OBSERVAÇÃO: Esse texto é uma adaptação da resenha escrita como parte das exigências para a conclusão do 1º semestre do Curso Livre de Formação em Psicanálise da Sociedade Paulista de Psicanálise. Foi escrito a partir da leitura da troca de correspondência entre Sigmund Freud e Albert Einstein em 1932, estimulada pela recém criada Liga das Nações e seu Instituto Internacional de Cooperação Intelectual, cujo objetivo era fomentar a colaboração entre intelectuais de diferentes culturas e nacionalidades, para a manutenção da paz, através de várias ações como a publicação dessas cartas (VENTURA e SEITENFUS, 2005). Desde 1922 Einstein participava dos trabalhos intelectuais da Liga das Nações e, frente ao iminente fracasso da instituição, propôs a Freud a reflexão sobre os impulsos individuais que levam à guerra, perguntando também sobre os impulsos dos que têm o poder de decidir sobre os destinos das nações. Assim, ele pergunta a Freud se “(…) existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?” (EINSTEIN, 2005, p.21), complementando no final: há alguma forma de tornar os seres humanos imunes às “(…) psicoses do ódio e da destrutividade (…)?” (Idem, 2005, p.25). Ambas cartas são de domínio público e podem ser encontradas na internet (ver Referências Bibliográficas).

São Paulo, 8 de novembro de 2022

Caros professores Albert Einstein e Sigmund Freud,

Peço licença para participar da conversa dos senhores. Sei que é um pedido um tanto estranho, principalmente porque os senhores estão mortos. Resolvi escrever mesmo assim, pois as teorizações que fizeram a respeito da guerra, me levaram a aprimorar o meu próprio pensamento, que coloquei em diálogo com outros intelectuais também. É um assunto que me angustia, incomoda, indigna, profundamente. 

Agora, cá entre nós, não é uma coisa maravilhosa eu poder usar palavras para escrever uma carta sobre um assunto que me desespera para pessoas que já morreram? Isso me assombra também, mas de um jeito bom.

Refletir sobre a morte, penso eu, não é possível sem refletir de algum modo sobre o tempo. O Caetano Veloso, um cantor aqui do Brasil (aliás, sou brasileira!) escreveu uma canção sobre isso, falando de uma forma que eu não poderia dizer melhor, a canção se chama Oração ao Tempo (1979), e tem uma parte que é assim: 

Vocês podem ouvir a canção clicando aqui também e ouvir enquanto leem, se tiverem internet aí onde estão:

Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso (…)/ De modo que o meu espírito ganhe um brilho definido/ Tempo tempo tempo tempo, e eu espalhe benefícios…/(…) E quando eu tiver saído para fora do teu círculo,/ Tempo tempo tempo tempo, não serei nem terás sido… /(…) Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos,/Tempo tempo tempo tempo, num outro nível de vínculo… (VELOSO, 1979)

Acredito também no que Caetano diz: ser possível entrar em um outro vínculo com o tempo, mesmo depois de ter saído do seu ciclo. E possivelmente as cartas, como a arte, a educação e outras coisas tantas, também sejam uma forma de criar esse vínculo. Eu amo escrever cartas! Mesmo elas tendo se tornado anacrônicas. Na verdade, é bem por isso que sempre que eu tenho a mais remota chance, escrevo uma carta. Eu sempre fui meio desobediente.

Além do mais, acho que há uma coisa muito interessante nas cartas. Elas dão uma embolada na noção do tempo como cronologia, se é que é possível pensar no tempo de outra forma. Mas vejam bem (ainda que eu não saiba se os senhores mantiveram os olhos intactos): medido no tempo do relógio o “agora” em que escrevo é um, mas o “agora” em que alguém lê é outro. Ainda assim, há uma partilha de “agoras”. Que reviravolta interessante! Penso, por isso, que as cartas podem ser um jeitinho faceiro que a humanidade inventou de enganar a morte. Então também gosto de escrever cartas por isso.

Eu li outro dia o texto de um filósofo da educação contemporâneo, chamado Jorge Larrosa, em que ele escreveu sobre cartas. O texto chama Carta aos leitores que vão nascer (S/D), aliás, esse título foi inspirado numa carta de Bertolt Brecht e, como talvez os senhores tenham notado, de certa forma inspirou o meu título. O Larrosa diz que nas cartas, nos livros, nas conversas dos velhos e em outros dispositivos, se fundem e confundem os tempos: “neles também se sai do tempo ou se entra em outro tempo; neles também algo passa, ou se envia, através do tempo.” (LARROSA, s/d, p. 1). Então pensei que seria possível eu, que algum dia vou morrer, escrever para os senhores, que já estão mortos.

O Larrosa também escreve que o tempo só existe em um espaço – o que talvez torne possível eu escrever para os senhores sem ter um endereço certeiro. Essa duração do espaço, diz o Larrosa, não pode ser pensada sem que se pense também na finitude humana, por isso há algo mais nessa duração, além da morte: o nascimento, quer dizer, pensar na finitude humana faz pensar nos finais, mas também nos começos. Parafraseando o Larrosa: as cartas estão cheias de um passado mortal e ao mesmo tempo abertas a um porvir que tem a forma do nascimento (LARROSA, S/D, p. 2).

Fiz essa pausa para que os senhores possam dar uma respirada, beber uma água, ir ao banheiro (os senhores sentem necessidades fisiológicas aí?)… E também porque quero mudar de assunto, pelo menos aparentemente. Sabem, eu sou educadora. E isso é algo muito importante na minha própria constituição, as reflexões que faço em razão desse ofício também se juntaram às reflexões sobre a morte e o nascimento. Vou tentar me explicar melhor já, já. Mas antes preciso falar de outra coisa, que acabou de acontecer aqui no meu tempo que, talvez, os senhores não saibam (não sei se conseguem ver o que acontece aqui na Terra).

Foi uma coisa inacreditável e assustadora: em 2020 tudo virou de cabeça para baixo. Não que as coisas estivessem muito bem antes disso, mas é que nesse ano um vírus chamado Corona colocou o mundo inteiro em estado de pandemia. E para nos protegermos tivemos que ficar em casa por quase dois anos, pelo menos as pessoas que puderam, né? A vida estava (está!) urgente! E muitas pessoas não puderam se proteger porque tiveram de sair de casa, mesmo em meio ao perigo da doença, para ter o que comer. É que as desigualdades sociais, que já eram gritantes, se aprofundaram. 

Além disso, a volta de uma política autoritária no Brasil, e em alguns outros lugares do mundo, encontrou ainda mais espaço. Dizendo melhor, essa é uma política fascista, penso que essa palavra dá aos senhores uma ideia melhor das consequências disso para a vida das pessoas, pois já viveram algo parecido.

E nesses dois anos quem pôde ficar em casa olhou pela janela e o que encontrou foi desespero: negros e negras sendo sufocados até a morte, pulando da janela para fugir de senzalas contemporâneas, às vezes porque era a única forma de escapar, às vezes por negligência; florestas e animais queimando vivos; crianças sendo tiradas de suas mães por causa da intolerância religiosa; índices de feminicídio e outras violências contra mulheres e crianças aumentando; direitos conquistados pelas/os trabalhadoras/es sendo tratados como privilégios; empresas estatais vendidas a preço de banana; presidentes ameaçando cotidianamente o estado democrático de direito; pessoas voltando a passar fome; conhecimentos científicos negligenciados…

Até que finalmente vieram as vacinas, permitindo que aos poucos saíssemos de casa, mas ainda assim o desalento continuou: corrupção na compra de vacinas – aquelas capazes de salvar a maioria das vidas de quase 700 mil pessoas. Isso mesmo que os senhores leram: 700 MIL VIDAS encerradas só aqui no Brasil, por um governo negacionista e corrupto. Não há brasileiro hoje que não conheça alguém que morreu de Covid. Todos nós, crianças, jovens, adultos e velhos tivemos contato com a morte. E o que pode uma educadora diante desse quadro?

