Ô motorista, pode correr

A 6ª F não tem medo de morrer!

Cancioneiro Popular* – 

*Canção que é velha conhecida de muitos(as) professores(as) que já levaram, em ônibus fretados, estudantes da 6ª F  em passeios, estudos do meio e afins.

Quero começar com uma confissão: sempre tive preferência por aqueles(as) estudantes conhecidos como bagunceiros(as). E, não, não é porque eu fui uma estudante bagunceira, quer dizer, não sei… Teria que perguntar para os meus professores e as minhas professoras. Mas deixo claro que essa preferência não é uma identificação narcisista, pois me sinto muito menos desobediente do que acho que devia ser, tendo em vista o mundo em que vivemos. Além disso, muitas vezes, os ossos do ofício me exigem que nos momentos de subversão dos tais bagunceiros eu dê uma bronca neles. Mas por dentro… Ah! Por dentro o que eu sinto é uma espécie de fascinação. Na verdade eu admiro os bagunceiros e as bagunceiras! Acho-os(as) inteligentes, sagazes e muitas vezes bem humorados(as).

Mas não foi esse sentimento de fascinação que me levou a escrever este texto e fazer essa confissão pública. Foi um acontecimento singelo que me causou um enorme estranhamento.

Há uns anos participei de um debate com estudantes do Ensino Médio, cujo tema era “Os jovens são mesmo desinteressados?”. Na dinâmica do evento o público se colocava, perguntava, comentava, cada um dos componentes da mesa respondia e assim ia se dando a conversa. 

Tudo corria muito bem. Mas em determinado momento uma professora fez um desabafo, bastante comum entre educadores e educadoras, no qual ela dizia que apesar de fazer muitas tentativas de motivar os seus estudantes (que por coincidência eram da 6ª série – risos), não obtinha mais tanto sucesso como antigamente. Demonstrou muita angústia ao dizer que não conseguia mais dar aulas, que os seus estudantes não a escutavam, apesar de ela ser uma boa professora.

Até aí, nada de muito novo. O que me impressionou foi a imediata resposta de um dos rapazes de 16 anos com quem eu dividia o palco: “As pessoas têm de entender que a punição educa”. Essa frase ressoa no meu imaginário até hoje, porque me pareceu tão absurdo um aluno defender isso! Ainda mais adolescente! Foi aí que percebi que eu prefiro mesmo os(as) bagunceiros(as).

Mas foi maravilhoso porque me fez pensar em muitas coisas, além de servir de inspiração para o título desse texto, como o leitor mais atento já pôde notar. A partir da frase do rapaz, acabei por me propor a entender melhor porque prefiro os bagunceiros e as bagunceiras.

De certa maneira, há no imaginário coletivo uma ideia de que a submissão do estudante à estrutura escolar se dá pelo medo das sanções que fazem parte dessa mesma estrutura. Obviamente que esta ideia – de que o senso comum acredita que a (boa) educação está também ligada ao medo da punição – carece ainda de verificação. Neste texto, portanto, essa afirmação não é nada mais do que uma hipótese baseada em conversas informais em ubers, botequins e, principalmente, salas de professores por aí.

No entanto, algumas frases que ouvi inspiraram a elaboração dessa hipótese. Frases como: “depois que inventaram o Estatuto da Criança e do Adolescente ninguém mais respeita o professor”, “os alunos de hoje em dia não querem saber de nenhuma autoridade, na minha época se eu falasse uma coisa como essa eu apanhava!”, “ai que saudade da palmatória!”, “manda ele para a sala do diretor!”, “você não é capaz de controlar os seus alunos”, “eles não fazem nada porque ninguém mais repete de ano”.

É importante destacar que as falas acima foram ditas em contextos de respostas a questionamentos e angústias, cujo conteúdo se referia, na maioria dos casos, a uma sensação de falta de respeito na relação entre educador e estudante. Por isso não se trata aqui de minimizar essa angústia, que é real, e desanima muitos educadores e educadoras empenhados em fazer uma educação que faça sentido aos estudantes. Proponho problematizar essa ideia que, talvez, o senso comum aponte como solução.

