição de se realizar. Quase sempre menor condição. Mas pensemos nos avanços: a Constituição de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Plano Nacional de Educação, o FUNDEB… legislações que  reforçam a concepção de gestão democrática, de autonomia escolar e de protagonismo dos estudantes, porque concebidas em momentos em que a soberania popular vencia a disputa com frentes conservadoras e autoritárias. Então, se olharmos em perspectiva, veremos que a luta pela construção de um projeto de país que tem a educação como eixo condutor de seu progresso nunca deixou de existir. E veremos também que ela floresceu mais em momentos em que a nossa democracia também florescia.  

Entendermos essa dinâmica nos ajuda a pensarmos nesse nosso momento, em que há um profundo mal estar instalado em todos os setores da sociedade brasileira, e em especial nas nossas escolas. O que esse mal estar revela é a fragilidade da nossa democracia.

Em tempos de polarização política isso fica evidente. Imagino que mais pessoas comunguem comigo desse sentimento de perplexidade diante da impossibilidade de diálogo entre divergentes. Há quem nomeie esse processo de neofascismo. Pode ser que seja. Mas fico aqui com a nomenclatura perplexidade, simplesmente porque há uma profunda incoerência em não vermos nas escolas a construção de um debate profundo sobre o nosso país. Não seria a escola o melhor lugar para fazê-lo?

Entretanto, no lugar do debate vemos rupturas onde antes parecia haver entendimento. Nos últimos anos as divergências transformaram parentes, amigos de infância  e colegas de trabalho em inimigos. Onde esquecemos a tolerância? Ela existiu no passado ou apenas enterramos nossos fantasmas para não termos de lidar com eles? Quem nunca ouviu na escola que política, religião e futebol não se discute? Por que crescemos ouvindo isso? Parece que “o país do futuro” formado por “um povo cordial” não existe mais… temos entendido que na verdade nunca existiu. O que faremos?

O fato é que em algum lugar desse caminho deixamos de acreditar que podemos aprender com aquele que é diferente de nós. Precisamos conversar sobre a imperiosa necessidade de revertermos essa condição.

É preciso olharmos o copo meio cheio, meio vazio. Podemos procurar pontos de convergência nessa busca por uma integralidade, que nos aproxime de um ambiente em que seja possível a experiência democrática? Se entendermos que a escola é a instituição pública de maior capilaridade no nosso país e o lugar onde a maior parte da população nos confia o que tem de mais precioso – a formação de seus filhos – ampliamos a compreensão sobre a nossa responsabilidade enquanto servidores públicos. Isso nos aproxima. Mas não basta. Precisamos ainda entender que nosso maior ponto de convergência é o fato de sermos todos aprendizes dessa nossa condição de servidores públicos a serviço da democracia.

Na escola podem e devem conviver socialistas e liberais, religiosos e ateus. E esse convívio se dará com respeito na medida em que qualificarmos os espaços de formação política de todos e de cada um. Se a escola for um lugar de análise da realidade e da construção de argumentos e pesquisas, ela será também um território de expressão e, quiçá, de proposição de outras realidades. Divergências sobre como chegar lá são parte do processo. Devem ser encaradas como oportunidades de ampliarmos nossa capacidade de escuta e tolerância. De sermos mais.

E já que “freireei” acima, termino com um trechinho de uma entrevista que o mestre deu para o colega Gadotti em 1993, quando ainda vivia entre nós:

“Eu tenho a necessidade de compreender um diferente de mim, se eu quiser crescer. (…) No fundo, a minha briga não é contra os outros, é contra mim mesmo, no sentido de não me permitir cair na sectarização. E a sectarização é a negação do outro, é a negação do contrário, é a negação do diferente, é a negação do mundo, é a negação da vida. Quer dizer, ninguém pode continuar vivo se sectariza. Veja como o stalinismo era a antivida, como o nazismo é antivida. E a democracia só se autentica quando é vida.”

Marília De Santis

Ô motorista, pode correr

A 6ª F não tem medo de morrer!

Cancioneiro Popular* – 

*Canção que é velha conhecida de muitos(as) professores(as) que já levaram, em ônibus fretados, estudantes da 6ª F  em passeios, estudos do meio e afins.