Tivemos, como sempre, que trocar o pneu do carro enquanto ele estava andando, ou melhor, enquanto ele estava no meio do olho do furacão! E eu me perguntava: o que pode a educação, basicamente um exercício de reflexão, quando nossa vontade de vida e a urgência do cotidiano nos impele à ação?

Minhas palavras silenciaram. E com isso também a minha ação. Pela primeira vez me peguei sem saber o que dizer aos estudantes, diante de tanta morte nada fazia sentido. A minha sensação era de que eu não tinha nada a ensinar.

Respirei e voltei a estudar, que para mim é uma forma de conversar, como estou fazendo com os senhores. Venho descobrindo que a teoria também pode ser cura e, nesse sentido, começo a recuperar a voz das minhas palavras. Mas essa “teoria que cura” só se realiza de fato dentro de uma ética, não é natural, ela nos faz humanos e nos lembra constantemente da humanidade dos outros.

Por conta desse momento de respiro e estudo, essa carta não tem só a minha voz, tem a voz de muitos outros e outras que vieram antes de mim. E essas outras vozes vêm me ajudando a me traduzir. O Larrosa é uma delas. Ele escreveu a carta de que falei ali em cima bem antes da pandemia, no entanto ele disse algo sobre a escrita em tempos de crise que eu quero mostrar ao senhores, pois penso que diz sobre o que estamos vivendo neste tempo pós-pandemia:

Eu te direi, em primeiro lugar, que esta carta que hoje e aqui te escrevo está sendo escrita em um tempo de crise, de incerteza, de transição (…) no qual, diferentemente de outros tempos, é muito difícil nos orientarmos: como se tivéssemos perdido o sentido do tempo. (…) Eu te direi, então, que o tempo humano, meu tempo, o tempo no qual te escrevo esta carta, está dividido entre o não mais e o ainda não, (…)  no qual tudo o que tem sentido se desvanece perante nossos olhos, e no qual o que nasce, o que se anuncia, o que vem não compreendemos.” (LARROSA, s/d, p. 7)

É possível que estas minhas palavras em silêncio tenham a ver com isso, sabe? Algo que está morrendo perante meus olhos, ao mesmo tempo em que o que nasce é incompreensível. Para o bem e para o mal.

Outra pausa. A propósito dessa “briga” entre o que morre e o que nasce (não sei se “briga” é a palavra mais adequada, mas é a que eu tenho no momento), quero fazer breves considerações sobre educação. Algumas das coisas que eu vou dizer para os senhores são coisas que eu aprendi bem antes de ficar com as palavras em silêncio, e elas foram suficientes durante um bom tempo. Mas talvez não sejam mais e isso de alguma forma seja uma morte, não sei bem do quê. Vou dar umas voltas aqui pra ver se eu consigo alguma coisa…

Acho curiosa a etimologia das palavras “pedagogia” e “pedagogo”, elas vêm do grego antigo e significam respectivamente: o ato de conduzir e o escravo que conduzia as crianças ao seu local de estudo. Penso que ainda hoje seja possível dizer, metaforicamente, que a pedagogia é um ato de condução das crianças liderados por um pedagogo ou pedagoga. Mas, diante de tanto estupefamento (nem sei se essa palavra existe), para onde devo conduzir as crianças?

Disse antes para os senhores que essa carta está sendo escrita também a partir de outras vozes, uma delas é a de Walter Benjamin, talvez os senhores tenham até o conhecido, ele morreu em 1940 tentando fugir dos nazistas (era judeu), não se sabe exatamente o que ocorreu, mas parece que ele se suicidou na eminência de ser capturado.

O Benjamin tem um pequeno artigo chamado Pedagogia Comunista (2002) no qual ele afirma que a pedagogia do início do século XX, que ele chama de burguesa, gira em torno de dois pólos: o da psicologia, isto é, da investigação acerca do funcionamento da mente humana e da sua predisposição natural a aprender. E o pólo da ética, que configura a meta mesma da educação, ou seja, a formação do homem ou mulher ideais. Ele escreve: “A pedagogia oficial é o processo de adaptação mútua entre esses dois momentos – a predisposição natural e o ideal quimérico (…)” (BENJAMIN, 2002, p. 121).

Esse ideal quimérico, no entanto, não é neutro, uma vez que se dirige à formação de um tipo determinado de sujeito, ainda que apenas ideal. Isso significa dizer que a pedagogia tem um projeto, uma intenção, ligados a um determinado contexto histórico, que por sua vez é permeado por concepções políticas, morais e éticas acerca do que é ser humano, ainda que nem sempre essas concepções estejam explícitas nos projetos educacionais.

Tomemos o exemplo da Paideia de Platão. Para o filósofo, a Paideia é a formação ideal, justa, e que por sua vez serve à construção de uma cidade também justa, na qual há o estabelecimento de uma ordem comum e racional.

Fui ler outra filósofa contemporânea minha, a Marilena Chauí, para entender melhor isso e ela explica o seguinte: durante o período socrático na Grécia Antiga se desenvolveram as cidades e surgiu a figura do Cidadão. Por isso, uma profunda mudança é operada na educação grega, o ideal passa a ser a formação dessa figura cidadã, cuja maior virtude cívica é a “areté”, ou “a coragem de dizer a verdade”, baseada na crença da clareza da razão. Seria tarefa dos mais “bem dotados” de razão governarem a cidade e a Paideia é a formação para esse bom governo. 

O famoso mito da caverna de Platão oferece uma metáfora dos princípios que devem reger esse governo, isto é, os futuros governantes devem elevar-se através da razão (livrando-se das sombras da caverna), contemplar o Bem e a Verdade (a luz) e voltar às sombras. A essência ética das leis e do governo, explica Chauí, deve ser a de garantir a felicidade de toda a cidade.

Poderíamos concluir, então, usando como base a definição de Benjamin (apesar dele estar se referindo a outra pedagogia) que a Paideia tem aqueles dois aspectos que se juntam. A racionalidade dos governantes leva à realização da felicidade de toda a cidade, essa racionalidade tem como base a “coragem de dizer a verdade”, esta última, por sua vez, se baseia no ensino dos procedimentos que garantam que ela seja encontrada, através da filosofia que é a capacidade do pensamento de traçar seus próprios caminhos, meios, critérios etc. Ou seja, a filosofia é a pedagogia para a verdade – que é a finalidade ética dos governantes.

Eu acho bonita essa coisa da Paideia, mas ela não resolveu meu problema, porque muitas coisas aconteceram de Platão até aqui. Uma delas veio das ideias do senhor, Prof. Einstein, que revirou as concepções de tempo e espaço na física. Outra veio das formulações do senhor, Prof. Freud, que descobriu o inconsciente. Dois grandes exemplos de pauladas que a arrogância humana levou bem no meio da cabeça. A existência do inconsciente nos fez pôr em xeque inclusive a ideia de razão e poderíamos dizer, talvez um tanto apressadamente, que põe em xeque a própria ideia de verdade.

Continuando nessa toada, tanto em sua carta, Prof. Einstein, quanto na sua, Prof. Freud, os senhores dizem coisas ligadas à questão da educação, pelo menos indiretamente. O Prof. Freud, por exemplo, ao se referir à Liga das Nações, fala, no fundo, dessas formas de colocar em prática um projeto – um ideal de cidade feliz, ou de felicidade – que deve servir para todos. Isto me faz pensar que há algo de pedagógico na política. E que há algo de inconsciente também. O Prof. Freud diz

[A LIGA DAS NAÇÕES] É a tentativa de conquistar, mediante a invocação de certas atitudes ideais, a autoridade – isto é, a influência coercitiva – que ordinariamente se baseia na nossa na posse da força. Vimos que duas coisas mantêm uma comunidade: a coação da violência e as ligações afetivas – identificações é o termo técnico – entre os seus membros. Se falta um desses fatores, possivelmente o outro pode manter de pé a comunidade. Naturalmente, aquelas ideias têm significado apenas se dão expressão a importantes coisas em comum entre os membros. Pergunta-se, então, que força elas podem ter. (…) E não existe, em nosso tempo, uma ideia a que possamos atribuir uma autoridade unificadora desse tipo. É evidente que os ideais nacionais que hoje vigoram entre os povos têm efeito contrário. (…) Assim, parece mesmo que a tentativa de substituir o poder real pelo poder das ideias ainda se acha condenado ao fracasso. É um erro de cálculo não considerar que originalmente o direito era força bruta e que ainda hoje não pode prescindir do amparo da força. (FREUD, 2010, p. 243. Grifo Nosso)

Senhores, preciso contar que estou só há alguns meses estudando psicanálise, isso significa que há muitas perguntas que eu tenho que talvez já tenham sido respondidas (pelo menos é a minha aposta) e também que há muitas perguntas que eu nem consigo formular ainda, por falta de conhecimento… Fiz essa pequena ressalva, pois quero tentar compartilhar algumas dessas perguntas com os senhores.

Os trechos que grifei da citação acima se relacionam mais ou menos com uma parte dessas questões, cujo tema é “autoridade”. Exercer autoridade parece ser uma tarefa fundamental, mais do que isso, imperativa, para o exercício da função de educador. Pelo menos é como chega a mim uma certa exigência social que às vezes é explícita, às vezes não. Quando eu digo em conversas informais que eu sou educadora, por exemplo, é muito comum eu ouvir coisas como “ah! Coitada de você! Os alunos hoje em dia são terríveis, né? No meu tempo a gente respeitava os professores!” e outras coisas do tipo.

Eu me lembro de algumas vezes em que senti exercer o papel de autoridade na sala de aula, aliás, nem sempre isso coincidiu com me sentir “respeitada”, mas deixa isso pra lá… O que importa agora é que ainda hoje não sei muito bem o que fez eu me tornar autoridade e, o que me assombra mais, não sei quais as consequências que esse exercício teve na formação dos meus alunos, quer dizer, não sei o que os meus alunos aprenderam com isso.

Vejam senhores a confusão: sendo educadora (ou “pedagoga”) devo conduzir a predisposição natural de meus alunos a aprender para a formação de uma pessoa a partir de um ideal, ético. Para exercer essa condução eu devo ser uma autoridade, isto é, por meio de uma “influência coercitiva” fazê-los aceitar essa condução. Mas há uma outra coisa: de certa forma, a sala de aula não deixa de ser uma pequena comunidade, formada tanto por essa influência coercitiva, quanto pelas identificações entre seus membros. Segundo o que eu pude compreender do que o Prof. Freud escreveu em sua carta há, na formação da civilização, uma espécie de transformação da força bruta da autoridade em direção ao direito e que, pelo menos idealmente, seria coercitivo por si só, mas com a condição de que essa ideia dê “expressão a importantes coisas em comum” entre os membros da comunidade. E eu pergunto: Qual o papel da educação frente a isso?

O Prof. Freud também diz, se referindo ao seu próprio tempo, que não existe uma ideia a que se possa atribuir uma autoridade unificadora. Penso que possivelmente no meu tempo também não. Além disso, o prof. Freud defende que é um erro de cálculo não considerar que todos esses ideais de ser humano que ligam uma comunidade, têm como origem a força bruta e que não podemos prescindir dela. E eu pergunto: será que hoje também não podemos prescindir da coerção da força bruta?

E mais outras perguntas me vêm à cabeça: nas vezes em que fui autoridade na sala de aula, o fiz porque usava a força bruta? Isso forma o aluno para a obediência? E qual o impacto que isso pode ter no mundo? Eu quero que meus alunos me obedeçam? Se deixem ser conduzidos? Haverá um tempo em que o direito poderá prescindir do uso da força? E a principal: como posso saber se esse direito ideal seria mesmo o melhor?

Agora quem precisou de uma pausa fui eu, minha cabeça ficou até tonta de pensar e eu nem sei se consegui me fazer ser entendida ou mesmo entender algo que eu escrevi. Mas continuemos…

Até aqui falei um tanto sobre as cartas, o tempo, a educação, ideais, política, sobre autoridade. E disse também que isso tem alguma relação com a morte que, por sua vez, não pode ser pensada sem a sua relação com o nascimento. Quero agora contar algumas partes da minha história e, para tanto, vou chamar mais algumas vozes para nossa conversa, numa tentativa de explicar como tudo isso foi se ligando na minha cabeça.

Os senhores devem ter se dado conta que até agora, apesar de falar sobre mim, ainda não me apresentei propriamente. Eu nasci muitos anos depois dos senhores terem morrido (nem meus pais eram nascidos quando os senhores morreram) e no Brasil, apesar de meus avós serem europeus como os senhores. E há uma ligação entre nós, além da intelectual, nós três somos judeus. Creio eu que somos bem pouco religiosos, então isso não teria maior importância, mas tem algo que é necessário falar sobre isso, a propósito da guerra.

Meu nome é Laila e a minha mãe escolheu esse nome a pedido do pai dela, meu avô, porque esse era o nome de sua irmã mais velha. Eu nunca conheci essa outra Laila, porque ela morreu junto com quase toda a família do meu avô na Europa nazista, e assim eu carrego essa marca comigo desde que cheguei ao mundo –  uma marca amorosa, mas triste. Os senhores sabem o que foi o nazismo, mas mesmo assim vou explicar um tantinho, usando as minhas palavras meio mudas, para que fique mais evidente o ponto em que quero chegar e também porque eu não vivi isso, como os senhores, apesar de carregar essa marca em meu nome. 

O nazismo é uma ideologia com origem na Alemanha do início do século XX, que impôs à sociedade da época um projeto de morte baseado em um modelo único e absoluto de humanidade, a raça ariana. E a partir desse modelo, o nazismo instalava políticas de estado com base no ódio contra qualquer pessoa que não se encaixasse nele. Quer dizer, quem não era visto como ariano, a única raça considerada “pura”, deveria ser eliminado da face da terra. Uma boa parte desses “impuros” eram os judeus, como os da minha família, outra eram as/os comunistas (aliás, também havia comunistas na metade da família que vem do meu pai, mas essa é outra história…). Também eram considerados “impuros” negros, ciganos, pessoas com deficiência, dentre outros. Enfim, fato é que esta grande e perigosa bobagem chamada nazismo foi o que assassinou minha tia-avó Laila e por causa disso esse também é o meu nome. Meu avô e um de seus irmãos foram os únicos que escaparam, por muito pouco, e se o nazismo não tivesse sido derrotado, possivelmente eu não estaria aqui escrevendo esse monte de linhas.

E como eu sou brasileira, preciso ressaltar que o nazismo não inventou nada novo, não. A discriminação contra os judeus na Europa nazista da década de 1930/1940, tem muitas semelhanças com o racismo contra os negros no mundo inteiro, que começou muito antes do nazismo e persiste ainda hoje de forma intensa, com consequências mais violentas, se é que isso é possível. Acontece que, ao longo dos anos, mesmo com a recente volta do fascismo, o nazismo ganhou visibilidade e certo status de algo que não se pode tolerar, provavelmente porque se tratou de uma violência contra brancos europeus. O mesmo não aconteceu com o racismo, apesar das lutas e denúncias que a população negra vem fazendo há tempos. O que evidencia o privilégio que meu lugar de fala tem.

Ainda assim, falar novamente sobre a barbárie do nazismo, talvez possa ajudar em algo na luta contra a barbárie do racismo, já que ambos são ideologias que constroem a imagem do outro, da diferença, como “monstro”. Eu penso que eles têm algumas semelhanças importantes, uma delas é a sua relação com o capitalismo. Vou voltar ao meu lugar de fala, então, mas peço que os senhores não se esqueçam de que o racismo existe e é uma das mais intensas barbáries atuais.

O nazismo é a forma radical do capitalismo, no campo das ideologias. Pois é o capitalismo que nos enfia na cabeça a noção de que qualquer objeto, relação, ideia e até mesmo certos grupos de pessoas podem virar uma coisa (como os negros que foram escravizados), ou melhor, podem virar uma mercadoria, que sirva à obtenção de lucro, que é a única coisa que importa nesse sistema de produção.

Desculpem-me o meu tom meio informal e um tanto panfletário, mas é que eu tinha uma imagem da barbárie como algo sujo, sanguinolento, selvagem, tipo um homem das cavernas sem tomar banho há dias, devorando um pedaço de carne crua. Uma coisa assim… Primitiva (e isto é também uma leve provocação ao senhor, Prof. Freud).

Mas pensando sobre isso, de que o capitalismo transforma tudo em mercadoria, entendi que essa imagem é falsa. A barbárie nossa de todos os dias tem uma cara bem diferente. Ela é, digamos assim, limpinha, cheirosinha. Ela é planejada, organizada a partir de uma lógica capaz de nos convencer de que é isso aí o que tem para o jantar, de que não temos saída. A grande questão é que essa lógica veste uma roupa toda bonita, uma embalagem bacanuda, como se fosse um chocolate gostoso, mas produzido com trabalho (negro) infantil análogo à escravidão. 

Quando dissecamos essa lógica é que a gente entende que bárbaro mesmo é o capitalismo. E essa barbárie tem uma racionalidade própria que quase convence, mas ainda bem que ela não convenceu a todos. Um desses, que vou chamar à nossa conversa, é o Theodor Adorno, um pensador alemão que conseguiu escapar do nazismo e que com certeza leu muitos de seus textos, Prof. Freud. Foi ele quem formulou essas ideias que estou apresentando a vocês. 

O Adorno escreveu um texto cuja primeira frase é a seguinte: “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação.” (ADORNO, 1995, p. 119). Já li muitas vezes esse texto, chamado Educação após Auschwitz (1995), mas me lembro como se fosse hoje da sensação que tive ao ler essa frase pela primeira vez, quando ainda estava na faculdade, estudando para ser educadora. Eu senti como se fosse um chamado dirigido a mim, quase pessoal.

Quero falar mais sobre esse texto, mas antes só umas palavrinhas sobre Auschwitz. Era um “campo de concentração” para o qual eram mandados aqueles que eram considerados impuros, Auschwitz não era o único desses lugares, havia muitos outros espalhados pela Europa nazista. Mas Auschwitz tem uma simbologia importante, pois foi o lugar designado para testar o que os nazistas chamaram de “solução final” – um planejamento eficiente para matar o maior número possível de “impuros”, de forma mais “limpa”, no menor tempo e com menor custo. O verbete da Wikipedia sobre a solução final diz assim sobre esse planejamento:

(…) os primeiros métodos usados para liquidar os judeus tinham diversos e sérios defeitos. (…) embora aumentassem a mortalidade, eram extremamente lentos. As execuções a tiro exigiam muitos recursos, munições e transporte. (…) [COMANDANTES NAZISTAS] queixaram-se da “pressão psicológica” sofrida pelos seus homens ao terem de matar mulheres e crianças. (…) Himmler [LÍDER NAZISTA RESPONSÁVEL POR COLOCAR EM PRÁTICA A SOLUÇÃO FINAL] começou a procurar melhores, mais rápidos e “limpos” métodos de liquidar os judeus e opositores. (…) Foram feitas experiências executando doentes mentais por meio de explosivos, o que deixava pedaços de corpos espalhados por toda a parte. (…) Auschwitz (…) fez uma primeira experiência com seiscentos prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, executando-os por meio de Zyklon-B, um pesticida. Este método foi o seguido nos campos de extermínio (…).

Em Auschwitz também havia trabalho forçado de homens e mulheres que eram considerados úteis para tanto. E só para os senhores terem uma ideia da crueldade do nazismo, na entrada daquele campo de extermínio lê-se a seguinte frase: “o trabalho liberta”. Estão vendo os senhores como a barbárie é limpinha?

Quis fazer esse destaque e falar sobre a minha história porque, além da importante simbologia de Auschwitz, existe uma possibilidade, sem confirmação, de que a minha tia-avó Laila tenha morrido lá.

Tinha dito antes aos senhores que talvez haja algo de pedagógico e de inconsciente na política, e o Adorno vai falar sobre isso no texto que mencionei acima. O pensador alemão afirma, depois de ter lido o senhor, Prof. Freud:

(…) um dos mais perspicazes [ACHADOS DE FREUD] parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. (…) Se a barbárie encontra-se no próprio princípio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador. (…) A reflexão a respeito de como evitar a repetição de Auschwitz é obscurecida pelo fato de precisarmos nos conscientizar desse elemento desesperador, se não quisermos cair presas da retórica idealista. (ADORNO, 1995, p. 120. Grifo Nosso).

Creio que uma parte desse elemento de desespero vem da possibilidade, muitíssimo real, que existe em cada um de nós de produzir a barbárie. Quais as saídas então?

O Adorno passou um bom tempo estudando como Auschwitz pôde ter acontecido, mais ou menos como os senhores se perguntaram em suas cartas, depois da I Guerra Mundial. Uma das conclusões do teórico alemão foi, justamente, que o nazismo nasce dentro da racionalidade capitalista. No fim das contas, o problema que a “solução final” solucionou foi uma questão de eficiência, houve reuniões inclusive para pensar sobre isso, será que ninguém se deu conta, e se enojou, de que o objetivo da solução final era matar?

Refletindo sobre os componentes subjetivos que produzem a barbárie, Adorno vai se referir às características psicológicas das pessoas capazes de praticar genocídio. Ele diz que essas pessoas têm uma consciência coisificada, produzida por um mundo que Adorno chama de administrado, um mundo que criou mecanismos para tornar eficazes inclusive os destinos das pulsões. Apoiado no Prof. Freud, Adorno relaciona as características desse mundo administrado à forma como a sociedade capitalista faz uma pressão civilizatória quase insuportável, de maneira densamente controlada.

(…) a pressão civilizatória observada por ele [FREUD] multiplicou-se em uma escala insuportável. Por essa via, as tendências à explosão a que ele atentara atingiram uma violência que ele dificilmente poderia imaginar (…) É possível falar da claustrofobia das pessoas num mundo administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede densamente interconectada. Quanto mais densa a rede, mais se procura escapar, ao mesmo tempo em que precisamente sua densidade impede a saída. (…) Isto aumenta a raiva contra a civilização. Esta torna-se alvo de uma rebelião violenta e irracional. (ADORNO,1995, p. 122). 

Essa pressão do geral dominante sobre tudo o que é particular, diz Adorno, destroça qualquer coisa que de fato seja singular, junto com sua capacidade de resistir a essa violência destroçante, transformando sujeitos em massa. Junto com sua própria identidade, seu próprio eu, as pessoas perdem outras qualidades que as fazem capazes de se contrapor ao que, em qualquer tempo, é barbárie.

Adorno afirma que as consciências coisificadas têm então duas tendências: se identificam cegamente com um coletivo amorfo e são talhadas para manipular massas. Ele diz: “Pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si próprios em algo como um material, dissolvendo-se como seres autodeterminados. Isto combina com a disposição de tratar outros como sendo uma massa amorfa.” (ADORNO, 1995, p. 129).

E essa consciência também vai se coisificando conforme vai tentando se tornar eficiente, Adorno traz exemplos:

O caráter manipulador – e qualquer um pode acompanhar isto a partir das fontes disponíveis acerca desses líderes nazistas – se distingue pela fúria organizativa, pela incapacidade total de levar a cabo experiências humanas diretas, por um certo tipo de ausência de emoções, por um realismo exagerado. A qualquer custo ele procura realizar uma pretensa, embora delirante, realpolitik. Nem por um segundo sequer ele imagina o mundo diferente do que ele é, possesso pela vontade de doing things, de fazer coisas, indiferente ao conteúdo de tais ações. Ele faz do ser atuante, da atividade, da chamada efficiency enquanto tal, um culto cujo eco ressoa na propaganda do homem ativo. (ADORNO, 1995, p. 129. Grifo Nosso).

E um dos pontos nevrálgicos que Adorno aponta é justamente a relação que essa consciência coisificada tem com a autoridade, ele diz:

O que a psicologia denomina como superego, a consciência moral, é substituída no contexto dos compromissos por autoridades exteriores, sem compromisso, intercambiáveis (…) Porém justamente a disponibilidade em ficar do lado do poder, tomando exteriormente como norma curvar-se ao que é mais forte, constitui aquela índole dos algozes que nunca mais deve ressurgir. (ADORNO, 1995, p. 125).

Outra incapacidade da consciência coisificada é a de identificação, de certo modo essa ordem social que Adorno chama de mundo administrado, então, vai produzindo e reproduzindo frieza e indiferença.

E talvez a principal característica é a impossibilidade de viver experiências o que significa – isso sou euzinha que estou falando, tá? – que essas consciências são incapazes de aprender, porque incapazes de abrir-se ao porvir, pelo contrário ela se defende de “(…) qualquer vir-a-ser, frente a qualquer apreensão do próprio condicionamento, impondo como sendo absoluto o que existe de um determinado modo.” (ADORNO, 1995, p. 132) E assim, no fundo, elas também revelam traços de incomunicabilidade, de um esvaziamento da linguagem. No fim das contas, diz Adorno, essas pessoas “(…) que executam as tarefas agem em contradição com os próprios interesses imediatos, são assassinas de si mesmas na medida em que assassinam os outros.” (ADORNO, 1995, p. 138).

Fiz essa outra pausa para pensar a partir da psicanálise, criada pelo senhor, Prof.Freud na seguinte pergunta: como uma pessoa se torna quem ela é? Primeiro, precisamos dizer que para a psicanálise o inconsciente tem um papel preponderante em tudo que os seres humanos são e fazem. O inconsciente é como se fosse um lugar e é muito poderoso porque ele povoa toda nossa mente sem que a gente nem mesmo perceba. Nós nascemos com ele e seus conteúdos emergem sempre meio disfarçados.

Além do conceito de inconsciente, o Prof. Freud introduziu posteriormente outro que o complementa. Trata-se do Id, uma palavra em alemão, cuja tradução mais exata para o português seria “Isso”. Assim que nasce, o bebe começa a formar seu aparelho mental e, poderíamos dizer que, desse ponto de vista, ele começa como sendo um Id ou um “Isso”. Ao longo do seu processo de maturação, o bebê – depois criança, depois adulto – desenvolve o Ego e o Superego. Pelo menos em termos teóricos, o desenvolvimento de uma pessoa é, então, o caminho que ela percorre para se transformar de um “isso” em um “eu”.

Nesse caminho de “isso” a “eu”, estamos de início completamente dependentes de outra pessoa que cuida de nós, com seu aparelho mental já formado, para podermos sobreviver e dar segmento ao nosso caminho rumo à formação do nosso próprio aparelho. Esse caminho, poderíamos dizer talvez, que tem como um de seus rumos a conquista de alguma autonomia, embora essa dependência inicial fique como marca em nós para sempre.

Mas há algo mais sobre o caminho, ele só acontece porque o aparelho psíquico está em conflito constante, sempre entre dois pólos contrários, que buscam equilibrar-se incessantemente. E é esse processo conflituoso que vai impulsionando o aparelho psíquico a se desenvolver. 

No Id moram os instintos e as pulsões que, por sua vez, geram excitações a que qualquer organismo vivo está submetido. Elas vêm de fora e também de dentro. Essas excitações internas nós chamamos pulsão. Elas geram uma espécie de força que exige que o aparelho psíquico realize um trabalho, rumo à descarga dessa excitação, buscando um destino para a pulsão na consciência, ligando-a a uma representação, um objeto. Os destinos das pulsões são arbitrários e contingentes, variando conforme a própria história do indivíduo.

Eu fui consultar um vocabulário de psicanálise para entender melhor esses conceitos e encontrei um escrito por Laplanche e Pontalis. Esses estudiosos explicam que ao longo de sua obra, Prof. Freud, o senhor foi formulando os conceitos de pulsão, que vem sempre de forma dualística, até reuní-los em dois tipos: pulsão de vida e de morte.

As pulsões de vida se relacionam ao amor, ao eros, às identificações, nesse sentido elas têm um papel de formar reuniões, digamos assim. “As segundas [PULSÕES DE VIDA] tendem, não apenas a conservar as unidades vitais existentes, como a constituir, a partir destas, unidades englobantes.” (LAPLANCHE/ PONTALIS, 1988, p. 537). As pulsões de vida procuram não só provocar, como manter a unidade e existência do organismo individual.

As pulsões de morte, por outro lado, são uma espécie de recondução do organismo para um estado anorgânico, inicialmente se voltam para o interior, de forma autodestrutiva e num segundo momento podem manifestar-se sob a forma de agressividade. Nesse sentido, elas têm uma força regressiva, uma espécie de volta a um estado original, o senhor define as pulsões de morte da seguinte maneira em sua carta, Prof. Freud:

(…) esse instinto age no interior de cada ser vivo e se empenha em levá-lo à desintegração, em fazer a vida retroceder ao estado de matéria inanimada. Ele merece, com toda a seriedade, o nome de instinto de destruição, enquanto os instintos eróticos representam os esforços de vida. O instinto de morte se torna instinto de destruição ao ser dirigido, com a ajuda de órgãos especiais, para fora, para os objetos. O ser vivo que conserva sua própria vida ao destruir vida alheia. Mas uma parte do instinto de morte permanece ativa dentro do ser vivo, e nós procuramos derivar toda uma série de fenômenos normais e patológicos dessa internalização do instinto de destruição. Cometemos até a heresia de explicar a gênese de nossa consciência moral mediante esse voltar-se para dentro da agressividade. (FREUD, 2010, p. 245/246. Grifo Nosso.)

Há algo de fundamental em qualquer pulsão: o retorno a um estado anterior, na pulsão de morte esta tendência é eminentemente exprimida. Na pulsão de vida, esta tendência é definida por um movimento inverso. Resumindo… o princípio da Pulsão de Vida seria o de ligação, isto é, instituir unidades cada vez maiores e, portanto, conservar. O alvo da pulsão de morte, pelo contrário, é o de dissolver, de destruir por assim dizer. E essas pulsões vivem “brigando” de diferentes formas dentro do nosso aparelho psíquico, se ligando de diversas maneiras a objetos e representações em sua superfície. Por isso que uma pessoa se torna quem ela é, na medida em que vai se fazendo, um “eu” é também a história de criação desse “eu” e, não importa quantas semelhanças tenham, essa história é sempre singular.

Depois desse pequeno descanso, quero tentar falar mais alguma coisa sobre as formas de evitar a repetição de Auschwitz a que Adorno se refere, ele diz: “A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.” (ADORNO, 1995 p. 121), pois o processo de “desbarbarização” do mundo pressupõe, dentre muitas outras coisas, uma opção pela não participação e, nesse sentido, para a autodeterminação. E eu acrescento: trata-se de formar uma consciência forte o suficiente para desobedecer. “(…) O único poder efetivo contra o princípio de Auschwitz seria a autonomia, para usar a expressão kantiana: o poder para a reflexão, a autodeterminação, a não-participação.” (ADORNO, 1995, p. 125).

E como formar para a autodeterminação? Vou tentar me debruçar sobre o conceito de experiência, já que a consciência coisificada é incapaz de vivê-la. Mas antes quero contar uma outra coisa aos senhores, como educadora já trabalhei com todas as idades, mas tenho uma predileção especial pelos adolescentes e jovens. Há um tempinho fiz um trabalho acadêmico cujo tema era justamente esse pessoal. 

Achei que tinha escolhido esse tema simplesmente porque gostava dos adolescentes, mas me enganei redondamente. A verdade verdadeira, descobri ao longo do trabalho, era que eu escolhi esse tema porque eu mesma, talvez tardiamente, estava me conscientizando que não era mais jovem, no sentido etário e também simbólico da coisa.

Uns anos antes de fazer esse trabalho eu fui diagnosticada com uma depressão profunda (eu avisei que essa carta tinha um tom terapêutico, né?). Foi um tempo meio sombrio da minha vida, mas estou me tratando e hoje estou bem melhor. Nesse meu tratamento, descobri que essa depressão tem uma origem, um lugar em mim: aquele medo gigantesco da morte que já falei aos senhores. Tanto das mortes concretas, quanto das simbólicas.

Então comecei refletindo sobre educação e juventudes e fui parar no tema morte. E o tema morte me levou a pensar sobre o nascimento. Tudo isso junto me levou também a pensar no tempo, nos começos e nos finais, e como a educação tem tudo a ver com isso. E foi justamente nessas andanças que eu encontrei aquela carta do Larrosa sobre a qual já falamos. 

Eu cometi a loucura de compartilhar essas teorias todas com os jovens com quem trabalhava, achando que eles não iam entender nada, porque era muito “difícil”. Mas também me enganei redondamente! A finalização do projeto foi em forma de cartas que os jovens escreveram. Nossa, e saíram coisas muito lindas! Claro que eles entenderam! Olha a beleza que um dos meninos escreveu:

São Paulo, 25 de novembro de 2019

Caro Leitor,

Penso que a palavra é vento que sopra sem direção, mas que mesmo soprando sem norte é forte o suficiente para fazer corações rasgarem.

Sinto que nessa vida muitas palavras me fizeram chegar até aqui e muitas outras vão me fazer zarpar pra algum lugar. Se eu pudesse escolher onde chegar com elas, me imaginaria no lugar mais difícil onde uma palavra pode chegar, um lugar onde o vibrar gera som e esse som move a vida, no coração de alguém, queria que pelo menos algumas de minhas palavras pudessem fazer morada, pois acho que não há honraria maior do que fazer parte da literatura da vida de alguém e assim por meio das palavras tornar-me eterno e ajudar os outros a seguir no mar da vida.

Abraços, “De um pensamento” (João Victor da Cruz de Paula Pinto, 19 anos)

Não é uma maravilha?! Eu compartilhei com os senhores essa carta, escrita pelo João, em primeiro lugar porque morro de orgulho dele. Mas principalmente por causa do que ele diz sobre as palavras. Lendo a carta do João, fiquei pensando que talvez não sejam as cartas que enganem a morte, talvez sejam as palavras. Larrosa, sobre isso, nos oferece o seguinte pensamento:

E sei algo mais: que, para ti, vires ao mundo e vires ao tempo é inseparável de vires à linguagem. Sei que tu – como eu, como nós, porque talvez isto seja a única coisa que pode criar entre tu e eu algo assim como um nós – és também um animal de palavras, um vivente cuja vida é, entre outras coisas, uma torpe e às vezes desesperada e às vezes impossível busca de sentido. (LARROSA, p. 8)

A propósito disso, Larrosa conta uma história escrita por um filósofo chamado José Luis Pardo. Ele contou que durante a II Guerra Mundial saíram da Holanda ocupada pelos nazistas 93 trens, cada um deles com mil deportados, que tinham como destino Auschwitz. Esses três demoravam quatro dias nesse caminho de ida, e mais quatro dias para retornar, com o objetivo de apanhar mais pessoas. Depois de algumas viagens, um holandês se deu conta de que eram sempre os mesmos trens que faziam esses transportes. Por causa dessa descoberta, as pessoas que eram deportadas passaram a deixar mensagens nos trens vazios, para os que viriam nas próximas viagens. José Luis Pardo diz, então, que essas mensagens se assemelham a obras de arte e completa:

(…) fizeram a viagem primeiro e deixaram essas inscrições para que aqueles que os sucedessem pudessem viver algo que, de outro modo, resultaria insuportável (…): ensinaram-lhes que sua dor, sua falta de refúgio, não era a primeira, que não era original, mas uma repetição, que já outros homens a haviam sofrido e que agora eles, os novos viajantes, podiam ver-se nessas notas como em um espelho no qual conseguiriam sentir sua própria dor que, então, se converteria em uma dor comum, partilhada. Isso – as notas dos trens com destino a Auschwitz, as obras de arte – não livra ninguém de sua dor (…), simplesmente permite vivê-la, permite tomar coragem, seguir respirando apesar da desolação, da morte, da mesquinharia e da estupidez e em meio a elas. Pode ser que essas notas pareçam pouca coisa, quase nada. Mas são literalmente vitais para nós que estamos nesse trem ou sabemos que algum dia teremos de fazer essa viagem. (PARDO, apud, LARROSA, s/d, p. 8/9)

Sabem professores, isso até é uma certa vaidade minha, mas às vezes eu penso que o meu nome, Laila, no sentido metafórico é uma dessas mensagens deixadas nos trens que levavam para Auschwitz, por conta de toda a marca que ele carrega. Aliás, sobre os nomes Larrosa escreve assim em sua carta:

Este curioso dispositivo a que chamamos carta habitualmente leva também uma assinatura, a assinatura de quem a escreve e a envia. Teria então que me apresentar, e te dizer quem sou, e escrever meu nome… Mas neste caso meu nome não importa. O que importa, sobretudo, é em nome de que, ou de quem, te escrevo. E a única coisa que te posso dizer é que te escrevo porque eu quero te contar que, neste tempo outro, neste mundo outro e nesta língua desconhecida para os que como tu vão nascer, haverá, talvez, coisas como garrafas lançadas ao mar ou notas escritas nos cantos escondidos dos vagões. (LARROSA, 1995, p. 9)

É por isso que as palavras estão sempre a caminho, se dirigem a algo, mas ao que? A um lugar aberto, a invocar, a ocupar, a uma realidade que está por vir, ou como diria o João: “um lugar onde o vibrar gera som e esse som move a vida”.

Professores, me desculpem, me perdi aqui, tinha dito aos senhores que ia falar sobre a experiência e acabei falando sobre palavras. É que, para mim, elas não podem ser pensadas em separado. Vou me explicar.

O mesmo Jorge Larrosa, em outro texto chamado Notas sobre a experiência e o saber de experiência (2002), explica que as palavras são as for­mas através das quais damos sentido ao que nos passa. Para o autor, a experiência é aquele acontecimento que nos tomba e nos tira do lugar em que estávamos antes de vivê-la. Assim, a experiência é a única capaz de nos colocar em situação de verdadeira aprendizagem, de formação e transformação.

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca.(…) E o que gostaria de dizer sobre o saber de experiência é que é necessário separá-lo de saber coisas, tal como se sabe quando se tem informação sobre as coisas, quando se está informado.(LARROSA: 21/22, 2002).

Há uma simbiose entre a experiência e a forma de comunicá-la, a sua narração, há uma relação dialética entre elas, na qual uma alimenta a outra, ou seja, a experiência produz o discurso, mas o discurso também produz a experiência. Quando, então, narramos a experiência, transfor­mando-a em linguagem, é que damos condições para a ação, isto é, para retornarmos à experiência através dessa narração que é também uma interpretação, um recorte.

O mesmo Walter Benjamin que já mencionei antes, também discute esse conceito. Para Benjamin, a experiência tem relação com a narração na medida em que esta é uma das formas através das quais a humanidade escreve sua história. Para esse autor, a literatura e a história enraízam-se nas atividades de lembrar e esquecer. Isto é, o que produz essas narrativas é uma dialética entre o esquecimento e a memória, que, sem o esquecimento, seria infinita. Con­tamos o que lembramos e nunca lembramos de tudo.

Aliás, o próprio movimento da linguagem é esta dialéti­ca entre lembrar e esquecer, que impõe certa atividade de seleção, uma vez que as coisas só estão presentes na narração não enquanto tais, mas em sua ausência, que só podem ser tornadas de novo presença enquanto pala­vra. A linguagem se refere ao que não está lá e, por isso, possui uma liberdade lúdica, provocada por essa ausên­cia de um referente único e totalizante. 

Nesse sentido, para Benjamin, a história, enquanto narração, é lugar conjunto da significação e da morte, uma vez que o sentido não nasce da presença do objeto, mas sim de sua “ausência dita”, provocando uma união quase que indiscernível entre os escombros do passado e os novos edifícios.

Para Walter Benjamin, a narração é a forma básica de transmissão da experiên­cia nas sociedades pré-industriais. Esta transmissibili­dade não é uma tarefa simplesmente “bancária”, pelo contrário, tem a ver com o compartilhamento de uma temporalidade comum a diferentes gerações e com a existência (e exigência) de uma palavra compartilhada, que implica uma formação válida para todos que co­mungam de uma mesma coletividade. Neste sentido, o ouvinte tem necessariamente um papel ativo na expe­riência narrativa, o que dá a ela uma orientação prática, isto é, “útil”, pois tem em si um ensinamento moral, uma sugestão prática, uma norma de vida, enfim um “conselho”.

(…) de qualquer maneira o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas se ‘dar conselhos’ parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis (…) Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada (BENJAMIN, 1994, p. 200).

Benjamin discute, assim como o Adorno, a impossi­bilidade da narração tradicional e o empobrecimento da experiência na sociedade capitalista industrial, o que promoveu uma transformação profunda nas percepções individual e coletiva. Na modernidade, a narração per­deu a sua orientação prática e isso nos torna inca­pazes de dar e receber conselhos. Além disso, na era da informação as palavras parecem estar coladas àquilo que elas significam, os fatos já chegam acompanhados de sua explicação e, por isso, destituídas de inacaba­mento, da sua possibilidade lúdica de reinvenção.

Larrosa também discorre sobre os impeditivos do mun­do moderno para se viver uma experiência: a sociedade da informação, a sociedade da opinião e o tempo regido pela incessante (e falsa) busca pela novi­dade. Tudo isso, de certa forma, também contribui para a incomunicabilidade da experiência na modernidade, uma vez que inutiliza a distância criativa entre a pala­vra e a coisa, deixando pouco espaço para atividade de interpretação e recriação.

A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que ca­racteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara. (LARROSA, 2002, p. 21/22)

Uma das causas da pobreza da ex­periência e da impossibilidade de dar e receber con­selhos na contemporaneidade poderia ter uma relação com a forma através da qual nos relacionamos com a morte, nos afastando de seu ritual, pois para Benjamin, é da possibilidade da morte que deriva a sabedoria da palavra do narrador

Ora, é no momento da morte que o saber e a sabedoria do ho­mem e sobretudo sua existência vivida – e é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela primeira vez uma forma transmissível. Assim como no interior do agonizante desfilam inúmeras imagens – visões de si mesmo, nas quais ele se havia encontrado sem se dar conta disso -, assim o inesquecível aflora de repente em seus gestos e olhares, conferindo a tudo o que lhe diz respeito aquela autoridade que mesmo um pobre-diabo pos­sui ao morrer, para os vivos ao seu redor. Na origem da narrativa está essa autoridade. (BENJAMIN, 1994, p. 207/208)

Para Benjamin, a cadeia que funda a tradição, e que transmite os acontecimentos de geração para geração, é fundada pela reminiscência. E este movimento de lem­brar e esquecer que a memória faz, permite que as nar­rativas criadas por ela se apropriem do curso das coisas por um lado, e a resignação, por outro, do fato de que essas coisas, através do poder da morte, desaparecerão. Assim “(…) é a imagem de uma experiência coletiva, para a qual mesmo o mais profundo choque da experiência individual, a morte, não re­presenta nem um escândalo, nem um impedimento.” (BENJAMIN, 1994, p. 215).

Esta liberdade de pensamento que temos, também nos ajuda a ver na experiência concreta, nos acontecimentos diários, como as nossas concepções gerais se manifestam. Ou seja, o pensamento nos faz discernir o singular que emerge de cada experiência humana.

E, no encontro com o diferente, é que vamos construindo sentidos comuns. A reflexão crítica tem o potencial de trazer à tona os assuntos de interesse geral, levando em consideração a pluralidade dos pontos de vista, mas construindo consensos, acordos, combinados em torno das formas de conviver, de estar juntos, das regras e leis que podem também ir se modificando, conforme as experiências concretas.

Arendt vai dizer, de forma parecida a de Adorno, que os regimes políticos totalitários eliminam a singularidade da experiência, operando através da obediência a leis extremamente rigorosas e indiferentes a essas singularidades. O totalitarismo rompe, de forma planejada, com os combinados que reúnem as pessoas em uma comunidade. O que acaba por romper também com a possibilidade de mudança desses combinados a partir do diálogo e do que aprendemos com a experiência cotidiana concreta. Os combinados nos regimes totalitários são as leis que impõem a todas as ações humanas um ajuste a um modelo único, tornando-se, assim, a única forma possível de explicação da realidade e eliminando – literalmente – qualquer diferença ou discordância. Esse conjunto de explicações que no totalitarismo ganha força de lei, promete ao mesmo tempo explicar o passado, conhecer o presente e prever com absoluta segurança o futuro.

Para Hannah Arendt, apesar disso, há uma saída que nos salva, que nem mesmo os governos mais autoritários podem destruir: o fato de que todos os dias nascem seres humanos e que, portanto, tudo sempre pode começar de novo. Todo nascimento é também a possibilidade de um novo começo para o mundo, pois é um mistério, é o imprevisível. Para Hannah Arendt a liberdade é essa capacidade interior que todas as pessoas têm e que equivale à capacidade de começar, porque o futuro está em aberto e tudo pode mudar.

A propósito disso, Hannah Arendt, em A Crise na Educação (2004), defende que a educação existe como uma resposta ao fato de que constantemente nascem seres humanos no mundo. Isto é, ela propõe pensar a educação “(…) no sentido da reflexão sobre o papel que a educação desempenha em todas as civilizações, ou seja, da obrigação que a existência de crianças coloca a todas as sociedades humanas.” (ARENDT, 2004, p. 38). Nesse sentido, os mais velhos assumem a responsabilidade tanto com esses que acabaram de nascer quanto com o próprio mundo, ela continua:

No entanto, face aos jovens, os educadores fazem sempre figura de representantes de um mundo do qual, embora não tenha sido construído por eles, devem assumir a responsabilidade, mesmo quando secreta ou abertamente, o desejam diferente do que é. (ARENDT, 2004, p. 40)

Os adultos têm, então, uma responsabilidade pela continuidade do mundo. Esta responsabilidade sobre o curso das coisas, ainda segundo Arendt, é que funda a autoridade do educador. E esta autoridade, apesar de representar uma desigualdade na relação, pois implica certa superioridade do adulto em relação à criança ou ao jovem, e que existe porque o adulto é mais velho, só não é autoritária porque tem, obviamente, uma temporalidade, uma finitude. Isto é, em algum momento o jovem se tornará adulto e a desigualdade da relação terminará. Para Arendt, a educação deve introduzir a criança e o jovem como algo novo em um mundo velho e

Para preservar o mundo contra a mortalidade dos seus criadores e habitantes, é necessário constantemente restabelecê-lo de novo. O problema é saber como educar de forma que essa recolocação continue a ser possível, ainda que de forma absoluta, nunca possa ser assegurada. A nossa esperança reside sempre na novidade que cada nova geração traz consigo. Mas, precisamente porque só nisso podemos basear nossa esperança, destruímos tudo se tentarmos controlar o novo que nós, os velhos, pretendemos decidir como deverá ser. (ARENDT, 2004, p. 42).

Quais são as saídas então? A própria educação, segundo Arendt

A educação é assim o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína que seria inevitável sem a renovação, sem a chegada dos novos e dos jovens. (ARENDT, 2004,p. 44)

Talvez os senhores até saibam disso, mas eu me chamo Laila porque há um costume entre os judeus de dar um nome de alguém da família que já morreu a uma criança que está nascendo, pois acredita-se que assim a alma daquela que morreu renasce no bebê que chegou. Acho que esse costume tem alguma relação com essas ideias da Hannah Arendt, pois o nascimento, que é um começo absoluto, pode ser também a possibilidade de superar a morte, um fim absoluto. E, assim, a outra Laila – assassinada pela política nazista – pôde renascer de alguma forma em mim, essa Laila que vos fala, que está aqui e agora, que vem tentando aprender formas de superar a barbárie e transmitir o que aprendeu a outros. Como escreveu Arendt: “Cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós.” (ARENDT, 2000).

Senhores, essa carta ficou muito maior do que eu poderia sonhar… Mas prometo que já estou finalizando, quero só falar mais algumas coisinhas.

Nesse período pós-pandemia que estou vivendo, uma das coisas que têm sido muito faladas a respeito da educação é que é preciso fazer uma “recuperação das aprendizagens” das crianças e jovens, pois eles perderam muitos conteúdos por conta das escolas terem sido fechadas na pandemia. E, por causa disso, considerando todo o terror que vivemos e que ainda estamos vivendo, lembrei de um trechinho do texto do Adorno em que ele diz: “Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita.” (ADORNO, 1995, p. 119). E frente a essa última tarefa estamos falhando miseravelmente, as escolas estão repletas de crianças e adolescentes que estão sofrendo – ainda que às vezes eles demonstrem seu sofrimento através da agressividade.

E o que pode a educação quando o cotidiano nos impele à inação? Paulo Freire, um grande educador brasileiro que hoje é rechaçado por aqueles que defendem políticas totalitárias, falava que dizer “a palavra” deve ser considerado direito de todas e todos. Mas não se trata de qualquer palavra, o direito é à palavra verdadeira, mas não totalitária.

Trata-se de uma palavra que está em nosso corpo e se constrói a partir de duas instâncias: a ação e a reflexão, que estão juntas de maneira tão radical, tão profunda que não há palavra verdadeira que não seja práxis e, enquanto práxis, ela só faz sentido se for constituída no âmbito de uma educação dialógica, pois ninguém pode dizer essa palavra sozinha/o.

Práxis pode ser entendida como a relação indissociável que se estabelece entre um modo de ver a vida e a consequente ação que deve vir dessa compreensão. Para Paulo Freire, não há prática que não esteja subsidiada por alguma teoria, por alguma visão de mundo. No entanto, para uma ação ser transformadora da realidade, o ser humano que age precisa ter consciência do que faz.

A práxis é, então, uma mistura entre teoria e prática ou, para ser mais freireana, é “palavração”. O modo como damos nomes às coisas, usando palavras, é nossa compreensão. E esse processo de dar nome deve exigir de nós a transformação dessas coisas quando elas são injustas e, por isso, nos impele à ação, à prática, o que muda as formas como vemos essas coisas que nós nomeamos, e assim o processo volta ao começo.

E foi pensando nisso que eu percebi que há uma relação cíclica entre a história, as práticas e os sonhos e isso resulta em ação ética, que no fundo é o remédio contra a barbárie. A palavra verdadeira nasce da experiência e volta a ela, nos fortalecendo para enfrentar de modo cada vez mais consciente os desafios cotidianos, dessa forma todo dia se aprende um pouco mais sobre essa palavra, num processo de atualização cotidiana feito por cada sujeito que compõe esse “nós”, estreitando ainda mais os laços que nos tornam uma comunidade.

Por isso, entendo que essa palavra verdadeira só o é de fato se tem um componente ético, isto é, se trata de uma escolha político pedagógica que deve servir para que a gente possa decidir melhor o que fazer nos nossos desafios cotidianos. Elas são o começo, mas também o meio e o fim.

São as concepções que nos dão critério para avaliar se as nossas ações estão contribuindo com a construção do mundo que queremos. Mas elas nascem antes mesmo de a gente dar nome, quer dizer, fazem parte da experiência, estão na nossa memória, na nossa história, na nossa pele. Ao mesmo tempo, elas devem ser vividas no presente, nas relações de agora que nos fazem ser uma comunidade e, também, guiam os nossos passos futuros, são a nossa utopia, o nosso sonho.

As palavras verdadeiras são o nosso direito reivindicado e conquistado de transformar o mundo, pronunciando-o, são o nosso direito conquistado e reivindicado de existir enquanto sujeitos que, ao entender a relação entre o silêncio que nos é imposto e o sistema de exploração, tomam para si o compromisso de entrar na história, transformá-la e por ela sermos transformadas/os.

Tudo isso eu escrevi para ver se conseguia dar mais sentido ainda ao que o senhor escreveu como solução para a guerra, Prof. Freud. O senhor não propõe eliminar a agressividade que faz parte de nossa constituição, mas sim um certo desvio recorrendo às nossas próprias pulsões e seus destinos, o senhor afirma: “Se a disposição para a guerra é uma decorrência do instinto de destruição, então será natural recorrer, contra ela, ao antagonista desse instinto, a Eros. Tudo que produz laços emocionais entre as pessoas tem efeito contrário à guerra.” (FREUD, 2010, p. 247).

Senhores professores, quero então terminar com palavras que não são minhas, na esperança de formar um “nós” qualquer. Na realidade, me dirigi aos senhores mas sei que os senhores não vão ler minhas palavras, já que estão mortos. Por que escrevi então? Deixo o Larrosa responder por mim, já que minhas palavras ainda estão meio mudas: 

Eu te escrevo, então, a partir da dupla responsabilidade que cabe aos leitores que dão a ler. Essa responsabilidade tem a ver, em primeiro lugar, com o que recebi, com o que vem antes de mim, com o que me precede, com o que fui capaz de acolher… e tem a ver também, em segundo lugar, com o que te dou, com o que te destino, com o que dirijo a ti, leitor por vir, que estás para além de mim. E cada uma dessas responsabilidades contém um paradoxo interno. Como leitor, minha maneira de receber, ou de responder, ao que me vem não pode ser outra que não um escolher, um preferir, um sacrificar, um excluir, um reinterpretar, um criticar, um deslocar, um decidir, um mal-interpretar, inclusive. Para ser fiel ao que recebi, para mantê-lo com vida, tive que lhe ser infiel. Ou seja, tive que ler. Nesse sentido, não será a leitura, ao mesmo tempo, fidelidade e infidelidade? Além disso, minha maneira de dar, ou de enviar, o presente não pode ser outra que não a de um deixar viver, a de um desprender-me dele para que tu, leitor desconhecido, o mantenhas com vida, o acolhas, te encarregues dele, mas sendo-lhe também infiel, da tua maneira, quer dizer, para que tu o leias. (LARROSA, 1995, p. 11)

Até logo,

Laila

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Publicado por diário de Sala

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