A princípio parece-me que por trás das frases apontadas acima, há uma explicação sobre a causa do problema: os alunos não se submetem mais às ordens e, nesse sentido, são violentos. No entanto, o rapaz de 16 anos, até mesmo por ser ainda um rapaz, propõe um pequeno deslocamento, isto é, coloca a questão não no(a) estudante – que não se submete – , mas sim no adulto, incapaz de exercer as sanções que poderiam recolocá-lo(a) na posição de autoridade. É mais ou menos como se o menino nos dissesse: “por favor, nos punam, para que possamos obedecê-los!”.

Concluiríamos então que os(as) estudantes não se submetem mais à autoridade porque são violentos e não têm medo dela. E, assim, porque não há mais o medo da punição, não há também educação. Desse modo, é possível que estejamos diante de um problema relacionado ao que entendemos socialmente por autoridade. 

No dicionário Michaelis on line a palavra autoridade tem nove diferentes significados que definem o termo de maneiras diversas. Destaco a primeira delas: “Direito ou poder de mandar, de ordenar, de decidir, de se fazer obedecer”. Partindo daí e, em termos gerais, poderíamos definir “autoridade” como a base de uma relação que pressupõe um que manda e um que obedece.

Pensando junto com Yves de La Taille, poderíamos acrescentar a essa definição: “Diz-se de alguém que ele tem autoridade quando seus enunciados e suas ordens são considerados legítimos por parte de quem ouve e obedece.” (La Taille, 1999, Pg. 10. Grifo Nosso). Para o autor, a relação de autoridade só se estabelece verdadeiramente se quem manda não o faz através do uso da força, e se há uma relação hierárquica considerada legítima por ambos os lados dessa hierarquia. Isso pressupõe que a obediência à autoridade é voluntária. 

Encontramos, assim, um primeiro contraponto importante à ideia de que nos submetemos à autoridade porque temos medo. A obediência tem um componente voluntário por parte de quem obedece, diria mais, um componente da liberdade do “obedecedor”.

Vamos adiante. Vou trazer um outro autor para nos ajudar na reflexão: Julio Groppa Aquino. Ele defende a escola como uma instituição, isto é, como um conjunto de relações e/ou práticas sociais específicas a ela, que não são meras repetições do que acontece do lado de fora. Assim, a escola produz algo novo. E o que seria isso? Para Groppa, os sujeitos da escola são pensados a partir de seu lugar institucional, no qual cada sujeito existe de uma maneira específica, se posicionando em relação a este lugar. Então, um dos vetores que constituem a dinâmica escolar, e especialmente a ação do professor, tem um teor “normativo/confrontativo”. A escola homogeneíza os corpos, disciplinando-os através de diversos mecanismos, exercendo sobre eles um poder normatizador. 

Ainda assim, esses corpos também resistem a essas imposições disciplinadoras. Desse modo, a escola é, inevitavelmente, um lugar de alta tensão entre o exercício do poder e a sua resistência. Ao exercer o seu papel na instituição o professor ensina a obedecer, mas ensina também, indiretamente, a resistir. 

Retomando… A autoridade pressupõe alguém que manda e alguém que voluntariamente obedece, exercendo sua liberdade. Além disso, poderíamos acrescentar que aquele que manda, no contexto da escola, além de produzir obediência, também produz resistência (desobediência?). E, assim, arrisco já a dizer, produz também mais liberdade, ainda que de forma relativa. 

Gente, tô pensando aqui agora: acho que não tem escapatória, viu? Nós, professores e professoras, estamos fadados para sempre a viver no limiar entre sermos obedecidos e sermos desobedecidos, porque é esse movimento que produz aprendizagem, crescimento e, em última instância, liberdade. É uma visão bem otimista, mas prefiro assim. Então, caro(a) colega, se você está produzindo desobediências é possível que você esteja indo pelo caminho certo, ainda que obviamente ele não seja o suficiente. 

Meu Deus do céu… Tô imaginando aqui que qualquer educador ou educadora sério que esteja lendo esse texto deva estar me xingando agora. Vixi, as equipes gestoras então, não quero nem pensar… Não vou comentar sobre pais, mães ou responsáveis… Vão me deixar as orelhas vermelhas. 

Mesmo assim, vou correr esse risco e terminar por aqui, porque pretendo continuar essas reflexões nos próximos textos. É evidente que elas não se esgotam nessas provocadoras linhas que vos entrego.