Quero começar com uma confissão: sempre tive preferência por aqueles(as) estudantes conhecidos como bagunceiros(as). E, não, não é porque eu fui uma estudante bagunceira, quer dizer, não sei… Teria que perguntar para os meus professores e as minhas professoras. Mas deixo claro que essa preferência não é uma identificação narcisista, pois me sinto muito menos desobediente do que acho que devia ser, tendo em vista o mundo em que vivemos. Além disso, muitas vezes, os ossos do ofício me exigem que nos momentos de subversão dos tais bagunceiros eu dê uma bronca neles. Mas por dentro… Ah! Por dentro o que eu sinto é uma espécie de fascinação. Na verdade eu admiro os bagunceiros e as bagunceiras! Acho-os(as) inteligentes, sagazes e muitas vezes bem humorados(as).

Mas não foi esse sentimento de fascinação que me levou a escrever este texto e fazer essa confissão pública. Foi um acontecimento singelo que me causou um enorme estranhamento.

Há uns anos participei de um debate com estudantes do Ensino Médio, cujo tema era “Os jovens são mesmo desinteressados?”. Na dinâmica do evento o público se colocava, perguntava, comentava, cada um dos componentes da mesa respondia e assim ia se dando a conversa. 

Tudo corria muito bem. Mas em determinado momento uma professora fez um desabafo, bastante comum entre educadores e educadoras, no qual ela dizia que apesar de fazer muitas tentativas de motivar os seus estudantes (que por coincidência eram da 6ª série – risos), não obtinha mais tanto sucesso como antigamente. Demonstrou muita angústia ao dizer que não conseguia mais dar aulas, que os seus estudantes não a escutavam, apesar de ela ser uma boa professora.

Até aí, nada de muito novo. O que me impressionou foi a imediata resposta de um dos rapazes de 16 anos com quem eu dividia o palco: “As pessoas têm de entender que a punição educa”. Essa frase ressoa no meu imaginário até hoje, porque me pareceu tão absurdo um aluno defender isso! Ainda mais adolescente! Foi aí que percebi que eu prefiro mesmo os(as) bagunceiros(as).

Mas foi maravilhoso porque me fez pensar em muitas coisas, além de servir de inspiração para o título desse texto, como o leitor mais atento já pôde notar. A partir da frase do rapaz, acabei por me propor a entender melhor porque prefiro os bagunceiros e as bagunceiras.

De certa maneira, há no imaginário coletivo uma ideia de que a submissão do estudante à estrutura escolar se dá pelo medo das sanções que fazem parte dessa mesma estrutura. Obviamente que esta ideia – de que o senso comum acredita que a (boa) educação está também ligada ao medo da punição – carece ainda de verificação. Neste texto, portanto, essa afirmação não é nada mais do que uma hipótese baseada em conversas informais em ubers, botequins e, principalmente, salas de professores por aí.

No entanto, algumas frases que ouvi inspiraram a elaboração dessa hipótese. Frases como: “depois que inventaram o Estatuto da Criança e do Adolescente ninguém mais respeita o professor”, “os alunos de hoje em dia não querem saber de nenhuma autoridade, na minha época se eu falasse uma coisa como essa eu apanhava!”, “ai que saudade da palmatória!”, “manda ele para a sala do diretor!”, “você não é capaz de controlar os seus alunos”, “eles não fazem nada porque ninguém mais repete de ano”.

É importante destacar que as falas acima foram ditas em contextos de respostas a questionamentos e angústias, cujo conteúdo se referia, na maioria dos casos, a uma sensação de falta de respeito na relação entre educador e estudante. Por isso não se trata aqui de minimizar essa angústia, que é real, e desanima muitos educadores e educadoras empenhados em fazer uma educação que faça sentido aos estudantes. Proponho problematizar essa ideia que, talvez, o senso comum aponte como solução.

A princípio parece-me que por trás das frases apontadas acima, há uma explicação sobre a causa do problema: os alunos não se submetem mais às ordens e, nesse sentido, são violentos. No entanto, o rapaz de 16 anos, até mesmo por ser ainda um rapaz, propõe um pequeno deslocamento, isto é, coloca a questão não no(a) estudante – que não se submete – , mas sim no adulto, incapaz de exercer as sanções que poderiam recolocá-lo(a) na posição de autoridade. É mais ou menos como se o menino nos dissesse: “por favor, nos punam, para que possamos obedecê-los!”.

Concluiríamos então que os(as) estudantes não se submetem mais à autoridade porque são violentos e não têm medo dela. E, assim, porque não há mais o medo da punição, não há também educação. Desse modo, é possível que estejamos diante de um problema relacionado ao que entendemos socialmente por autoridade. 

No dicionário Michaelis on line a palavra autoridade tem nove diferentes significados que definem o termo de maneiras diversas. Destaco a primeira delas: “Direito ou poder de mandar, de ordenar, de decidir, de se fazer obedecer”. Partindo daí e, em termos gerais, poderíamos definir “autoridade” como a base de uma relação que pressupõe um que manda e um que obedece.

Pensando junto com Yves de La Taille, poderíamos acrescentar a essa definição: “Diz-se de alguém que ele tem autoridade quando seus enunciados e suas ordens são considerados legítimos por parte de quem ouve e obedece.” (La Taille, 1999, Pg. 10. Grifo Nosso). Para o autor, a relação de autoridade só se estabelece verdadeiramente se quem manda não o faz através do uso da força, e se há uma relação hierárquica considerada legítima por ambos os lados dessa hierarquia. Isso pressupõe que a obediência à autoridade é voluntária. 

Encontramos, assim, um primeiro contraponto importante à ideia de que nos submetemos à autoridade porque temos medo. A obediência tem um componente voluntário por parte de quem obedece, diria mais, um componente da liberdade do “obedecedor”.

Vamos adiante. Vou trazer um outro autor para nos ajudar na reflexão: Julio Groppa Aquino. Ele defende a escola como uma instituição, isto é, como um conjunto de relações e/ou práticas sociais específicas a ela, que não são meras repetições do que acontece do lado de fora. Assim, a escola produz algo novo. E o que seria isso? Para Groppa, os sujeitos da escola são pensados a partir de seu lugar institucional, no qual cada sujeito existe de uma maneira específica, se posicionando em relação a este lugar. Então, um dos vetores que constituem a dinâmica escolar, e especialmente a ação do professor, tem um teor “normativo/confrontativo”. A escola homogeneíza os corpos, disciplinando-os através de diversos mecanismos, exercendo sobre eles um poder normatizador. 

Ainda assim, esses corpos também resistem a essas imposições disciplinadoras. Desse modo, a escola é, inevitavelmente, um lugar de alta tensão entre o exercício do poder e a sua resistência. Ao exercer o seu papel na instituição o professor ensina a obedecer, mas ensina também, indiretamente, a resistir. 

Retomando… A autoridade pressupõe alguém que manda e alguém que voluntariamente obedece, exercendo sua liberdade. Além disso, poderíamos acrescentar que aquele que manda, no contexto da escola, além de produzir obediência, também produz resistência (desobediência?). E, assim, arrisco já a dizer, produz também mais liberdade, ainda que de forma relativa. 

Gente, tô pensando aqui agora: acho que não tem escapatória, viu? Nós, professores e professoras, estamos fadados para sempre a viver no limiar entre sermos obedecidos e sermos desobedecidos, porque é esse movimento que produz aprendizagem, crescimento e, em última instância, liberdade. É uma visão bem otimista, mas prefiro assim. Então, caro(a) colega, se você está produzindo desobediências é possível que você esteja indo pelo caminho certo, ainda que obviamente ele não seja o suficiente. 

Meu Deus do céu… Tô imaginando aqui que qualquer educador ou educadora sério que esteja lendo esse texto deva estar me xingando agora. Vixi, as equipes gestoras então, não quero nem pensar… Não vou comentar sobre pais, mães ou responsáveis… Vão me deixar as orelhas vermelhas. 

Mesmo assim, vou correr esse risco e terminar por aqui, porque pretendo continuar essas reflexões nos próximos textos. É evidente que elas não se esgotam nessas provocadoras linhas que vos entrego.

Mas enquanto isso, por favor, fiquem à vontade para comentar, questionar, discordar, sugerir, criticar, desobedecer-me, enfim…

Laila Sala

Referências Bibliográficas

AQUINO, Júlio Groppa. A violência escolar e a crise da autoridade docente. Cadernos Cedes, ano XIX, Nº47, dezembro/98. Pg. 7-19

____________________ (org.). Autoridade e autonomia na escola – Alternativas práticas e teóricas. São Paulo: Summus, 1999.

http://michaelis.uol.com.br/busca?id=1OQQ, consultado em 06/02/2020

Educação em tempos de pandemia

Caro(a) leitor(a),

Escrevo esse texto em agosto de 2020. Neste momento estamos mergulhados em uma crise sanitária, econômica, ética, ambiental e política que parece não ter fim. Nosso padrão de normalidade, relacionado com sentimentos de segurança e sobrevivência, foi profundamente abalado. Além de enfrentarmos uma pandemia sem precedentes para a nossa geração, temos assistido sem muita resistência ao aprofundamento de um projeto de poder baseado na negação da ciência e na propagação de falsas notícias. Estamos também imersos num cenário de polarização política, o que agrava a crise e impede uma reflexão sincera sobre proposições que nos tirem desse caos.

Diante desse quadro nada confortável, pergunto a vocês: o que é possível aprender e ensinar?

Está claro que os impactos da pandemia já nos trouxeram mudanças significativas e que precisamos trabalhar a partir da urgência que se impõe, encarando as nossas incertezas e enfrentando radicalmente as desigualdades que já existiam e que agora se agravam.

Por um lado, parece haver uma aceleração da História e a percepção de que mudanças que já estavam em curso se materializam em pouco tempo, assim como acontece em períodos de guerras e revoluções. Quando as escolas foram fechadas aqui no Brasil, no mês de março, ainda não sabíamos o quanto esse distanciamento iria durar, e desde então fomos descobrindo que estamos muito sós e despreparados para lidar com formas alternativas de realizar a educação.

As inúmeras dificuldades que se apresentam a nós, nesse tempo de distanciamento social, deixaram ainda mais claro que para grande parte das instituições escolares o modelo de escola vigente é aquela ainda do século XIX, em que o professor exerce o papel de transmissor de conteúdos, isolado em seu campo disciplinar, e o aluno tem pouco ou nenhum protagonismo no processo de ensino e aprendizagem. Agora estamos sendo obrigados a olhar para essa realidade e podemos aproveitá-la para realizar mudanças que já deveriam ter acontecido.

O primeiro passo talvez seja compreender que a educação é um processo cultural complexo pelo qual podemos nos formar para manter ou modificar as coisas que acontecem no mundo. Essa decisão define o nosso grau de felicidade ou infelicidade, e isso pode parecer óbvio, mas não é. Muitas vezes nos perdemos em reflexões que não consideram o nosso bem estar, e uma das coisas que essa pandemia tem nos revelado é que somos seres sociais, que precisamos do convívio e das relações interpessoais para aprendermos a viver melhor. 

Estamos sacudidos, não paramos de trabalhar, as escolas estão fechadas para os estudantes, mas as aulas seguem. Fazem sentido? O que importa aprender agora? O que temos a ensinar? Aquele currículo que vivíamos antes da pandemia dialoga com essa nova realidade? Ele dialogava com a realidade antes?  Imagino que essas questões estejam ecoando como nunca em seus corações, diante da angústia de vermos as nossas velhas práticas docentes impossibilitadas pelo distanciamento social tão necessário neste momento.

É possível então desejar e começar a construir um futuro alternativo?

Essa necessidade de mudança pode ser algo profundamente traumático e assustador, porque a ideia de mudança traz a possibilidade de que não seremos incluídos. Mas a educação é esse processo de entender a si e ao mundo, para uma adaptação ou transformação, a depender das circunstâncias.

Num futuro alternativo, será fundamental pensar a integralidade das pessoas, em seus aspectos mentais e físicos. A escola precisa cumprir o seu programa curricular, contextualizando e articulando o conteúdo com a realidade que se impõe. A nossa preocupação deve continuar sendo com o desenvolvimento das competências socioemocionais dos nossos estudantes, e com sua formação cidadã. Mas precisaremos ser de fato mediadores entre o mundo e os estudantes, e isso implica em nos aprofundarmos nas questões urgentes do nosso tempo. Precisaremos discutir a vida nas cidades e nossos hábitos de consumo, o mundo do trabalho, a relação entre as questões ambientais e as pandemias, o racismo estrutural, a desigualdade entre os gêneros, o papel do Estado, as diversas formas de violência, entre outras questões. Precisaremos também encontrar meios de nos incluirmos nessa nova cultura tecnológica que se desenvolve.

A atual pandemia tem um ciclo previsível no tempo, mas ela certamente nos deixará consequências devastadoras. Ela escancarou problemas muito sérios, para os quais não existe uma vacina. E eis então o nosso real papel histórico: educar para uma nova consciência planetária, a partir de uma nova ética de responsabilidade para com o futuro. Algo que só poderemos viver se tivermos esperança e diálogo. Por isso escrevi esse texto. E outros virão. 

Até breve! 

Marília De Santis