Mas enquanto isso, por favor, fiquem à vontade para comentar, questionar, discordar, sugerir, criticar, desobedecer-me, enfim…

Laila Sala

Referências Bibliográficas

AQUINO, Júlio Groppa. A violência escolar e a crise da autoridade docente. Cadernos Cedes, ano XIX, Nº47, dezembro/98. Pg. 7-19

____________________ (org.). Autoridade e autonomia na escola – Alternativas práticas e teóricas. São Paulo: Summus, 1999.

http://michaelis.uol.com.br/busca?id=1OQQ, consultado em 06/02/2020

Publicado por diário de Sala

Um espaço para compartilharmos as dores e as delícias de ser educador/a

6 comentários em “

  1. Laila, querida… Você é uma estréia, sempre…Encantada e em contemplação!!! Acho que você disse que não sou séria… Enfim…segura diante dessa sua condução : estou já condução de indivíduos inclinados à desobediência, SEMPRE…
    Vamos explorando um pouco por vez ,por q tem um conteúdo relevante e profundo..muito vem à mente : a nossa escola, o uniforme, a saia encurtada, os cabelos obrigatoriamente cortados, a reprodução dos livros e o conhecimento do conteúdo como afirmação do saber e todas essas contrariedades e negativas da própria identidade como MODELO de obediência ,inteligência e aceitação. Cada maluco ( acho q os não sérios, né? Kkkkk), pelos seus rompimentos (que cabem num outro blog), escaparam das suas amarras e estão aí, em seus desafios constantes de romperem vidas encapsuladas pelas amarras sociais ,provocando o surgimento de espaços p indivíduos que já nascem predestinados ao engavetamento ou encarceramento. A gente fala, fala, fala, fala…acho que até incomodar bastante…TB fazemos muito mais coisas…e esperançamos… Só quis dizer hoje, que fiquei feliz.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Laila…TB tenho uma queda pelos “bagunceiros” criativos e muito inteligentes….sempre. Sempre fui “subversiva”, não bagunceira. Amo os estudantes que procuram sempre subverter a ordem das coisas dentro do sistema escolar.Me ponho a pensar sobre o que é ser “bagunceiro”… não é o mesmo que ser subversivo. As conversas que a gente ouve dentro da escola sobre bagunça sempre estão juntas com violência.. Só pra começar essa conversa,questionar as regras impostas pela escola tradicionalissima seria uma “bagunça”? Se colocar contra as violências que os estudantes sofrem dentro das escolas pode ser chamado de “bagunça e violência”. Negar a autoridade do professor ou do diretor não é bagunça. É negar a violência do sistema educacional . Isso vale TB pra nós professores e gestores. Ao subverter a ordem (respeitando os direitos humanos)junto com os estudantes/educadores ,reconhecemos a autoridade deles como estudantes/educadores e nossa autoridade como educadores/professores é reconhecida. Será que não é por aí que o “Bairro Educador” começa a acontecer?…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Mara, querida, suas colocações me fazem pensar.
      Concordo com você, há uma diferença – e nós do Bairro Educador sabemos bem disso – entre escola e educação, né?
      E, para além disso, o que é violento? O rio que tudo arrasta, ou as margens que o oprimem? Você traz essas questões e penso que precisamos mesmo conversar mais sobre isso, porque acho que há algo que “os bagunceiros” estão expressando. E você tem razão, esse termo é um tanto pejorativo, diante do que esses meninos e essas meninas estão tentando nos dizer… Enfim, muito pano para manga, né? Continuemos conversando…
      Muito obrigada pelo comentário! De diálogo em diálogo vamos construindo um mundo melhor para todes.

      Curtido por 1 pessoa

  3. Penso que vivências e convivências possam se estabelecer a partir de atritos e são esses que transformam as pessoas, que as levam a descobertas infinitas. A escola é, por excelência, um ambiente a oferecer a relação de poder e resistência e não apenas entre educadoras(es) e estudantes, mas entre pessoas diversas e muuuiitoo diversas. A liberdade nos acena de uma prática entre respeitar a convicção do outro e colocar-se diante dele com a minha convicção, então, para tanto, o diálogo pode ser um caminho indispensável. Quem estiver disposto a dialogar que atire a primeira palavra.

    Salve, Laila!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário